No topo de uma colina da Serra Gaúcha, uma cidade de 2.700 habitantes e colonização 100% italiana guarda 2.270 hectares de parreirais, vinícolas familiares centenárias e uma igreja com torres de 65 metros visíveis de longe. Monte Belo do Sul é o maior produtor de uvas per capita da América Latina, faz parte do Vale dos Vinhedos e concentra a maior produção de vinhos naturais do Brasil. Quem chega pela estrada sinuosa entre os vinhedos tem a impressão de ter entrado num vilarejo do norte da Itália.
416 famílias italianas e nenhuma outra origem
A colonização de Monte Belo do Sul começou em 1877, quando 416 famílias provenientes de Udine, Mantova, Cremona, Veneza, Vicenza, Treviso, Bérgamo, Modena e Beluno se estabeleceram na região. A cidade é um caso raro de colonização inteiramente italiana, sem mistura com outras etnias no período de fundação. Até hoje, o dialeto vêneto sobrevive nas conversas de calçada e nas cantinas.
Em 1913, a Família Franzoni já produzia 15 mil hectolitros anuais de vinhos e licores, segundo dados da Prefeitura de Monte Belo do Sul. O município também detém o selo de Indicação de Procedência (IP) para suas uvas e integra a Denominação de Origem (DO) do Vale dos Vinhedos, certificações que garantem padrões de qualidade reconhecidos internacionalmente.

A capital do espumante e dos vinhos naturais
Dos 2.270 hectares de parreirais, mais de 40% são de cepas nobres. Monte Belo do Sul é o maior produtor de uvas brancas do Rio Grande do Sul, cultivadas especialmente para a elaboração de espumantes finos. Cerca de 10% das uvas usadas na produção de espumante de todo o estado vêm daqui. A cidade também se consolidou como referência nacional em vinhos naturais, com vinícolas que trabalham biodinâmica e fermentação espontânea.
A Vinícola Monte Bello registrou a primeira marca de vinho comercializada no Brasil. A Tanoaria Mesacaza, única no país a importar carvalho francês para fabricação artesanal de barricas, já produziu mais de 3 mil delas só para a Vinícola Miolo. Grandes casas como Chandon e Valduga compram uvas de Monte Belo do Sul para seus rótulos.
Monte Belo do Sul, na Serra Gaúcha, é um destino que preserva a essência da imigração italiana de forma genuína. No documentário de Diogo Elzinga, a cidade é revelada como um lugar onde a tradição não é apenas para turistas, mas faz parte do cotidiano dos seus cerca de 2.700 habitantes:
O que fazer entre vinhedos e capitéis?
Monte Belo do Sul é destino de enoturismo e slow travel. As atrações ficam distribuídas entre o centro, as linhas rurais e as estradas que cortam os vinhedos.
- Vinícola Calza: referência em espumantes de método tradicional e vinhos de boutique. Projeto de castas italianas com degustação.
- Famiglia Tasca: museu que narra a história da imigração, com piquenique ao ar livre entre parreirais, sucos e geleias artesanais.
- Casa Marques Pereira: nasceu de uma paixão familiar por vinho. Degustação de linhas Reserva, Gran Reserva e espumantes.
- Tanoaria Mesacaza: ateliê onde se acompanha a fabricação artesanal de barricas de carvalho. Visita com agendamento.
- Mirante de Monte Belo: na praça central, com vista panorâmica do Vale do Rio das Antas e de Bento Gonçalves.
- Igreja Matriz de São Francisco de Assis: construída entre 1959 e 1965, com torres de 65 metros. Seus sinos foram adquiridos em Pádova em 1920 e se chamam Belina, Becker e Scalabrina.
Polentaço: 800 kg de polenta virados de uma só vez
O Polentaço é o evento mais divertido de Monte Belo do Sul. Parte da Festa do Agricultor, a celebração reúne shows, atrações gastronômicas e um concurso de escultura de polenta. O momento mais esperado é o “tombo da polenta gigante”: uma virada de 800 kg de polenta de uma só vez, diante de uma plateia que aplaude de pé.
A polenta é vista como símbolo da identidade dos imigrantes que fundaram a cidade. A festa faz parte de um calendário que inclui o Vieni Vivere la Vita Festival e a Festa de Abertura da Vindima (janeiro a março), quando os visitantes participam da colheita e degustam o mosto fresco. A gastronomia local é rústica e farta: massas caseiras, galeto al primo canto, queijos artesanais, polenta frita e fonduta de queijos aparecem nos cardápios da Francesco Trattoria, da Casa Olga e da Nonna Metilde.

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Quando ir a Monte Belo do Sul e como é o clima na serra?
O clima é temperado de altitude, com invernos frios e verões amenos. A vindima (colheita da uva) acontece entre janeiro e março. O inverno é ideal para degustações com fondue e sopas nas cantinas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
Como chegar ao borgo italiano da Serra Gaúcha
Monte Belo do Sul fica a 170 km de Porto Alegre e faz divisa com Bento Gonçalves. O acesso mais comum é pela RS-444, que serpenteia pelo Vale dos Vinhedos. O aeroporto mais próximo com voos comerciais é o Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, a 50 km. Algumas estradas rurais que levam às vinícolas são de terra, o que exige atenção em dias de chuva. Ter carro é fundamental, já que as atrações ficam espalhadas pelas linhas do interior.
Brinde no vilarejo onde a uva vale mais que o tamanho
Monte Belo do Sul é a prova de que tamanho não define um destino. Com 2.700 moradores e 2.270 hectares de vinhedos, a cidade produz uva, espumante e vinho natural em escala que envergonha municípios dez vezes maiores. As vinícolas familiares recebem o visitante pelo nome, o dialeto italiano ainda se ouve na rua e a polenta é servida em porções de 800 kg.
Você precisa subir a colina, parar no mirante da praça com uma taça de espumante local e olhar os vinhedos que descem até o vale, para entender por que 416 famílias italianas escolheram ficar.










