Em 22 de novembro de 1910, marinheiros brasileiros assumiram o controle de navios de guerra e apontaram seus canhões para o Rio de Janeiro, então capital do país. O episódio ficou conhecido como Revolta da Chibata e teve como principal liderança João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, que lutava contra os castigos físicos e os maus-tratos na Marinha.
Por que marinheiros brasileiros se revoltaram contra a própria Marinha?
No início do século XX, a Marinha brasileira ainda utilizava punições corporais contra marinheiros acusados de indisciplina. Entre elas estavam as chibatadas, prática associada ao período escravista e que continuava presente na instituição mesmo depois da abolição da escravidão, em 1888.
A situação era agravada pelas diferenças sociais e raciais dentro da corporação. Enquanto os oficiais pertenciam predominantemente às camadas privilegiadas da sociedade, grande parte dos marinheiros era formada por homens negros e pobres. Segundo o Senado Federal, a revolta expôs a permanência de práticas autoritárias e racistas no Brasil republicano.

As 250 chibatadas que anteciparam o início da revolta
O movimento já estava sendo organizado secretamente quando um episódio acelerou os acontecimentos. Em novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Meneses recebeu uma punição de 250 chibatadas a bordo do encouraçado Minas Gerais, depois de se envolver em uma ocorrência disciplinar. A violência provocou indignação entre seus companheiros.
De acordo com o Atlas Histórico do Brasil, da Fundação Getulio Vargas, os marinheiros planejavam iniciar a rebelião em 25 de novembro, mas anteciparam a ação para o dia 22. O objetivo era pressionar o governo do recém-empossado presidente Hermes da Fonseca a acabar com os castigos corporais e melhorar as condições de trabalho.
Como os revoltosos conseguiram ameaçar o Rio de Janeiro?
Na noite de 22 de novembro, os marinheiros tomaram o controle de quatro embarcações militares na Baía de Guanabara. Entre elas estavam os modernos encouraçados Minas Gerais e São Paulo, considerados alguns dos navios de guerra mais poderosos daquele período. Durante a tomada das embarcações, houve confrontos e mortes de oficiais.
Com os canhões voltados para a capital federal, os rebeldes enviaram um ultimato ao governo. A ameaça de bombardeio provocou medo entre os moradores, e disparos realizados durante o movimento chegaram a atingir a cidade, causando mortes de civis. As principais reivindicações dos marinheiros eram:
- Fim das chibatadas e de outros castigos físicos.
- Melhores condições de trabalho e tratamento digno aos marinheiros.
- Melhoria da alimentação oferecida nas embarcações.
- Anistia aos participantes para impedir punições pela rebelião.
Quem foi João Cândido, o marinheiro conhecido como Almirante Negro?
Nascido em 1880, no Rio Grande do Sul, João Cândido Felisberto ingressou na Marinha ainda adolescente e acumulou experiência em viagens internacionais. Sua trajetória permitiu conhecer diferentes realidades navais e participar da organização dos marinheiros que questionavam os castigos físicos. Durante a revolta, tornou-se a liderança mais conhecida do movimento.
O apelido Almirante Negro passou a representar sua atuação à frente dos revoltosos, embora João Cândido não ocupasse oficialmente a patente de almirante. Sua importância também está relacionada ao desafio imposto à hierarquia militar por trabalhadores que exigiam reconhecimento como cidadãos e condições de serviço compatíveis com a República.

O governo prometeu anistia, mas os marinheiros foram perseguidos
Diante da ameaça representada pelos navios, o governo e o Congresso aceitaram negociar. Em 25 de novembro de 1910, foi concedida anistia aos participantes que se submetessem às autoridades. Os revoltosos encerraram o movimento e devolveram as embarcações, mas a promessa de proteção não impediu que muitos marinheiros fossem posteriormente expulsos, presos ou perseguidos.
A repressão se intensificou após novos episódios de insubordinação na Marinha, em dezembro daquele ano. João Cândido foi preso e passou por condições extremamente duras de encarceramento, sobrevivendo a um episódio em que outros prisioneiros morreram. Posteriormente absolvido pela Justiça, acabou afastado da carreira naval e enfrentou dificuldades financeiras durante boa parte da vida, até sua morte, em 1969.
Por que a Revolta da Chibata continua importante para a história brasileira?
A Revolta da Chibata mostrou que o fim oficial da escravidão não havia eliminado práticas de violência e desigualdade nas instituições brasileiras. O episódio também revelou a capacidade de organização dos marinheiros, que utilizaram embarcações militares para exigir mudanças. Em 23 de julho de 2008, a Lei nº 11.756 concedeu anistia póstuma a João Cândido e aos demais participantes, buscando restaurar o reconhecimento jurídico previsto em 1910.
Para compreender o episódio, é necessário observar tanto as reivindicações dos marinheiros quanto a violência registrada durante a rebelião e a repressão posterior. A trajetória de João Cândido permanece ligada às discussões sobre racismo, direitos dos trabalhadores e memória histórica. Documentos preservados pelo Senado, pela Câmara dos Deputados e por instituições de pesquisa permitem conhecer melhor um acontecimento que colocou a própria Marinha brasileira diante de suas contradições.




