Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, centenas de africanos escravizados e libertos tomaram as ruas de Salvador em uma revolta contra a escravidão e a dominação das autoridades. Conhecido como Revolta dos Malês, o movimento foi organizado principalmente por africanos muçulmanos e assustou o governo imperial pela capacidade de articulação dos participantes.
Por que a Revolta dos Malês aconteceu em Salvador?
Na primeira metade do século XIX, Salvador reunia uma numerosa população africana, formada por pessoas escravizadas e libertas que trabalhavam no comércio, no transporte e em diferentes atividades urbanas. Apesar de sua participação na economia, esses trabalhadores enfrentavam violência, discriminação e restrições à liberdade, em uma sociedade sustentada pela escravidão.
A revolta ocorreu durante o Período Regencial, quando o Brasil era governado por regentes após a abdicação de Dom Pedro I, em 1831. Segundo a Câmara dos Deputados, o levante expressou a resistência à escravidão e às limitações religiosas impostas aos africanos. A busca por liberdade foi uma das principais motivações do movimento.

Quem eram os malês e como conseguiram organizar a rebelião?
O termo malê deriva de uma palavra iorubá relacionada aos muçulmanos. Entre os organizadores estavam principalmente africanos nagôs, além de participantes de outras origens. Muitos tinham conhecimento da escrita árabe e utilizavam reuniões religiosas para compartilhar ensinamentos e fortalecer vínculos. A religião islâmica desempenhou papel importante na mobilização, embora africanos não muçulmanos também tenham participado.
De acordo com a pesquisa Impressões Rebeldes, da Universidade Federal Fluminense, as reuniões combinavam estudos religiosos, orações e planejamento político. Entre os nomes associados à organização estavam Pacífico Licutan, também conhecido como Bilal, e outros líderes religiosos africanos. A capacidade de organização demonstrou que os participantes possuíam redes de comunicação e objetivos políticos, contrariando a ideia de uma reação espontânea e sem planejamento.
Como os revoltosos tomaram as ruas de Salvador em 1835?
O levante foi preparado para ocorrer durante o Ramadã, mês sagrado do calendário islâmico. Entretanto, informações sobre a conspiração chegaram às autoridades na noite de 24 de janeiro. Policiais se dirigiram a uma residência na região da Ladeira da Praça, onde havia participantes reunidos. A tentativa de repressão antecipou os confrontos, e os rebeldes saíram armados pelas ruas durante a madrugada.
Os acontecimentos principais ajudam a compreender a sequência da revolta:
- 24 de janeiro: informações sobre a conspiração chegam às autoridades de Salvador.
- Madrugada de 25 de janeiro: a intervenção policial provoca o início antecipado dos confrontos.
- Mobilização: aproximadamente 600 africanos participam da rebelião.
- Combates: os revoltosos enfrentam forças policiais e militares em diferentes pontos da cidade.
- Derrota: após algumas horas, as autoridades conseguem controlar o movimento.
- Repressão: prisões, investigações e punições atingem participantes e suspeitos.
Quantas pessoas morreram e como o Império reprimiu o movimento?
Embora tenha durado poucas horas, a rebelião provocou numerosas mortes. Segundo o projeto Impressões Rebeldes, mais de 70 revoltosos morreram durante os confrontos, além de aproximadamente uma dúzia de integrantes das forças que os enfrentaram. A superioridade militar das autoridades contribuiu para a derrota dos africanos, que utilizaram principalmente armas brancas contra tropas equipadas com armas de fogo.
A repressão continuou depois dos combates, com investigações, prisões, açoites, deportações e condenações à morte. Uma reportagem da Revista Pesquisa FAPESP, baseada em estudos do historiador João José Reis, registra que 16 pessoas receberam condenações à morte, das quais quatro foram executadas. Em 14 de maio de 1835, os quatro condenados foram fuzilados em Salvador. Separamos esse vídeo do canal do Buenas Ideias falando mais sobre esse tema:
Por que a Revolta dos Malês assustou tanto as autoridades?
O levante mostrou que pessoas submetidas à escravidão conseguiam construir redes de solidariedade, compartilhar informações e organizar uma ação coletiva dentro de uma grande cidade. A participação de africanos alfabetizados em árabe também chamou atenção das autoridades, pois evidenciava a existência de formas próprias de educação e organização entre os escravizados e libertos.
Além disso, o governo temia que a revolta se espalhasse para outras áreas da Bahia e comprometesse a ordem escravista. O historiador João José Reis, em estudo publicado pela Universidade de São Paulo, analisa o movimento como uma rebelião com dimensões religiosas, étnicas e sociais. Embora os objetivos detalhados dos líderes não sejam inteiramente conhecidos, a oposição à dominação escravista ocupava uma posição central.
O que a Revolta dos Malês representa para a história brasileira?
A Revolta dos Malês tornou-se uma referência da resistência africana à escravidão no Brasil. O episódio demonstra que os escravizados não aguardaram passivamente a abolição de 1888, mas organizaram diferentes formas de enfrentamento ao sistema. Também revela a importância das tradições culturais e religiosas africanas na formação das redes de resistência durante o século XIX.
Para compreender melhor o acontecimento, vale consultar os documentos preservados pelo Arquivo Público do Estado da Bahia, que incluem registros das investigações e dos processos relacionados ao levante. Esses materiais ajudam a conhecer os participantes e a atuação das autoridades, embora precisem ser interpretados criticamente por terem sido produzidos em uma sociedade escravista. A memória da Revolta dos Malês permanece ligada à luta por liberdade, à história da população negra e à presença do islamismo no Brasil.




