Erguida em Mulegns, nos Alpes, a Tor Alva é o primeiro prédio de múltiplos andares do mundo com concreto impresso totalmente estrutural — foi feita por um robô, sem fôrmas, e poderá ser desmontada e remontada em outro lugar

Mulegns é o tipo de lugar que os mapas esquecem: uma vila alpina na Suíça que chegou a prosperar no século 19 e hoje abriga pouco mais de uma dezena de moradores, cercada de casas vazias. Foi exatamente ali — e não em Dubai, Xangai ou Nova York — que a construção civil mundial cravou um de seus marcos mais importantes: a Tor Alva (“Torre Branca”, no idioma romanche), o edifício impresso em 3D mais alto do mundo.
Inaugurada em maio de 2025, a torre de 30 metros parece saída de um filme de ficção científica: 32 colunas brancas esculturais, de formas orgânicas que lembram um bolo confeitado em camadas — uma homenagem deliberada à história dos confeiteiros da região —, coroadas por um espaço abobadado que funciona como teatro acima dos telhados da vila.
Como se imprime uma torre
A Tor Alva nasceu de uma parceria entre a fundação cultural Nova Fundaziun Origen e a ETH Zurique, uma das universidades técnicas mais respeitadas do mundo, sob o comando dos arquitetos Michael Hansmeyer e Benjamin Dillenburger, pioneiros do design computacional. Os números do processo:
- 2.500 camadas de concreto extrudado, cada uma com 10 milímetros de altura e 15 a 20 milímetros de largura;
- Cerca de 900 horas de impressão, ao longo de cinco meses, no campus da ETH em Zurique;
- Um robô industrial depositando o concreto camada por camada, sem nenhuma fôrma ou molde — a estrutura nasce direto do bico da impressora;
- Um concreto especial, desenvolvido sob medida para endurecer na velocidade exata da impressão;
- Depois de prontas, as colunas foram transportadas e montadas em Mulegns sobre um edifício histórico do século 19.
O desenho não foi traçado à mão: toda a torre foi gerada por algoritmos paramétricos, em que o computador define simultaneamente a forma, a ornamentação, a textura e o comportamento estrutural. O resultado é um nível de detalhe escultórico que, em construção convencional, custaria uma fortuna em fôrmas artesanais — e que aqui sai pelo mesmo preço de uma superfície lisa.

O recorde que importa não é a altura
Para a engenharia, o feito mais relevante da Tor Alva está escondido dentro das colunas. Até aqui, o concreto impresso em 3D carregava uma limitação incômoda: sem armadura de aço integrada, ele não podia assumir função estrutural plena em prédios de vários andares — servia para paredes, não para sustentar.
A equipe da ETH resolveu o problema com um sistema que integra a armadura de aço automaticamente durante a impressão, somado a protensão dos elementos. O resultado, segundo o laboratório de Tecnologias Digitais de Construção (DBT) da universidade: a Tor Alva é o primeiro edifício de múltiplos pavimentos do mundo com concreto impresso em 3D totalmente estrutural e reforçado, com comportamento mecânico equivalente ao do concreto convencional.
Na prática, isso muda o que a impressão 3D pode construir: de casinhas térreas experimentais para estruturas verticais de verdade — com paredes finas, alto aproveitamento de material e quase zero desperdício.

Uma torre com prazo de validade (de propósito)
Há outro detalhe incomum: a Tor Alva é temporária por projeto. Ela ficará cerca de cinco anos em Mulegns e foi concebida em sistema modular para ser desmontada e remontada em outro local, preservando os componentes — um conceito de “edifício circular” raro até em construções convencionais.
A missão na vila, porém, já está em curso: atrair visitantes, sediar apresentações culturais no teatro da cúpula e dar a Mulegns um motivo para existir no roteiro dos Alpes — a aposta da fundação para reverter o esvaziamento de uma região que já foi passagem obrigatória entre o norte e o sul da Europa.
O mesmo movimento, em escalas diferentes
A torre suíça conversa diretamente com outra frente que vem reinventando o canteiro de obras: a industrialização da construção, que troca a betoneira pela fábrica — caso do invento alemão de blocos de madeira que permite levantar as paredes de uma casa em 7 dias, sem cimento. Os caminhos são opostos — um imprime o concreto, o outro o elimina —, mas a direção é a mesma: obras mais rápidas, precisas e com menos desperdício.
No alto dos Alpes, a Torre Branca resume o momento da construção mundial: o futuro do setor está sendo testado não nas megacidades, mas onde ninguém esperava — e impresso, camada por camada, por um robô que não precisa de fôrma para criar.










