Diante do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, um detalhe chama a atenção no mapa-múndi: entre as poucas localidades brasileiras identificadas está “Cananea, 1502”. No extremo sul de São Paulo, Cananéia aparece associada a registros cartográficos muito antigos e hoje funciona como uma das principais portas de entrada do Lagamar, região de grande importância ambiental reconhecida pela UNESCO.
O passado de Cananéia começou antes da colonização oficial
A ocupação da região remonta ao início do século XVI, quando o chamado Bacharel de Cananéia, um europeu cuja história permanece cercada de incertezas, teria vivido entre os indígenas Carijós. Décadas depois, em 1531, a expedição comandada por Martim Afonso de Souza chegou à região, reforçando a presença portuguesa em uma área que já possuía ocupação anterior.
Os vestígios dessa longa história continuam espalhados pelo município. A Igreja de São João Batista, erguida em 1577, foi construída com técnicas que utilizavam calcário de conchas e óleo de baleia. Ao redor da cidade também existem sambaquis que testemunham ocupações humanas muito anteriores à chegada dos europeus, além de referências ao Caminho de Peabiru, antiga rede de caminhos indígenas que conectava diferentes áreas do interior da América do Sul ao litoral.

Quais passeios revelam a natureza preservada de Cananéia?
Cananéia é um dos principais pontos de partida para explorar o Lagamar paulista, com roteiros de barco que alcançam ilhas, praias, comunidades tradicionais e áreas de Mata Atlântica praticamente intocadas. Muitos desses lugares ficam a poucos minutos do píer e só podem ser acessados pela água.
- Baía dos Golfinhos: área entre Ilha Comprida, Ilha do Cardoso e Cananéia onde o boto-cinza costuma acompanhar as embarcações e aparecer próximo à costa.
- Parque Estadual da Ilha do Cardoso: unidade com mais de 22 mil hectares de Mata Atlântica, reunindo trilhas, cachoeiras, praias isoladas, comunidades caiçaras e sambaquis. O acesso é feito de barco.
- Praia da Pereirinha: uma das primeiras paradas dos passeios, cercada por vegetação preservada e com areia clara.
- Praia do Marujá: comunidade caiçara localizada na Ilha do Cardoso, com casas simples, mar tranquilo e atmosfera de isolamento.
- Ilha do Bom Abrigo: possui um farol histórico e um marco relacionado ao Tratado de Tordesilhas.
- Comunidade Quilombola do Mandira: oferece experiências de turismo comunitário e contato com a cultura local, incluindo a produção sustentável de ostras.
Por que o Lagamar é tão importante para a biodiversidade brasileira?
O complexo natural formado por Cananéia, manguezais, restingas, dunas e remanescentes de Mata Atlântica cria condições excepcionais para a reprodução e alimentação de diferentes espécies. Rios, canais e áreas de águas protegidas funcionam como berçários para peixes e crustáceos, além de servirem de habitat para tartarugas e aves migratórias.
O boto-cinza está entre os animais mais emblemáticos da região e pode ser observado em diferentes pontos do estuário. Segundo o Governo do Estado de São Paulo, o Lagamar concentra a maior área contínua de manguezais preservados do país. A criação do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, em 1962, ampliou a proteção desse patrimônio natural e ajudou a conservar uma das áreas costeiras mais importantes do litoral paulista.
Quais sabores fazem parte da identidade caiçara?
A culinária de Cananéia está profundamente ligada ao mar e aos modos de vida das comunidades tradicionais. A pesca artesanal, os manguezais e os ingredientes produzidos na própria região aparecem em receitas que deram ao município fama gastronômica no Vale do Ribeira.
- Ostras frescas: retiradas dos manguezais e comercializadas por produtores locais, com destaque para a produção sustentável da Comunidade do Mandira.
- Tainha: peixe associado à temporada de pesca e protagonista da tradicional Festa da Tainha, realizada durante o inverno.
- Peixe caiçara: espécies como robalo, pescada e linguado aparecem assadas, fritas ou preparadas em moquecas, geralmente acompanhadas de banana-da-terra e farinha de mandioca.
Quando o clima favorece cada passeio?
O clima subtropical úmido faz de Cananéia uma das regiões mais chuvosas de São Paulo. O inverno é a época mais seca e ideal para navegação na baía e avistamento de golfinhos.
☀️ Verão
Dez – Mar22-30°C
Temperatura🍂 Outono
Abr – Jun17-25°C
Temperatura❄️ Inverno
Jul – Set14-22°C
Temperatura🌸 Primavera
Out – Nov18-27°C
TemperaturaTemperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Quais caminhos levam até Cananéia?
Para quem parte da capital paulista, o percurso até Cananéia tem aproximadamente 270 km, seguindo pela BR-116 (Régis Bittencourt) e passando por Registro e Pariquera-Açu. De carro, a viagem costuma levar cerca de quatro horas, enquanto Curitiba também fica a menos de 300 km do município.
Como a cidade não possui aeroporto, quem chega de avião normalmente utiliza os terminais da região de São Paulo e continua o trajeto por estrada. Depois de chegar ao município, os deslocamentos para algumas ilhas, praias e comunidades do Lagamar dependem de embarcações, já que muitos desses lugares não possuem acesso rodoviário.
Por que Cananéia parece guardar um Brasil de outros tempos?
Cananéia reúne vestígios de ocupações muito antigas, construções coloniais e uma paisagem natural que permanece fortemente protegida. Sambaquis, patrimônio histórico, manguezais e comunidades tradicionais convivem em um território onde a presença humana ainda se adapta ao ritmo das águas.
A experiência muda quando o visitante deixa o centro e embarca pelo estuário. Entre canais e ilhas, o boto-cinza pode surgir ao lado da embarcação, enquanto praias sem acesso por estrada aparecem no horizonte. É justamente essa combinação de memória, isolamento e natureza que torna o extremo sul paulista tão diferente dos destinos mais urbanizados do litoral.




