Crescer costuma ser apresentado como um processo de deixar coisas para trás. Certas brincadeiras parecem inadequadas, perguntas espontâneas dão lugar a certezas e demonstrar encantamento pode começar a parecer infantil. A maturidade realmente exige responsabilidade, mas talvez não precise exigir o desaparecimento de tudo aquilo que existia antes dela. Há partes da infância que não precisam ser superadas; podem simplesmente aprender a conviver com a pessoa adulta que construímos.
Crescer não precisa significar destruir a criança que existiu antes
Em seu ensaio “Why Are Americans Afraid of Dragons?“, Ursula K. Le Guin escreveu: “Um adulto não é uma criança morta, mas uma criança que sobreviveu.” A autora defendia uma ideia de maturidade que não fosse baseada na rejeição completa da infância, especialmente de capacidades como imaginação, curiosidade e abertura para aquilo que não pode ser imediatamente explicado pela lógica prática.
Nesse sentido, tornar-se adulto não significa substituir uma pessoa por outra completamente diferente. Experiências se acumulam, responsabilidades aparecem e nossa compreensão do mundo muda, mas existe continuidade. A maturidade pode acrescentar discernimento sem precisar apagar aquilo que um dia nos permitiu imaginar, brincar, perguntar e enxergar possibilidades onde ainda não existiam respostas prontas.

Algumas qualidades infantis ficam valiosas justamente depois que crescemos
Imagine alguém que, quando criança, desenhava durante horas simplesmente porque gostava. Na vida adulta, abandona completamente essa atividade porque ela não produz dinheiro, reconhecimento ou utilidade evidente. Anos depois, percebe que não perdeu apenas um hobby: perdeu também uma maneira de experimentar o mundo sem precisar transformar cada momento em resultado.
Isso acontece com outras características. A curiosidade pode virar medo de parecer ignorante; espontaneidade pode ser substituída por preocupação constante com a opinião alheia; criatividade pode ser limitada pelo desejo de fazer tudo corretamente. Existe um paradoxo nisso: passamos anos adquirindo liberdade adulta e, depois, podemos construir regras internas tão rígidas que quase não nos permitimos usá-la.
Cinco partes da infância que podem continuar tendo espaço na vida adulta
Preservar algo infantil não significa recusar responsabilidades ou viver como se consequências não existissem. A diferença está entre infantilidade e qualidades humanas que aparecem cedo, mas continuam importantes em qualquer idade.
Algumas delas podem inclusive se tornar mais ricas quando combinadas com experiência. Crescer talvez não seja abandoná-las, mas aprender a utilizá-las de maneira mais consciente.
Características associadas à infância que podem continuar valiosas na vida adulta, especialmente para preservar curiosidade, criatividade, leveza e disposição para aprender.
Preservar a infância não significa idealizar tudo o que vem dela
Existe uma diferença importante entre manter qualidades da infância e acreditar que tudo relacionado a esse período merece ser conservado. Crescer também exige desenvolver responsabilidade, controle emocional, consideração pelas consequências e capacidade de reconhecer que nossos desejos não precisam ser satisfeitos imediatamente.
Além disso, nem todas as infâncias foram leves ou seguras. Para algumas pessoas, amadurecer pode significar justamente construir recursos que não puderam desenvolver antes. A reflexão de Le Guin não exige voltar nostalgicamente ao passado. Ela aponta para a possibilidade de integrar aquilo que houve de vivo, curioso e imaginativo, sem abandonar as capacidades conquistadas depois.

Talvez amadurecer seja carregar mais de uma idade dentro de nós
Com o passar dos anos, não deixamos completamente de ser as pessoas que fomos. Certos medos, interesses, lembranças e entusiasmos atravessam décadas, ainda que assumam novas formas. Talvez identidade seja menos uma sucessão de versões descartadas e mais uma construção em que cada fase permanece, de alguma maneira, incorporada às seguintes.
A ideia de Ursula K. Le Guin ganha força porque recusa a noção de que maturidade precisa ser uma espécie de funeral da infância. Podemos assumir responsabilidades, conhecer limites e enxergar o mundo com mais complexidade, sem perder toda a capacidade de imaginar e surpreender-nos. Talvez crescer de verdade não seja abandonar a criança que fomos, mas permitir que ela sobreviva dentro de um adulto capaz de cuidar melhor daquilo que ela ainda tem para oferecer.




