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Início Curiosidades

Especialistas em psicologia apontam: quem conversa em voz alta com o cachorro ou o gato não está sendo excêntrico, mas pode estar demonstrando uma forma sofisticada de inteligência social

Por Gabriel Leme
04/10/2026
Em Curiosidades
Conversar com o gato em voz alta é sinal de inteligência social, segundo a psicologia

Conversar com o gato em voz alta é sinal de inteligência social, segundo a psicologia

Eram quase oito da noite de uma terça-feira quando Renata, 34 anos, analista financeira em Belo Horizonte, entrou no apartamento e avisou ao gato que o dia tinha sido péssimo. Biscoito, um vira-lata laranja de seis anos, respondeu com um miado curto e pulou no braço do sofá. Ela contou a ele sobre a planilha que travou e o ônibus lotado, como fazia toda noite sem pensar muito no assunto.

Um hábito que começou no isolamento

As conversas com Biscoito começaram em 2020, quando Renata passou a trabalhar de casa e chegava a ficar três dias sem falar com outra pessoa. Primeiro eram comentários soltos, depois vieram as perguntas: se ele queria ração, se ia chover, se ela devia aceitar a vaga nova. Com o tempo, ela percebeu que o gato miava diferente nas noites em que ela chorava.

A vizinha de porta, Cida, 61 anos, costureira aposentada, fazia o mesmo com a cadela dela, e as duas riam disso no elevador. Para Renata, falar com o gato nunca tinha sido um problema, só uma parte da rotina da casa. A dúvida apareceu apenas no dia em que alguém de fora escutou.

A piada na videochamada que virou preocupação

Numa reunião on-line em março, Renata esqueceu o microfone aberto e pediu a Biscoito que saísse de cima do teclado porque ela estava falando com a diretoria. Um colega comentou, rindo, que ela precisava de terapia urgente, e a frase circulou no grupo da equipe por dias. Por telefone, a mãe reforçou que gente que conversa com bicho está sozinha demais.

Incomodada, ela procurou ajuda pela internet e encontrou um perfil que oferecia uma avaliação de personalidade por R$ 180, paga antes, por transferência. Quando pediu o número de registro profissional, ouviu que a pessoa era terapeuta holística, não psicóloga. Renata desistiu do pagamento e marcou um acolhimento na unidade básica de saúde do bairro, onde foi atendida duas semanas depois.

Rotina de trabalho em casa fez crescer o hábito de falar com o pet
Rotina de trabalho em casa fez crescer o hábito de falar com o pet

O que a psicologia e as normas dizem sobre isso

Na UBS, a psicóloga explicou que conversar com animais de estimação é um caso clássico de antropomorfismo, a tendência de atribuir uma mente humana a seres que não são humanos. O pesquisador Nicholas Epley, da Universidade de Chicago, estuda o tema há anos e defende que esse impulso vem da mesma capacidade que usamos para entender o que os outros pensam e sentem. Em vez de excentricidade, é inteligência social funcionando.

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O atendimento que Renata recebeu se apoia na Portaria 3.088/2011 do Ministério da Saúde, que criou a Rede de Atenção Psicossocial do SUS e coloca a atenção básica como porta de entrada para quem vive algum sofrimento psíquico. A Lei 5.766/1971, que criou os conselhos de psicologia, determina que todo psicólogo se inscreva no conselho regional da sua área. Sem essa inscrição, a pessoa não pode exercer a profissão.

Quais direitos tem quem busca atendimento psicológico

A psicóloga deixou claro que o hábito de Renata não indicava transtorno nenhum e que o vínculo afetivo com Biscoito funcionava como apoio emocional. Mesmo assim, ela explicou o que qualquer pessoa pode exigir ao procurar esse tipo de cuidado, seja no SUS, seja num consultório particular:

  • acolhimento na unidade básica de saúde, sem custo e sem precisar de plano de saúde;
  • o número de inscrição no Conselho Regional de Psicologia, que pode ser conferido de graça no Cadastro Nacional de Psicólogos, pelo nome, CPF ou número do registro;
  • sigilo sobre tudo o que for dito nas sessões, como prevê o Código de Ética Profissional do Psicólogo;
  • declaração de comparecimento, útil para justificar a ausência no trabalho.

E quando o atendimento não sai do lugar?

Nem toda unidade de saúde tem psicólogo na equipe, e em algumas cidades a espera por uma vaga passa de meses. Quando a fila trava ou aparece alguém atuando sem registro, existem canais oficiais para insistir, reclamar ou denunciar:

  • Ouvidoria do SUS, pelo Disque Saúde 136, para registrar demora ou falta de atendimento;
  • secretaria municipal de saúde, que organiza a rede local e os Centros de Atenção Psicossocial;
  • clínicas-escola de universidades, que costumam oferecer atendimento gratuito ou a preço social;
  • Conselho Regional de Psicologia do estado, para denunciar quem atua sem registro ou descumpre o código de ética;
  • Defensoria Pública, quando a falta de atendimento persiste e é preciso cobrar o poder público.

Biscoito continua ouvindo tudo

Renata saiu da segunda sessão sem diagnóstico e com uma explicação que mudou o jeito como enxergava o próprio hábito. No dia seguinte, contou ao colega da piada que a conversa com o gato tinha nome na psicologia e até pesquisa de universidade americana por trás. Hoje ela segue falando com Biscoito toda noite, agora sem baixar a voz quando a janela está aberta.

Quem passou por constrangimento parecido e ficou com dúvida pode começar pela UBS mais próxima de casa, onde a escuta é gratuita. Antes de pagar por qualquer avaliação particular, a consulta ao Cadastro Nacional de Psicólogos leva menos de um minuto e mostra se o registro está ativo. Se houver cobrança sem registro, a denúncia vai para o conselho regional do estado.

Renata, Cida e Biscoito são personagens inventados. Já a piada no trabalho, o perfil que cobra por avaliação sem ter registro e a fila na unidade de saúde aparecem o tempo todo em relatos de verdade, e foi juntando esses casos que a história tomou forma, para mostrar o que a ciência e as normas dizem sobre o assunto.

Tags: animais de estimaçãoantropomorfismopsicologiasaúde mental no SUS
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