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Tiro de Guerra: como servir o Exército morando em casa e por que centenas de cidades disputam uma unidade

Por Daniely Cardoso
16/07/2026
Em Notícias
O TG entrega ao município um contingente permanente de jovens organizados e disponíveis para ações comunitária

O TG entrega ao município um contingente permanente de jovens organizados e disponíveis para ações comunitária

CORREIO BRAZILIENSE
O QUE VOCÊ VAI VER
  • • Como conciliar o serviço militar obrigatório com trabalho e estudos.
  • • A divisão de tarefas e custos entre prefeituras e o Comando do Exército.
  • • O real motivo que faz cidades esperarem décadas para sediar uma unidade.
  • • Os critérios técnicos que o Exército usa para validar a criação de um novo TG.

Existe uma forma de prestar o serviço militar obrigatório sem sair de casa, sem largar o emprego e sem trancar a faculdade. Chama-se Tiro de Guerra, funciona há mais de um século no Brasil e está presente em cerca de 250 cidades. O detalhe que quase ninguém sabe é que essas cidades não foram sorteadas: elas correram atrás, algumas por décadas. Paracatu, em Minas, esperou 70 anos pela sua. Aqui explicamos como o TG funciona para o jovem e por que ele virou objeto de disputa entre prefeituras.

O que é o Tiro de Guerra?

É uma unidade do Exército, mas com uma lógica de funcionamento bem diferente do quartel tradicional.

O TG é destinado à formação de reservistas de segunda categoria, os chamados atiradores. Ele permite que o convocado que não foi incorporado a uma organização militar da ativa preste o serviço militar inicial no próprio município onde mora. Ou seja: o serviço vai até o jovem, em vez de o jovem ir até o serviço.

A formação dura nove meses, com carga aproximada de 12 horas semanais

Como é a rotina de quem serve?

Aqui está o que torna o modelo atraente, e o que explica a procura.

A formação dura nove meses, com carga aproximada de 12 horas semanais. O atirador dorme em casa, mantém o emprego e pode seguir estudando. A instrução é estruturada justamente para permitir essa conciliação. Ao final, ele recebe o certificado de reservista, com a situação militar quitada de forma definitiva.

Quem paga o quê?

A divisão de custos é o coração do arranjo, e ela explica por que o TG depende de dois lados.

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Conforme descreve a Prefeitura de São José dos Campos, que mantém convênio com o Exército, a repartição funciona assim:

Parceria: Como funciona o convênio

Clique nas partes interessadas para ver o que cada uma fornece ao Tiro de Guerra:

Por que as cidades querem tanto?

A resposta óbvia seria o civismo, e ela não está errada. Mas há razões bem mais práticas em jogo.

O TG entrega ao município um contingente permanente de jovens organizados e disponíveis para ações comunitárias: doação de sangue, campanha do agasalho, coleta de alimentos. Em várias cidades, os atiradores auxiliam a Defesa Civil no combate a queimadas e em atividades ligadas ao Corpo de Bombeiros. Para uma prefeitura pequena, isso é capacidade operacional que ela não teria de outro jeito.

Existe uma vantagem estratégica?

Existe, e ela é pouco divulgada fora do meio militar.

Municípios que sediam Tiro de Guerra podem contar com apoio do Exército, mediante autorização, em casos de calamidade pública e catástrofes que justifiquem o emprego de tropas federais na região, nos termos da Lei Complementar 97, que trata do emprego das Forças Armadas. Numa cidade sujeita a enchente ou seca severa, ter uma unidade do Exército instalada muda o tempo de resposta.

Como uma cidade consegue um TG?

O caminho é longo e depende de iniciativa local, não de decisão de Brasília.

O processo costuma seguir esta ordem:

01
Aprovar lei municipal autorizando a criação da unidade e o convênio.
02
O prefeito formaliza o pedido ao Comandante da Região Militar.
03
Comprovar demanda: número de alistados que sustente a unidade.
04
Oferecer instalação física adequada, que o Exército vistoria.
05
Aguardar a oficialização pelo Comando do Exército.

Quanto tempo isso leva?

Aqui a paciência entra como requisito não escrito, e os exemplos são eloquentes.

Em Paracatu, em Minas Gerais, o pedido foi encaminhado ao Comando da 4ª Região Militar em março de 2022 e o TG passou a funcionar em 1º de janeiro de 2024, após 70 anos de espera. Chapadão do Sul, no Mato Grosso do Sul, ainda trabalha para sediar o primeiro TG do estado, sustentando o pedido com mais de mil alistamentos registrados na região entre 2023 e 2025. A demanda é o argumento que abre a porta.

O que decide a escolha do Exército?

Não é o tamanho da cidade nem o poder político do prefeito, e isso surpreende.

O que pesa é a matemática: o número de jovens alistados na região precisa justificar a existência da unidade. Uma cidade de porte médio com muitos alistados tem mais chance que uma cidade grande com poucos. Por isso municípios vizinhos às vezes somam contingentes numa única unidade, que atende toda a microrregião. A instalação oferecida também conta, e prédios públicos em desuso costumam virar a solução.

Vale a pena para o jovem?

Depende do que ele quer, e é honesto dizer que o TG não serve a todo mundo.

Para quem já trabalha ou estuda, é a melhor via possível: quita o serviço militar sem interromper a vida. Para quem quer carreira militar, o caminho é outro, porque o TG forma reservista, não militar de carreira. Vale ainda o Projeto Soldado-Cidadão, que oferece cursos de capacitação e amplia as chances no mercado de trabalho ao término do serviço. E há o efeito menos mensurável: disciplina, liderança e responsabilidade, atributos que aparecem com frequência nos estudos sobre hábitos de organização pessoal.

O caminho é longo e depende de iniciativa local, não de decisão de Brasília.

Como saber se sua cidade tem?

A informação é local, e é mais fácil de obter do que parece.

Consulte a Junta de Serviço Militar do seu município ou o site da prefeitura, que costuma listar o TG entre os serviços de proteção ao cidadão. Se a sua cidade não tiver, a destinação depende do processo de seleção geral, que pode encaminhar para organização militar da ativa. E vale saber: o TG não é para quem perdeu o prazo do alistamento, porque a pendência precisa ser regularizada antes de qualquer destinação. Curiosamente, cidades que sediam um TG costumam aparecer bem em rankings de qualidade de vida no interior, justamente pelo perfil de município médio e organizado.

O que convém lembrar sobre o Tiro de Guerra

O TG permite prestar o serviço militar obrigatório morando em casa, em nove meses, com cerca de 12 horas semanais, mantendo emprego e faculdade. O arranjo funciona porque a prefeitura entra com o prédio e o Exército com instrutores, fardamento e material. As cidades disputam a unidade pelo civismo, pelo apoio comunitário dos atiradores e pela presença do Exército em caso de calamidade. Mas a decisão depende de demanda comprovada, e a espera pode levar décadas.

Este conteúdo tem finalidade informativa e reflete as regras vigentes na data de publicação. Consulte a Junta de Serviço Militar do seu município ou o site oficial do alistamento para confirmar procedimentos e a existência de TG na sua região.

Tags: Exército Brasileiroreservistaserviço militarTiro de Guerra
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