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Início Cidades

Uma cidade flutuante de 1.000 anos sobre 92 ilhas artificiais que ninguém sabe como foi construída e guarda até lendas de dragões

Por Maura Pereira
13/06/2026
Em Cidades, Turismo
O enigma da cidade flutuante de 1.000 anos construída sobre 92 ilhas artificiais que ninguém sabe como foi erguida e tem lendas de dragões

Uma metrópole sem água potável, erguida no mar por um povo sem escrita, sem metal e sem roda. / Imagem ilustrativa

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Muros emergem da lagoa como costelas de uma civilização afogada. Nan Madol é uma cidade flutuante no litoral sudeste da ilha de Pohnpei, é um labirinto de 92 ilhotas artificiais construídas com colunas de rocha vulcânica sobre um recife de coral. Nenhuma roda, nenhuma roldana, nenhum metal. Apenas força humana, água salgada e um mistério que a arqueologia ainda não resolveu.

O que a arqueologia conseguiu descobrir sobre Nan Madol?

As pesquisas arqueológicas indicam que a fase monumental de Nan Madol começou entre os séculos XII e XIII. Estudos de datação mostram que enormes colunas de basalto foram extraídas de formações vulcânicas localizadas a dezenas de quilômetros do local da construção e transportadas até o recife onde a cidade foi erguida. Ao longo de séculos, os habitantes da região moveram uma quantidade impressionante de pedra para criar plataformas, muralhas e canais artificiais que formariam o complexo cerimonial e político da antiga dinastia Saudeleur. Segundo o Smarthistory, o peso total do basalto movido ao longo de quatro séculos chega a cerca de 750 mil toneladas métricas, uma média de 1.850 toneladas por ano.

O aspecto mais intrigante continua sendo a engenharia empregada na obra. Algumas colunas de basalto pesam dezenas de toneladas e foram encaixadas sem argamassa em estruturas que permanecem estáveis após mais de oitocentos anos expostas à ação das marés. Embora existam teorias envolvendo jangadas, sistemas de flutuação e grande mobilização de mão de obra, ainda não há consenso sobre como uma sociedade insular conseguiu transportar e posicionar blocos tão pesados com os recursos disponíveis na época.

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A separação física entre governantes e governados reforçava uma aura de autoridade divina que os sacerdotes cultivavam com rituais elaborados. / Créditos: Wikipédia / Wikimedia Commons

De onde vinha o poder dos governantes da cidade flutuante

A dinastia Saudeleur governou Pohnpei por cerca de quatro séculos a partir de Nan Madol, unificando uma população estimada em 25 mil pessoas. Segundo o U.S. National Park Service, esse sistema representa o primeiro exemplo conhecido de poder político centralizado no Pacífico ocidental. A cidade não tinha água doce nem terras cultiváveis. Todo alimento e toda água chegavam de canoa, trazidos por plebeus obrigados a sustentar a nobreza isolada no mar.

Esse isolamento era estratégico. Os Saudeleur forçavam chefes rivais a morar nas ilhotas para vigiá-los de perto. A separação física entre governantes e governados reforçava uma aura de autoridade divina que os sacerdotes cultivavam com rituais elaborados.

O vídeo é do canal Pontos Chave da História, com cerca de 11,6 mil inscritos referência com foco em grandes enigmas, e detalha as construções, o transporte das pedras e o abandono de Nan Madol:

A enguia sagrada que decidia o destino da ilha

Na ilhota de Idehd, sacerdotes realizavam anualmente a cerimônia chamada Pwung en Sapw. Uma tartaruga marinha era cozida, e suas vísceras oferecidas a Nan Samol, uma enguia-moreia gigante mantida em um poço de água salgada. Se a enguia aceitasse a oferta, o deus da agricultura estava satisfeito com a conduta dos habitantes. A Cultural Site Research and Management Foundation (CSRM) documenta que a tartaruga também simbolizava os três distritos políticos de Pohnpei.

O Metropolitan Museum of Art destaca que escavações arqueológicas encontraram vestígios dos pequenos canais por onde as enguias entravam e restos das tartarugas sacrificiais, confirmando relatos orais transmitidos por séculos. Ainda hoje, enguias são consideradas sagradas em Pohnpei e não são consumidas pela população local.

Muros de 7,5 metros protegem o túmulo real

A estrutura mais imponente de Nan Madol é Nandauwas, a ilhota funerária real. Suas paredes de basalto colunar chegam a 7,5 metros de altura e cercam um pátio central com a tumba do primeiro Saudeleur. O setor mortuário, chamado Madol Powe, ocupa 58 das ilhotas e era habitado principalmente por sacerdotes.

A cidade funcionava como um organismo: cada ilhota cumpria um papel definido pela hierarquia Saudeleur. O mapeamento arqueológico revelou ao menos cinco funções distintas.

  • Nandauwas: túmulo real do primeiro Saudeleur, protegido por muros de até 7,5 metros.
  • Dapahu: estaleiro onde canoas eram construídas para o transporte entre ilhotas.
  • Peinering: centro de produção de óleo de coco usado em cerimônias religiosas.
  • Idehd: sede do ritual anual da enguia sagrada e dos sacrifícios de tartaruga.
  • Pwalahng e Usendau: postos de comunicação onde trombetas de concha e tambores transmitiam ordens oficiais.

A parte administrativa, Madol Pah, ficava a sudoeste e abrigava palácios e residências da nobreza. A divisão entre setor sagrado e setor político reforçava o controle dos Saudeleur sobre toda a ilha de Pohnpei.

A linha do tempo de Nan Madol revela como a cidade passou de centro de poder a ruína ameaçada em menos de um milênio. / Créditos: Wikipédia / Wikimedia Commons

Leia também: Uma pequena Itália no interior do Sul com 2.600 moradores é a maior produtora de uvas, preserva tradições e encanta turistas.

Patrimônio Mundial e ameaça simultânea

Em 15 de julho de 2016, a UNESCO inscreveu Nan Madol na Lista do Patrimônio Mundial e, no mesmo ato, na Lista do Patrimônio em Perigo, o primeiro sítio da Micronésia a receber ambas as designações. A ameaça principal é o assoreamento dos canais, que acelera o crescimento descontrolado de manguezais. As raízes penetram entre as colunas de basalto e desestabilizam muros que resistiram a séculos de marés.

O Pohnpei State Historic Preservation Office administra o sítio em parceria com chefes tradicionais Nahnmwarki, que mantêm autoridade costumeira sobre o território. A elevação do nível do mar no Pacífico adiciona urgência: sem intervenção, a cidade que desafiou a engenharia pode sucumbir à própria água que a cerca.

A linha do tempo de Nan Madol revela como a cidade passou de centro de poder a ruína ameaçada em menos de um milênio.

1180-1200 d.C.
Início da construção megalítica
Basalto transportado por mais de 40 km até o recife de coral.
~1628
Queda da dinastia Saudeleur
Invasão de Isokelekel encerra definitivamente o governo centralizado na região.
1874
Primeira descrição científica
O etnógrafo polonês J. S. Kubary documenta detalhadamente as ruínas arqueológicas.
1985
Marco Histórico Nacional dos EUA
Proteção federal garantida às estruturas como um importante distrito arqueológico.
2016
Patrimônio Mundial (UNESCO)
Reconhecimento global oficial e inclusão simultânea na Lista do Patrimônio em Perigo.
Informação: Nan Madol é a única cidade antiga erguida sobre um recife de coral, representando um dos maiores feitos da engenharia oceânica da história.

Fontes: UNESCO e U.S. National Park Service.

Se algum lugar no planeta merece ser visto antes que o oceano decida reclamá-lo de volta, é esse labirinto de pedra perdido na Micronésia. / Créditos: Wikipédia / Wikimedia Commons

A lenda dos feiticeiros e do dragão voador

A tradição oral de Pohnpei atribui a fundação de Nan Madol aos irmãos Olisihpa e Olosohpa, feiticeiros vindos da mítica terra de Katau Ocidental. Segundo a UNESCO, os dois teriam navegado em uma grande canoa até encontrar o local ideal para erguer um altar ao deus da agricultura, Nahnisohn Sahpw. A lenda diz que levitaram as pedras gigantescas com a ajuda de um dragão voador.

Quando Olisihpa morreu de velhice, Olosohpa casou-se com uma mulher local e fundou a dinastia Saudeleur, que gerou dezesseis governantes ao longo de doze gerações. As ruínas também inspiraram a ficção moderna: o escritor H.P. Lovecraft usou relatos sobre Nan Madol como base para criar R’lyeh, a cidade submersa de Cthulhu.

Um enigma de cidade flutuante que o oceano ainda guarda

Nan Madol é uma contradição monumental: uma metrópole sem água potável, erguida no mar por um povo sem escrita, sem metal e sem roda. Os muros negros de basalto continuam de pé sobre o coral, silenciosos como os construtores que os empilharam pedra por pedra há mais de oito séculos.

Se algum lugar no planeta merece ser visto antes que o oceano decida reclamá-lo de volta, é esse labirinto de pedra perdido na Micronésia.

Tags: cidade antigailha flutuanteNan MadolPohnpei
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