Uma frase escrita por Sor Juana Inés de la Cruz no século XVII continua resumindo sua relação intensa com o conhecimento. Na Resposta a Sor Filotea de la Cruz, de 1691, a escritora e intelectual novohispana explicou que estudava não para ensinar ou exibir erudição, mas para tentar reconhecer e reduzir a própria ignorância.
Sor Juana resumiu sua relação com o estudo em uma frase
No texto, Sor Juana escreveu: “Yo no estudio para escribir, ni menos para enseñar, sino sólo por ver si con estudiar ignoro menos”. Em português, a ideia pode ser entendida como: “Não estudo para escrever, muito menos para ensinar, mas apenas para ver se, estudando, ignoro menos”.
A frase não é uma atribuição moderna criada para redes sociais. Ela aparece efetivamente na Resposta a Sor Filotea, e um trecho pode ser consultado no material educacional da Secretaria de Educação Pública do México, que reproduz a passagem dentro do contexto da obra.

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A frase fazia parte de uma defesa muito maior
Sor Juana escreveu a Resposta a Sor Filotea em 1º de março de 1691. O texto respondia ao bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, que havia utilizado o pseudônimo Sor Filotea de la Cruz ao publicar uma carta dirigida à religiosa depois da divulgação de um texto teológico de sua autoria.
A Universidade Nacional Autônoma do México preserva uma edição da obra e explica que a carta foi escrita no Convento de San Jerónimo, na Cidade do México. Mais do que uma resposta pessoal, o documento acabou se tornando um registro de sua trajetória intelectual e das dificuldades enfrentadas para estudar.
Dizer que queria “ignorar menos” não era rejeitar o conhecimento
Lida fora do contexto, a expressão pode parecer uma afirmação de insegurança ou uma maneira de diminuir a própria capacidade. O sentido é praticamente o contrário. Sor Juana reconhecia que quanto mais estudava, mais percebia a extensão daquilo que ainda desconhecia.
A frase também carrega o tom de humildade esperado em uma resposta escrita por uma religiosa naquele período. Ao declarar que não estudava para ensinar e que isso seria uma grande soberba, Sor Juana conseguia defender sua busca pelo saber sem abandonar a linguagem religiosa e retórica adequada à situação em que escrevia.
A paixão pelos livros começou muito antes da vida no convento
Na própria Resposta, Sor Juana relata que sua inclinação para aprender apareceu muito cedo. Ela conta episódios de sua infância e descreve uma curiosidade persistente que a levou a estudar diferentes áreas, em um período no qual as oportunidades formais de educação eram muito mais limitadas para mulheres.
O Instituto Nacional de Bellas Artes e Literatura do México destaca que a Resposta a Sor Filotea apresenta uma defesa de sua capacidade intelectual e do direito das mulheres ao conhecimento. Em 2026, o instituto participou da apresentação de uma edição fac-similar do texto de 1691.

Para Sor Juana, diferentes áreas do saber estavam conectadas
Seu interesse não se limitava à poesia ou à literatura. A autora menciona estudos relacionados a lógica, retórica, música, aritmética, geometria e outras áreas, porque entendia que diferentes conhecimentos poderiam ajudar na compreensão de questões mais complexas. Essa visão explica por que estudar era uma atividade contínua em sua vida.
Até situações comuns despertavam sua curiosidade. Na Resposta a Sor Filotea, Sor Juana relata observações feitas enquanto cozinhava e usa fenômenos cotidianos para mostrar que era possível investigar e aprender em qualquer lugar. O conhecimento, para ela, não estava restrito a uma sala de estudos ou aos livros considerados mais importantes.
A frase continua atual porque transforma conhecimento em humildade
Mais de três séculos depois, “estudar para ignorar menos” continua funcionando como uma reflexão sobre aprendizado. A ideia quebra a expectativa de que estudar significa chegar a um ponto no qual a pessoa finalmente sabe tudo; na prática, cada resposta pode revelar novas perguntas e áreas que ainda precisam ser compreendidas.
O contexto histórico torna a frase ainda mais significativa. Sor Juana não escreveu apenas sobre curiosidade abstrata: ela precisou justificar por que desejava continuar aprendendo em uma sociedade que impunha limites ao acesso feminino ao conhecimento. Sua frase permanece marcante justamente porque apresenta o estudo não como demonstração de superioridade, mas como uma forma de reconhecer os próprios limites e continuar avançando.




