Tintas sem amônia costumam ser apresentadas como alternativas mais suaves, mas essa promessa não significa automaticamente menos dano ao cabelo. A farmacêutica e especialista em cuidados capilares Helena Rodero chama atenção para a monoetanolamina, substância usada em algumas dessas fórmulas e que pode provocar danos importantes à fibra dependendo da concentração e da composição do produto.
Sem amônia não significa que a coloração deixou de ser alcalina
Colorações permanentes precisam criar condições para que os precursores de cor penetrem no fio e produzam o resultado desejado. Tradicionalmente, a amônia funciona como alcalinizante, elevando o pH e facilitando alterações na cutícula necessárias durante o processo de coloração.
Quando a embalagem informa “sem amônia”, outra substância precisa cumprir uma função semelhante em muitas fórmulas permanentes. Uma das alternativas utilizadas é a monoetanolamina, conhecida como MEA, que possui características diferentes da amônia e não deve ser interpretada simplesmente como uma opção inofensiva.

Helena Rodero alerta para a monoetanolamina nas tintas
A farmacêutica Helena Rodero, especialista em pele e cabelo e com formação específica em cosmética capilar, alerta que algumas tinturas sem amônia podem causar bastante dano porque recorrem à monoetanolamina. Na explicação da especialista, a substância é menos volátil que a amônia e pode permanecer mais tempo em contato com a fibra.
Rodero chama atenção principalmente para o efeito sobre a cutícula do cabelo, que pode ficar mais áspera e danificada quando submetida repetidamente a processos químicos intensos. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas percebem fios secos, sem brilho ou mais difíceis de pentear mesmo depois de escolherem uma coloração anunciada como “sem amônia”.
Um estudo encontrou mais danos em fórmulas com MEA
Uma pesquisa publicada no Journal of Cosmetic Science comparou formulações de coloração baseadas em monoetanolamina e amônia. Os pesquisadores avaliaram danos por diferentes métodos e encontraram maior deterioração nas formulações com MEA, chegando a até 85% a mais no cenário mais extremo analisado.
Esse número exige contexto: ele não significa que toda tinta sem amônia danifique exatamente 85% mais o cabelo. O resultado depende de concentração, formulação e condições de uso, e existem produtos sem amônia desenvolvidos com combinações diferentes de ingredientes. O estudo mostra, porém, que retirar a amônia não garante automaticamente uma formulação mais delicada.
A água oxigenada também participa do dano causado pela coloração
O alcalinizante não é o único componente importante. As colorações oxidativas permanentes normalmente utilizam peróxido de hidrogênio para desencadear as reações necessárias à mudança de cor, e concentrações mais elevadas ou processos repetidos podem aumentar a agressão à fibra.
Outro estudo disponível no PubMed encontrou efeitos importantes da combinação entre peróxido de hidrogênio e monoetanolamina em modelos experimentais, incluindo aumento de estresse oxidativo e citotoxicidade. Por isso, avaliar uma tinta apenas pela presença ou ausência de amônia fornece uma visão incompleta do produto.

Nem toda fórmula sem amônia terá o mesmo resultado
A composição completa importa mais do que uma única expressão estampada na caixa. Há inclusive estudos clínicos com formulações permanentes sem amônia e baseadas em MEA que apresentaram boa tolerabilidade em condições específicas, mostrando que veículo, concentração, outros ativos e modo de uso alteram bastante o resultado final.
Também entram na conta o estado inicial do cabelo e o histórico de procedimentos. Fios já submetidos a descoloração, alisamento, calor frequente ou diversas colorações podem apresentar maior porosidade e fragilidade, tornando uma nova intervenção química mais perceptível do que seria em uma fibra pouco sensibilizada.
Como escolher uma tinta sem confiar apenas no rótulo “sem amônia”
Quem pretende colorir os fios deve observar a fórmula completa, seguir rigorosamente o tempo indicado e evitar aumentar por conta própria a concentração do oxidante. Também faz sentido conversar com um profissional sobre estado da fibra, objetivo de cor e necessidade real de utilizar uma coloração permanente, especialmente quando o cabelo já está sensibilizado.
O alerta de Helena Rodero não significa que toda tinta com amônia seja boa nem que todas as versões sem amônia sejam ruins. A principal mensagem é que “sem amônia” não deve ser usada como sinônimo automático de menos agressão capilar: monoetanolamina, peróxido de hidrogênio, concentração dos ingredientes e frequência de uso também precisam entrar na avaliação.




