A 1.440 metros de altitude, São Thomé das Letras, em Minas Gerais, reúne paisagens de quartzito, inscrições rupestres e histórias que ajudaram a transformar o município em um dos destinos mais cercados por mistérios no Brasil. Muitas construções foram erguidas diretamente com blocos de quartzito branco, em estruturas que dispensam argamassa, enquanto antigas lendas locais falam de portais dimensionais e de uma possível conexão subterrânea com o Peru.
O que existe por trás da lenda da gruta que ligaria São Thomé a Machu Picchu?
Entre as histórias mais conhecidas da cidade está a da Gruta do Carimbado, localizada no fim da Ladeira do Amendoim. Segundo uma tradição que atravessou gerações, a caverna esconderia a entrada de um antigo túnel subterrâneo atribuído aos incas, capaz de conectar São Thomé das Letras a Machu Picchu, no Peru, em uma distância de aproximadamente 3 mil quilômetros.
O suposto caminho subterrâneo despertou a curiosidade de grupos que realizaram expedições amadoras na década de 1990 para tentar avançar pela gruta e investigar sua extensão. Nenhuma dessas iniciativas comprovou a existência do túnel. A entrada permanece fechada desde 2012 por motivos ambientais e de segurança, mantendo o local fora dos roteiros de visitação. Pesquisadores locais, entre eles Oriental Luiz Noronha, autor de São Thomé das Letras e o mundo subterrâneo, dedicaram anos ao estudo da história, sem chegar a uma conclusão definitiva sobre a suposta ligação.

Por que São Thomé das Letras recebeu esse nome?
Antes de se tornar conhecida pelo turismo esotérico, a região era chamada de Serra das Letras. A denominação fazia referência às inscrições rupestres encontradas em uma gruta localizada na área central do atual município, conforme informações da Prefeitura de São Thomé das Letras.
Os desenhos de pigmentação avermelhada são associados por pesquisadores aos Cataguases, grupo indígena que ocupou a região até o século 18. Estudos arqueológicos mencionados por especialistas estimam que parte das pinturas tenha entre 2 mil e 5 mil anos, mas não existe consenso sobre o significado dos símbolos. Ao longo do tempo, diferentes interpretações passaram a disputar espaço na história local:
- Hipótese arqueológica: manifestações de arte rupestre indígena dos Cataguases, possivelmente relacionadas a práticas rituais ou cosmológicas e com idade estimada entre 2 mil e 5 mil anos.
- Hipótese jesuíta do século 18: manuscritos atribuídos ao padre José Mascarenhas, datados de 1747, relacionam os símbolos à suposta passagem do apóstolo São Tomé pela região.
- Hipótese mística: estudiosos ligados ao esoterismo interpretam os desenhos como possíveis símbolos sumérios, fenícios ou códigos energéticos associados aos sete chacras do planeta.
Como a história de João Antão virou a lenda fundadora da cidade?
No final do século 18, a história de São Thomé das Letras ganhou um personagem central: o escravizado João Antão, que teria fugido da fazenda do capitão João Francisco Junqueira e encontrado abrigo em uma gruta no alto da serra. De acordo com a versão preservada pela Prefeitura, foi nesse esconderijo que um homem vestido de branco apareceu e entregou ao fugitivo uma carta destinada ao fazendeiro.
Quando João Francisco Junqueira chegou à gruta, encontrou uma situação que alimentou a tradição ao longo dos séculos. João Antão não sabia ler nem escrever, mas a carta apresentava uma caligrafia perfeita. No local havia apenas uma imagem de São Tomé esculpida em madeira. O fazendeiro então teria concedido a alforria ao escravizado e determinado a construção de uma capela. A tradição oral ainda conta que, depois de levada para a casa de Junqueira, a imagem desaparecia e voltava sozinha para a gruta. Em 1785, teve início a construção da Igreja Matriz, no mesmo local, com pinturas atribuídas ao artista colonial Joaquim José da Natividade.
Um dos sete pontos energéticos do planeta segundo os esotéricos
A fama esotérica de São Thomé não é recente. Desde os anos 1980, grupos místicos colocam a cidade na lista dos sete pontos energéticos da Terra. A explicação mais citada por moradores ligados a essa tradição envolve geologia, e não folclore: o quartzito do solo funcionaria como condutor natural de campo magnético. A tabela abaixo mostra os locais mais citados nessa lista mística internacional:
- Praia de Bombinhas: A principal faixa de areia da cidade, com águas cristalinas e mar calmo, ideal para famílias e esportes náuticos.
- Praia de Mariscal: Extensa praia de areia clara e ondas fortes, muito procurada por surfistas e amantes da natureza.
- Praia da Sepultura: Pequena enseada de águas transparentes, considerada um dos melhores pontos para snorkel da região.
- Praia de Canto Grande: Conhecida pelos cenários panorâmicos e por oferecer alguns dos mais belos entardeceres do litoral catarinense.
- Praia de Zimbros: Reduto tradicional de pescadores com águas tranquilas e acesso a trilhas para praias isoladas.
- Mirante Eco 360º: Ponto panorâmico que proporciona uma vista privilegiada de toda a península de Bombinhas e das ilhas vizinhas.
Em 2024, o quartzito letrense recebeu registro de Indicação Geográfica pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), reconhecimento oficial da origem e qualidade da pedra.

A ladeira em que os carros sobem em ponto morto
Nenhum ponto turístico da cidade gera mais fila de filmagem que a Ladeira do Amendoim. O ritual é sempre igual: o motorista para o veículo, coloca em ponto morto e tira o pé do freio. Em vez de descer, o carro começa a deslizar lentamente para cima do aclive.
Especialistas em geofísica explicam o fenômeno como uma ilusão de óptica gerada pelo relevo ao redor: o que parece subida é, na verdade, uma descida muito sutil disfarçada pela linha do horizonte distorcida. Para os moradores, porém, é o magnetismo das pedras de quartzo que puxa os veículos contra a gravidade. O efeito também acontece com pessoas: ao caminhar de costas pela ladeira, muita gente relata sentir um empuxo difícil de explicar.
Leia também: Com ruas de pedra e igrejas detalhadas em ouro, essa cidade de Minas Gerais parece ter parado no tempo em que nasceu.
O pico ufológico que coincidiu com o ET de Varginha
Quem visita a cidade encontra um detalhe inusitado: as caixas d’água da companhia local foram pintadas como discos voadores pela própria Prefeitura, em parceria com o serviço de saneamento. A escolha não foi gratuita. A região concentra relatos ufológicos há décadas, e alguns marcos ajudam a entender por que São Thomé virou referência nacional do tema:
- Anos 1980: pico de avistamentos documentados por moradores e pesquisadores, com episódios concentrados em 1982 e 1986, segundo registros do pesquisador Luiz Noronha.
- Caso Varginha: em 1996, a cidade vizinha entrou para o folclore ufológico mundial com o suposto avistamento de um ser extraterrestre, fortalecendo o turismo místico de toda a região do sul mineiro.
- Vigílias contemporâneas: ufólogos do Brasil inteiro organizam observações nos mirantes da Pirâmide e do Cruzeiro, dentro do Parque Municipal Antônio Rosa.
- Caixas d’água-disco: a Prefeitura abraçou o tema e transformou os reservatórios urbanos em alusão visual aos OVNIs.

Uma cidade inteira construída sem argamassa
O quartzito branco não está só nas lendas. Ele é o material que ergueu literalmente São Thomé. Ruas, calçadas, fachadas, muros e telhados foram feitos com a pedra extraída da própria montanha. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, conhecida como Igreja de Pedra, é o exemplo mais impressionante: construída no século 18, suas paredes são formadas por blocos de quartzito encaixados sem o uso de argamassa.
O conjunto foi reconhecido oficialmente. A Igreja de Pedra foi tombada individualmente pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) em 1985, e o centro histórico inteiro recebeu tombamento pelo mesmo instituto em 1996. A cidade, que tinha cerca de 4 mil habitantes na época da emancipação, em 1963, hoje passa de 7 mil moradores e recebe mais de 500 mil visitantes por ano, segundo a Prefeitura.
Vale conhecer o lugar mais místico do Brasil
Poucos lugares no país conseguem reunir arqueologia milenar, arquitetura colonial em pedra crua e uma tradição ufológica de quatro décadas no mesmo CEP. São Thomé das Letras é o tipo de destino que recompensa quem chega disposto a deixar o ceticismo no estacionamento.
Você precisa conhecer São Thomé das Letras com tempo de pôr do sol na Pirâmide e entender por que essa montanha de quartzito virou endereço fixo das histórias mais estranhas de Minas.




