Por que o gato da casa prefere justamente quem o ignora? A cena se repete em toda casa com felino: um morador chama, pega no colo, faz voz fina, e o bicho vai dormir na perna de quem passa o dia sem olhar para ele. Veterinários comportamentalistas respondem isso há décadas, e a ciência já mediu partes da resposta.
O que se chama de “ignorar” costuma ser outra coisa: deixar o animal decidir a hora, a distância e a duração do contato. Um estudo da Universidade Estadual do Oregon, publicado na Current Biology em setembro de 2019, mostrou que a maioria dos gatos forma com o dono um vínculo tão seguro quanto o de cães e o de bebês humanos.
Por que o gato prefere quem o ignora, segundo os estudos?
O felino é um caçador solitário que negocia a proximidade em vez de aceitá-la imposta. Quem senta quieto e não avança é lido como previsível; quem se aproxima de frente, com a mão estendida, é lido como pressão.
A base experimental é antiga. Em 1988, Claudia Mertens e Dennis Turner, da Universidade de Zurique, colocaram voluntários numa sala com gatos que eles não conheciam e, nos primeiros cinco minutos, exigiram que lessem um livro sem interagir. A revisão publicada por Turner em 2021 na Frontiers in Veterinary Science relata que as crianças, sobretudo os meninos, tentavam abordar os gatos de imediato, e os animais reagiam fugindo, apesar de bem socializados. Mulheres e meninas desciam ao chão e falavam com os bichos, que respondiam mais. Ignorar de verdade também tem custo: no mesmo trabalho, a demora do gato para iniciar contato foi maior quando a pessoa nem iniciava nem prestava atenção. O que atrai não é a indiferença, é a ausência de cerco.
O que o estudo da Universidade Estadual do Oregon mediu em 2019?

O grupo de Kristyn Vitale, Alexandra Behnke e Monique Udell aplicou aos gatos o mesmo teste usado em bebês e em cães: dois minutos com o cuidador numa sala desconhecida, dois minutos sozinho, dois minutos de reencontro.
Segundo o artigo “Attachment bonds between domestic cats and humans”, 70 gatinhos de três a oito meses passaram pelo teste e 64,3% foram classificados como apego seguro, contra 35,7% de apego inseguro, proporção próxima da observada em crianças e em cães, como registra uma revisão de 2024 na revista Animals que resume os dados do estudo. Gato com apego seguro volta a explorar a sala quando o dono retorna; o inseguro fica agarrado, evita ou oscila entre os dois. Os autores também relataram que o estilo de apego tende a permanecer estável na vida adulta e que um curso de socialização de seis semanas não mudou a distribuição. O vínculo não é obra de quem insiste mais.
Quem decide quando a interação começa: o gato ou o humano?
Na maioria das casas, o humano. Aí mora a frustração de quem corre atrás. Mertens acompanhou 504 horas de convivência em 51 lares suíços, com 162 pessoas e 72 gatos, e encontrou um padrão que Turner detalha na revisão de 2021: as pessoas eram mais ativas do que os gatos em reduzir a distância, mas os episódios de proximidade duravam mais quando eram iniciados pelo gato. Turner ainda calculou, para cada dupla, quanto cada lado atendia aos convites do outro, e as duas medidas andaram juntas: quando a dona respondia às aproximações do animal, o animal respondia às dela em outros momentos; quando ela não respondia, ele também não. Quem o busca a toda hora e o solta quando ele vem inverte a ordem que o bicho entende.
Como funciona a piscada lenta que a Universidade de Sussex testou?
Fechar os olhos devagar diante do gato, sem encarar, é a forma mais estudada de dizer “não sou ameaça” na língua dele.
Em outubro de 2020, Tasmin Humphrey e Karen McComb, da Universidade de Sussex, publicaram na Scientific Reports o artigo sobre o estreitamento dos olhos na comunicação entre gatos e humanos. No primeiro experimento, 21 gatos foram filmados em casa, 18 deles entraram na análise, e os animais responderam com mais piscadas lentas quando o dono piscava devagar do que quando ficava na sala sem interagir. No segundo, com 24 gatos recrutados e 18 analisados, uma pesquisadora desconhecida piscava lentamente ou mantinha o rosto neutro e depois estendia a mão: os gatos se aproximaram mais depois da piscada. Encarar de olhos arregalados é o oposto do sinal que funciona, e o mesmo vale para os movimentos corporais com que os gatos se expressam.
Onde a lei brasileira e o CFMV entram na conversa sobre o gato ignorado?
A ciência do apego virou tema de bem-estar animal, e no Brasil bem-estar animal tem norma e tem pena. A Resolução 1.236/2018 do Conselho Federal de Medicina Veterinária define maus-tratos como qualquer ato, direto ou indireto, que por intenção ou negligência provoque dor ou sofrimento desnecessários ao animal, e lista entre os sinais a privação de bem-estar e alterações de comportamento como agressividade e depressão, segundo comunicado do próprio conselho. Já a Lei 9.605/1998, no artigo 32, pune abuso e maus-tratos a animais domésticos; o parágrafo 1º-A, incluído pela Lei 14.064/2020, passou a punir maus-tratos a cães e gatos com reclusão de 2 a 5 anos, multa e perda da guarda, conforme o texto no portal do Planalto. Ninguém responde na Justiça por colo forçado. Mas um gato que se esconde, para de usar a caixa ou passa a arranhar quem o segura está dizendo, no vocabulário que a resolução reconhece, que o convívio saiu do eixo. Veterinários orientam a observar mudanças assim antes de rotulá-las de “manha”, do mesmo modo que um recuo súbito do animal pode indicar dor, e não temperamento.
O que fazer para conquistar um gato sem correr atrás dele?
A regra prática sai dos experimentos: menos pressão, mais previsibilidade, e o convite assinado pelo gato.
- Sentar na altura dele: Mertens e Turner viram os gatos se aproximarem de quem descia ao chão e fugirem de quem avançava em pé.
- Piscar devagar e desviar o olhar: o protocolo de Sussex usou séries de piscadas lentas, sem encarar, seguidas de uma mão estendida só depois.
- Responder quando ele vem: a reciprocidade medida por Turner mostra que atender à aproximação do gato é o que faz o gato atender à sua.
- Encerrar antes dele: uma carícia curta que termina com o animal ainda querendo mais ensina que a mão humana não prende.
- Manter rotina: horário de comida, lugar de descanso e ausência de sustos pesam mais no apego seguro do que a quantidade de colo.
Quem faz isso vira, para o resto da casa, a pessoa que “nem liga para o gato”. Na prática, é quem menos atrapalha.
O que convém lembrar sobre o gato que prefere quem o ignora?
Três coisas resumem o assunto. A primeira: o gato escolhe quem deixa a iniciativa com ele, não quem o despreza; observe o que a pessoa preferida não faz, e copie a ausência de cerco. Segunda: teste a piscada lenta por uma semana, sentado, sem estender a mão de imediato, e conte quantas vezes o animal responde ou se aproxima. Terceira: se o gato passou a evitar toda a família, a se esconder ou a mudar hábitos de caixa e de comida, leve ao veterinário: mudança de comportamento é sinal clínico antes de ser personalidade.
O que está aqui é informativo e vem de três pesquisas publicadas em periódicos científicos, numa revisão de literatura e em documentos públicos do CFMV e do Planalto; nenhum deles substitui a avaliação de um médico-veterinário para o gato da sua casa. Gatos que preferem a pessoa mais distante não são frios nem ingratos, mas animais que respondem melhor a quem respeita o ritmo deles.




