Em Coqueiro Baixo, no Vale do Taquari, quase quatro de cada dez moradores passaram dos 60 anos. A cena se repete em escalas diferentes no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Minas Gerais, os quatro estados onde o Brasil envelhece mais rápido.
Por que esses quatro estados envelhecem antes do restante do país?
O envelhecimento aqui chegou cedo porque a queda na fecundidade também chegou. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Censo 2022 mostrou que o número de brasileiros com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em 12 anos, mas o ritmo nesses quatro estados foi maior que a média nacional.
O Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul registra que, em 1970, apenas 5,8% dos gaúchos tinham mais de 60 anos. Em 2022, são 20,07%. Cinco décadas para multiplicar por quase quatro a fatia da terceira idade.

O fenômeno demográfico em números
Nada explica melhor o tamanho do desafio do que a tabela do IBGE. O índice de envelhecimento mostra quantos idosos existem para cada 100 crianças, e o salto é nítido nos quatro estados.
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2022, segunda apuração.
O destaque vai para o RS, único estado em que os idosos ultrapassam as crianças com folga. No RJ, a virada também já aconteceu. MG caminha para o mesmo cenário, e SC, ainda mais jovem na comparação direta, viu seu índice quase dobrar entre 2010 e 2022.
A cidade mais envelhecida do Brasil fica no Vale do Taquari
Em Coqueiro Baixo, no Rio Grande do Sul, 38,91% da população tem mais de 60 anos. A cidade tem 277 idosos para cada 100 crianças, segundo dados do Jornal do Comércio baseados no Censo 2022. A idade mediana local é de 53 anos.
O fenômeno não é isolado. Entre as 20 cidades mais envelhecidas do país, 19 estão no estado gaúcho. Boa parte fica na Macrorregião Central, em municípios pequenos que perderam jovens para os centros urbanos e viram a base da pirâmide etária encolher.
Como o envelhecimento mexe com a economia regional?
O efeito imediato aparece no mercado de trabalho. Menos jovens entrando significa menos braços nas indústrias, menos pessoas em idade reprodutiva e menos contribuintes para a previdência. Em alguns municípios gaúchos, escolas fecham por falta de alunos enquanto serviços de saúde para idosos disputam vagas.
O peso fiscal já se vê. Os gastos com aposentadorias urbanas, rurais e benefícios assistenciais somaram cerca de 6,5% do PIB em 2023, segundo análise do Centro de Liderança Pública (CLP), patamar comparável ao de países desenvolvidos da OCDE. As consequências para os estados envelhecidos:
- Mercado de trabalho encolhido: indústrias gaúchas e fluminenses já relatam dificuldade para repor mão de obra qualificada.
- Pressão sobre o sistema de saúde: crescem demandas por geriatria, cuidados domiciliares e tratamentos crônicos.
- Queda na arrecadação local: cidades pequenas perdem jovens contribuintes e dependem de repasses estaduais.
- Novos setores em alta: cuidadores, instituições de longa permanência, turismo sênior e produtos voltados à terceira idade ganham espaço.
- Reorganização do consumo: o varejo regional precisa redesenhar produtos e serviços para um público mais velho.

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O que vem pela frente nas próximas décadas
As Projeções de População 2024 do IBGE indicam que o Brasil vai parar de crescer em 2041. No RS, a queda começa antes, em 2027. Em 2070, cerca de 37,8% dos brasileiros terão mais de 60 anos, o que corresponde a 75,3 milhões de pessoas.
A idade média projetada para o país em 2070 é de 48,4 anos. O Rio Grande do Sul, hoje com idade média de 38,1 anos, deve chegar a esse ponto bem antes da média nacional. Os quatro estados precisarão repensar políticas públicas, infraestrutura urbana e estrutura produtiva para acompanhar essa mudança.
O Brasil que já chegou lá primeiro
Esses quatro estados funcionam como um laboratório do Brasil que vem aí. As decisões tomadas hoje no Sul e no Sudeste sobre saúde pública, mercado de trabalho e previdência darão o tom de como o restante do país vai enfrentar o mesmo cenário nas próximas décadas.
Vale acompanhar de perto o que acontece em municípios como Coqueiro Baixo e nas grandes capitais fluminenses, mineiras e gaúchas, porque o futuro demográfico do Brasil já está sendo desenhado por lá.










