A Stegra constrói em Boden a primeira usina industrial a produzir aço com hidrogênio verde no lugar do carvão; metade da produção inicial já está vendida, e a empresa negocia com a Vale e com o Maranhão os próximos polos

Existe um vilão climático escondido em praticamente tudo ao seu redor — no carro, na geladeira, na estrutura do prédio onde você está. O aço responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂, e o motivo é um casamento de séculos: para transformar minério de ferro em metal, a siderurgia queima carvão. Sempre foi assim. Até agora.
No norte da Suécia, na cidade de Boden, a startup Stegra ergue a primeira usina siderúrgica de grande escala do mundo projetada para produzir aço sem carvão, substituindo o combustível fóssil por hidrogênio verde. O projeto, que já levantou cerca de US$ 7 bilhões em financiamento, tem início de produção previsto para 2026 — com capacidade inicial de 2,5 milhões de toneladas por ano, escalando para 4,5 milhões no futuro.
Como se faz aço sem carvão
A química da mudança é elegante. Na siderurgia tradicional, o carvão cumpre o papel de “arrancar” o oxigênio do minério de ferro — e o subproduto dessa reação é justamente o CO₂ lançado na atmosfera em escala colossal.
O processo da Stegra troca a peça central:
- Energia renovável — a usina fica numa região sueca farta de hidrelétricas e parques eólicos, que alimentam um eletrolisador gigante, o primeiro da Europa em escala “giga”;
- Hidrogênio verde — o eletrolisador divide a água em hidrogênio e oxigênio, sem emissões;
- Redução do minério — o hidrogênio assume o papel do carvão, removendo o oxigênio do minério de ferro e produzindo o chamado ferro-esponja;
- O subproduto vira vapor d’água — em vez de CO₂.
Resultado: aço com até 95% menos emissões que o convencional. Não é um ajuste na margem — é a reinvenção do processo que sustenta a civilização industrial desde o século 19.

O detalhe que prova que o mercado acredita
Tecnologia verde costuma esbarrar na mesma pergunta: quem paga a conta? A Stegra respondeu antes de inaugurar: metade do volume inicial de produção já está vendida por contrato, para clientes dispostos a pagar um prêmio pelo aço limpo — montadoras e indústrias pressionadas por suas próprias metas de descarbonização.
A empresa, fundada em 2020 com o nome H2 Green Steel (rebatizada de Stegra, “elevar” em sueco), também desenvolveu software próprio de rastreamento de emissões — porque, no mercado que ela está criando, provar a origem limpa do aço vale tanto quanto o aço.

O capítulo brasileiro da história
Para o Brasil, essa não é uma notícia distante. O país está diretamente conectado ao projeto por duas vias:
- A parceria com a Vale — a mineradora brasileira e a Stegra assinaram acordo para estudar o desenvolvimento de polos industriais de baixo carbono no Brasil e na América do Norte, envolvendo briquetes de minério de ferro, ferro-esponja e hidrogênio verde. Para a Vale, é a porta de entrada no mercado de hidrogênio;
- As negociações com o Maranhão — o governo estadual negocia com a Stegra a implantação de uma planta ligada à cadeia do hidrogênio verde e do beneficiamento de minério, transformando o ferro exportado in natura em produto de valor agregado.
A lógica da expansão favorece o país: a receita do aço verde exige energia renovável abundante e barata, minério de ferro de qualidade e escala — uma combinação que pouquíssimos lugares do mundo oferecem, e o Brasil é um deles, como a própria empresa já reconheceu publicamente.
A corrida que está apenas começando
A usina de Boden é a primeira, não a única ambição: a Stegra avalia unidades fora da Suécia — o projeto mais avançado é em Sines, Portugal, ainda dependente de volumes enormes de energia (1.000 a 1.500 MW) e de decisão final de investimento. É a mesma matemática que atravessa toda a nova indústria limpa: o gargalo deixou de ser a tecnologia e passou a ser a eletricidade renovável disponível — o que explica a corrida paralela por máquinas como a maior turbina eólica do mundo, de 26 MW, recém-ligada à rede na China.
Se o cronograma se confirmar, 2026 entra para a história industrial como o ano em que o aço — o material que construiu o mundo moderno queimando carvão — começou a ser feito com água e eletricidade. E o Brasil, dono do minério e da energia, tem assento reservado no segundo capítulo.









