Um biomaterial criado na Northwestern University, nos Estados Unidos, fez a cartilagem do joelho voltar a crescer em ovelhas. Em seis meses, os defeitos tratados se encheram de tecido novo com colágeno tipo II e proteoglicanos, os componentes da cartilagem saudável, segundo o comunicado da universidade.
O estudo foi publicado na revista PNAS em 6 de agosto de 2024 e voltou a circular em sites de língua espanhola em outubro de 2026. Não existe versão para pacientes: o resultado vale para animais, e a equipe não anunciou nenhum teste em humanos até outubro de 2026.
Por que a cartilagem do joelho quase não se conserta
A cartilagem que recobre a ponta dos ossos no joelho é do tipo hialino, lisa e sem vasos sanguíneos. Sem circulação, chegam pouquíssimas células capazes de reparar um estrago.

O químico Samuel Stupp, que liderou o trabalho, resumiu o problema no comunicado: em adultos, a cartilagem não tem capacidade própria de se curar. Por isso uma lesão, depois de aberta, tende a crescer com o uso.
O tratamento padrão hoje é a microfratura. O cirurgião faz pequenos furos no osso logo abaixo da lesão para estimular o crescimento de tecido. Segundo Stupp, o que nasce ali costuma ser fibrocartilagem, a mesma da orelha, menos resistente ao atrito de uma articulação que dobra milhares de vezes por dia.
Uma pasta que vira andaime para as próprias células
O material junta duas peças. A primeira é um peptídeo bioativo que se liga ao TGF beta 1, proteína essencial para formar e manter cartilagem. A segunda é o ácido hialurônico modificado, a mesma substância presente nos cosméticos e no líquido que lubrifica as articulações.
Juntos, os dois componentes se organizam em feixes de nanofibras que imitam a arquitetura natural da cartilagem. A ideia não é colocar um tecido pronto, e sim oferecer um andaime que as células do próprio corpo ocupam.
Na prática, a mistura é aplicada como uma pasta grossa dentro do defeito. Ali, ela se transforma numa matriz borrachuda que fica no lugar mesmo com a articulação em movimento. À medida que o andaime se degrada, a cartilagem nova ocupa o espaço.
O que as ovelhas mostraram em seis meses
Os testes foram feitos no laboratório de Mark Markel, na Escola de Medicina Veterinária da University of Wisconsin-Madison. A articulação tratada foi o stifle, o joelho da pata traseira da ovelha, parecido com o humano em tamanho, peso suportado e carga mecânica.
A escolha do animal foi deliberada. “Um estudo em modelo de ovelha prevê melhor como o tratamento vai funcionar em humanos”, disse Stupp, lembrando que em bichos menores a cartilagem se regenera com muito mais facilidade.
Os pesquisadores criaram lesões rasas no côndilo femoral, a parte do fêmur que recebe peso. O resumo do artigo, disponível no registro do estudo na base PubMed, descreve reparo de cartilagem hialina significativamente melhor do que nos defeitos que receberam apenas o fator de crescimento.
Um detalhe muda a leitura: as ovelhas eram saudáveis, com lesões feitas em cirurgia. Isso é diferente de artrose, doença que desgasta a articulação inteira ao longo de anos.
Ainda sem data para pacientes, no Brasil ou fora
Os próprios autores falam no condicional. No comunicado da Northwestern reproduzido pelo ScienceDaily, eles dizem que, com mais trabalho, o material poderia um dia ajudar a evitar próteses de joelho, tratar artrose e reparar lesões esportivas como a do ligamento cruzado anterior.
Também não se trata de uma injeção de consultório. Stupp imagina o uso durante cirurgia aberta ou artroscopia, no mesmo momento em que hoje se faria a microfratura.
Ovelha não é paciente, e seis meses é pouco para um joelho que precisa durar décadas. O caminho até a clínica passa por estudos de segurança e eficácia em pessoas, que ainda não foram anunciados.
No Brasil, um produto assim só chegaria a pacientes depois de pesquisa clínica aprovada pelo sistema de comitês de ética e de registro na Anvisa. A demanda existe: segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, mais de 15 milhões de brasileiros convivem com alguma doença reumática, e a artrose está entre as mais comuns.
Enquanto isso, quem sente dor no joelho deve procurar ortopedista ou reumatologista, que define o tratamento de cada caso. Medidas com respaldo atual incluem atividade física orientada, e o CB Radar já mostrou como a caminhada pode aliviar a dor e frear a piora da artrose e quais exercícios ajudam a reduzir os sintomas da osteoartrite.




