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Uma reflexão inspirada em Fleabag: “As pessoas cometem erros. É por isso que colocam borrachas nas pontas dos lápis” – culpa, perdão, imperfeição e a possibilidade de seguir depois de errar

Por Patrick Silva
24/09/2026
Em Curiosidades
Uma reflexão inspirada em Fleabag: “As pessoas cometem erros. É por isso que colocam borrachas nas pontas dos lápis” – culpa, perdão, imperfeição e a possibilidade de seguir depois de errar

Fleabag inspira reflexão sobre culpa, perdão, imperfeição e a chance de seguir em frente após errar. - imagem ilustrativa

Alguns erros terminam no momento em que acontecem. Outros continuam dentro de nós muito tempo depois, reaparecendo em lembranças, culpa e perguntas sobre aquilo que poderíamos ter feito diferente. Existe uma tendência humana de imaginar que pessoas melhores não cometeriam determinados erros. Mas talvez amadurecer envolva uma compreensão menos confortável: podemos reconhecer seriamente aquilo que fizemos e ainda aceitar que uma falha não precisa definir toda a nossa história.

Errar não apaga a responsabilidade, mas também não precisa apagar a possibilidade de continuar

No final da primeira temporada de Fleabag, uma conversa transforma uma ideia aparentemente simples em algo muito maior. Depois de ouvir que “as pessoas cometem erros”, Fleabag responde: “É por isso que colocam borrachas nas pontas dos lápis.” A imagem é quase infantil, mas surge justamente quando a personagem está confrontando consequências dolorosas de suas próprias escolhas.

Uma borracha não faz com que aquilo que foi escrito nunca tenha existido. Ela deixa marcas, pode rasgar o papel e nem sempre consegue eliminar completamente o traço anterior. Ainda assim, permite corrigir alguma coisa e escrever novamente. Talvez o perdão funcione de maneira parecida: não apaga o passado, mas impede que o erro tenha necessariamente a última palavra.

Uma reflexão inspirada em Fleabag: “As pessoas cometem erros. É por isso que colocam borrachas nas pontas dos lápis” – culpa, perdão, imperfeição e a possibilidade de seguir depois de errar
Fleabag inspira reflexão sobre culpa, perdão, imperfeição e a chance de seguir em frente após errar. – imagem ilustrativa

A culpa pode ensinar alguma coisa ou simplesmente nos manter presos ao mesmo momento

Imagine alguém que disse algo cruel durante uma discussão e perdeu uma relação importante. Meses depois, essa pessoa continua repetindo mentalmente aquela conversa. Reconhecer que errou pode ajudá-la a pedir desculpas e agir de forma diferente no futuro. Mas repetir indefinidamente “eu sou uma pessoa horrível” já não corrige aquilo que aconteceu.

Existe um paradoxo nisso: podemos acreditar que continuar sofrendo demonstra o quanto estamos arrependidos. Como se diminuir a nós mesmos fosse uma espécie de pagamento pelo erro. Só que culpa prolongada não necessariamente repara ninguém. Às vezes, assumir responsabilidade exige justamente algo mais difícil: mudar o comportamento e aceitar que ainda temos de viver depois daquilo que fizemos.

Cinco maneiras de lidar com um erro sem fingir que ele nunca aconteceu

Seguir em frente não significa transformar toda falha em algo pequeno. Alguns erros possuem consequências profundas e podem exigir reparação, tempo e mudanças reais. A diferença está entre reconhecer isso e construir uma identidade inteira em torno do pior momento da própria vida.

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Algumas atitudes ajudam a manter responsabilidade e possibilidade de mudança no mesmo lugar.

CB Radar • análise

Caminhos para assumir um erro sem transformar culpa em identidade

Responsabilidade não significa permanecer preso ao que aconteceu. Algumas atitudes podem ajudar a reconhecer uma falha, reparar o que for possível e construir escolhas diferentes daqui para frente.

01
Separação entre ato e identidade

Descreva o que você fez sem transformar isso em quem você é

“Eu errei” permite mudança; “eu sou apenas meu erro” transforma um acontecimento numa identidade permanente.

02
Reparação concreta

Repare aquilo que ainda pode ser reparado

Desculpas, devoluções, conversas e mudanças concretas valem mais do que arrependimento que nunca sai do pensamento.

03
Limites do perdão

Aceite que nem todo perdão depende de você

Reconhecer um erro não obriga outra pessoa a reconstruir confiança ou retomar uma relação.

04
Aprendizado sobre padrões

Observe aquilo que o erro revelou

Determinadas falhas mostram impulsos, medos ou padrões que talvez precisem de atenção antes de se repetirem.

05
Mudança de comportamento

Permita-se agir diferente daqui para frente

Responsabilidade também significa usar aquilo que aconteceu para escolher melhor quando uma situação parecida surgir. Um erro só precisa se repetir para sempre quando nada muda depois dele.

Perdoar não significa fingir que toda consequência pode ser apagada

Existe uma diferença importante entre autocompaixão e absolvição automática. Algumas escolhas machucam outras pessoas, rompem confiança e produzem consequências que talvez nunca desapareçam completamente. Aceitar a própria imperfeição não significa exigir que todos esqueçam aquilo que aconteceu.

Da mesma forma, pessoas não precisam sofrer eternamente para provar que compreenderam a gravidade de um erro. Podemos carregar responsabilidade sem carregar condenação permanente. Em certos casos, crescer significa aceitar duas verdades ao mesmo tempo: aquilo que fizemos foi errado e aquilo que fizemos não precisa determinar tudo aquilo que ainda seremos.

Uma reflexão inspirada em Fleabag: “As pessoas cometem erros. É por isso que colocam borrachas nas pontas dos lápis” – culpa, perdão, imperfeição e a possibilidade de seguir depois de errar
Fleabag inspira reflexão sobre culpa, perdão, imperfeição e a chance de seguir em frente após errar. – imagem ilustrativa

Talvez seguir em frente seja aprender a viver com as marcas do que não pode ser apagado

A vida não oferece uma borracha perfeita. Algumas palavras permanecem na memória, certas oportunidades não voltam e há relações que nunca recuperam exatamente a forma anterior. Mas isso não significa que o restante da página tenha de ficar vazio.

A reflexão de Fleabag funciona porque reconhece algo profundamente humano: pessoas falham, machucam, se arrependem e continuam existindo depois disso. Talvez perdão não seja apagar o que escrevemos errado, mas aprender o suficiente com aquela linha para que ela não precise decidir tudo o que escreveremos nas próximas páginas.

Tags: culpaerrosFleabagPerdão
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