Quem frequentou a escola em determinadas épocas pode lembrar perfeitamente que o alfabeto português tinha 23 letras, enquanto alunos mais novos aprenderam uma sequência com 26. As duas memórias podem estar corretas: durante décadas, K, W e Y tinham uso reconhecido, mas ficavam fora da contagem tradicional do alfabeto.
O antigo alfabeto oficial terminava a conta em 23 letras
O Formulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, adotado no Brasil a partir da década de 1940, era direto: o alfabeto português constava fundamentalmente de vinte e três letras. Na enumeração, depois do J vinha o L, depois do V aparecia o X e, em seguida, o Z.
K, W e Y não eram simplesmente ignorados. O mesmo documento dizia que existiam três letras adicionais que só poderiam ser empregadas em casos especiais, deixando clara uma distinção entre fazer parte da sequência fundamental do alfabeto e ser utilizada em situações específicas da escrita.

Leia também: 7 palavras do português que mudam completamente quando o acento troca de lugar
K, W e Y já apareciam muito antes do novo acordo
É por isso que alguém podia aprender um alfabeto de 23 letras e, ao mesmo tempo, escrever km sem nenhuma contradição. O antigo formulário admitia K em símbolos e abreviaturas como kg e km, além de seu emprego em palavras estrangeiras e em derivados de nomes próprios, como kantismo.
O mesmo acontecia com W e Y. W aparecia em símbolos e derivados de nomes estrangeiros, enquanto Y podia ser mantido em abreviaturas, símbolos científicos e palavras relacionadas a nomes estrangeiros. Portanto, essas letras estavam presentes na escrita; o que elas não tinham era o mesmo status formal das outras 23 na enumeração tradicional.
O Acordo Ortográfico colocou as três dentro do alfabeto
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, promulgado no Brasil pelo Decreto nº 6.583/2008, resolveu a questão já em sua Base I. O texto determina que o alfabeto da língua portuguesa seja formado por 26 letras, enumerando oficialmente K, W e Y nas posições que hoje parecem naturais.
O acordo foi assinado em Lisboa em 16 de dezembro de 1990, mas sua implementação brasileira ocorreu anos depois. O decreto estabeleceu efeitos a partir de 1º de janeiro de 2009 e um período de transição que terminou em 31 de dezembro de 2015, quando a nova ortografia passou a ser a referência oficial no país.
A mudança não liberou K, W e Y para qualquer palavra
Incluir as três letras no alfabeto não significou começar a escrever “kilo” no lugar de quilo ou trocar livremente I por Y. O acordo manteve restrições de uso, prevendo K, W e Y especialmente em nomes próprios de outras línguas e seus derivados, topônimos estrangeiros, siglas, símbolos e unidades de circulação internacional.
Entre os próprios exemplos oficiais aparecem Kant e kantismo, Darwin e darwinismo, Byron e byroniano, além de kg, km e Watt. A Academia Brasileira de Letras explica que essas letras já eram lembradas quando se ensinavam as antigas 23 justamente porque continuavam necessárias para nomes e símbolos.

Por que então elas ficavam fora da lista
A antiga organização refletia a ideia de que K, W e Y não eram necessárias para representar normalmente os sons das palavras portuguesas. K podia ser substituído por C ou QU, W geralmente aparecia ligado a origens estrangeiras e Y havia cedido grande parte de suas antigas funções ao I na escrita portuguesa.
O Acordo de 1990 optou por reconhecer uma realidade que já estava diante dos falantes. Sua nota explicativa menciona, entre as razões para a mudança, o fato de os dicionários já registrarem palavras com essas letras, a necessidade de definir sua posição na ordem alfabética e a existência de vocábulos com K, W e Y nos países africanos de língua portuguesa.
Quem aprendeu 23 letras na escola não está lembrando errado
A diferença entre gerações vem justamente dessa mudança normativa. Quem foi alfabetizado sob a regra anterior podia decorar uma sequência de 23 letras oficiais e aprender K, W e Y separadamente como sinais de emprego especial; alunos formados sob a nova ortografia já encontraram as três incorporadas à sequência completa.
Hoje, portanto, o alfabeto português tem oficialmente 26 letras, mas K, W e Y não surgiram de repente com o Acordo Ortográfico. Elas já circulavam havia muito tempo em nomes, palavras estrangeiras, abreviaturas e unidades como km; a mudança principal foi deixar de tratá-las como visitantes especiais e dar a elas um lugar formal no alfabeto.




