Coronavírus

Covid-19: risco de segunda onda no DF é real e exige compromisso da população

Diante da possibilidade de mais um aumento da contaminação pelo novo coronavírus, o Distrito Federal e os brasilienses precisam estar preparados para enfrentá-lo. Seja redobrando os cuidados ou seguindo em isolamento, ações conjuntas podem evitar o que está acontecendo na Europa

Mariana Machado
Samara Schwingel
postado em 22/11/2020 07:00 / atualizado em 22/11/2020 08:37
 (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

Desde a segunda quinzena de agosto, a média de casos de covid-19 mostra uma tendência de queda na incidência da doença no Distrito Federal, segundo os dados da Secretaria de Saúde. Contudo, pode ser cedo para comemorar. Países como Estados Unidos, Japão e França estão em alerta com novos picos de casos, o que deixa as pessoas atentas para a possibilidade de uma segunda onda também no Brasil. O governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), declarou que, caso esta possibilidade se concretize, a capital federal está pronta para enfrentá-la. Especialistas, no entanto, lembram que esta não é uma realidade distante e alertam para a necessidade de manter os protocolos de segurança sanitária ativos tanto para quem já foi infectado quanto para quem ainda não teve contato com o vírus.

O físico Tarcísio Rocha Filho explica que, no DF, cerca de 22% dos habitantes contraíram a doença. A imunidade de rebanho, isto é, a proteção adquirida por uma população quando um número suficiente de pessoas está imunizada, só é obtida quando a taxa de infecção está entre 60% e 70%. Isto quer dizer que ainda há uma grande margem para ação do coronavírus. “Em Brasília, o número de casos está diminuindo, com tendência a querer estabilizar um pouco. Mas, se as pessoas começarem a naturalizar a situação, e os contatos retomarem, pode haver um novo aumento dos casos em vários lugares.”

O pesquisador faz parte do Núcleo de Altos Estudos Estratégicos para o Desenvolvimento da Universidade de Brasília (UnB), que tem analisado e feito projeções da pandemia a nível nacional desde os primeiros casos. Os dados são obtidos em conjunto por professores da UnB, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), e Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

O boletim epidemiológico divulgado ontem pela Secretaria de Saúde mostra que o Distrito Federal soma mais de 223,3 mil casos e mais de 3,8 mil mortes provocadas pelo novo coronavírus. É possível evitar uma segunda onda, porém, para isso, é preciso manter os protocolos de segurança e contar com apoio da população. Mesmo aqueles que já contraíram o vírus devem estar atentos, uma vez que possíveis casos de reinfecção já são detectados pelo mundo.

É o caso de Ana Márcia Cardoso, 52. No fim de agosto, a dentista foi diagnosticada com covid-19. Segundo ela, a princípio, os sintomas eram leves, mas ficaram piores com o passar do tempo. “Não cheguei a ficar internada, mas foi um período muito complicado e, até hoje, sofro com sequelas, como falta de ar e dores no corpo”, conta. Após vencer a doença, a servidora pública, mesmo apreensiva, precisou voltar ao trabalho presencial. “Como sou da área de saúde pública, não posso parar, a vida tem de continuar, pois as pessoas precisam de atendimento”, afirma.

Mesmo após a infecção, a moradora da Octogonal decidiu redobrar os cuidados e protocolos de segurança. Para ela, é uma questão de responsabilidade social. “Não quero que ninguém passe pelo que eu passei. Por isso, carrego álcool em gel para todo lugar que vou; troco de roupa no trabalho para não chegar com roupa suja em casa; e uso máscaras mais potentes”, destaca. Ana ainda conta que adotou protocolos de higienização dentro de casa. “Na porta, deixo um pano com água sanitária para higienizar os sapatos, tenho álcool na entrada e separo as roupas que uso no trabalho para serem lavadas separadamente”, completa.

Cuidados mantidos

Infectologista-chefe do Hospital Santa Lúcia, Werciley Júnior esclarece que o DF ainda vive o final do primeiro ciclo da doença. “Não temos certeza de que (a segunda onda) chegará, mas é importante estarmos preparados”. Também é preciso manter o cuidado. "Sabemos que as pessoas estão cansadas das máscaras, do distanciamento e da higienização constante, mas é preciso que elas continuem seguindo os protocolos”, diz (leia entrevista completa com o médico). É o que tem feito o militar aposentado Dielson Freitas, 66 anos. Morador do Jardim Botânico, ele segue, desde março, cumprindo as indicações de higienização e distanciamento.

Recluso em casa, ele se limita a ir ao mercado e fazer caminhada antes mesmo do sol nascer. “Sou diabético, cardiopata grave, e resolvi tomar todo o cuidado possível para não ser acometido pela doença”, declara. “Esse vírus não perdoa nem velho nem novo, ninguém. É geral e irrestrito. Eu não acredito em segunda onda. Acredito em primeira. É tudo uma continuação do que já é”, argumenta. “O brasileiro é meio descrente. É a pessoa que só tranca a porta depois que a casa foi arrombada. Passou a primeira onda e não pegou, aí vai relaxando.” Enquanto isso, ele mantém todos os cuidados possíveis. “Cada um deve fazer a sua parte. Não sei se sou cauteloso demais, mas as pessoas deveriam se cuidar um pouco mais e ser mais responsáveis. O vírus está aí, existe, é real. Então, cuidado, e vamos tocar a vida.”

Prevenção

Passar pela segunda onda não é algo inevitável. Segundo o médico Hemerson Luz, caso o governo local mantenha a obrigatoriedade dos protocolos de segurança sanitária, é possível evitar um aumento descontrolado do número de casos. “Na Europa, houve uma liberação abrupta das atividades e as pessoas saíram sem seguir as medidas necessárias. Por isso, não houve controle”, considera. O especialista avalia o comportamento dos brasilienses em relação às reaberturas. “No DF, há uma liberação gradual de atividades, sempre com protocolos. Isso oferece um maior controle do andamento da doença. Caso a população continue seguindo as normas, o controle sobre a covid-19 se manterá”, explica.

Em relação à prevenção, a Secretaria de Saúde informou ao Correio que realizará um inquérito epidemiológico para avaliar o índice de transmissibilidade e a circulação da covid-19 no DF. Para esse inquérito, serão aplicados 10 mil testes. Em cada região administrativa serão sorteados 234 moradores para participar da testagem, assim, será possível saber se a pessoa tem os anticorpos do vírus ou se está infectada. Com essa medida, a pasta espera identificar eventuais riscos de uma segunda onda e adotar novas medidas de prevenção e combate à pandemia. A pasta também informou que 150 mil testes rápidos, entregues em novembro pelo Ministério da Saúde, serão disponibilizados para as unidades de saúde do DF. Além disso, o Laboratório Central (Lacen) é reabastecido mensalmente com 18 mil kits.

 

  • A dentista Ana Márcia Cardoso teve covid-19 em agosto:
    A dentista Ana Márcia Cardoso teve covid-19 em agosto: "Não cheguei a ficar internada, mas foi um período muito complicado e, até hoje, sofro com sequelas" Foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press
  • Dielson Freitas, militar aposentado; foto de arquivo, tirada antes da pandemia
    Dielson Freitas, militar aposentado; foto de arquivo, tirada antes da pandemia Foto: Arquivo pessoal
  • Máscara que deixa descobertos o nariz e a boca não protegem contra uma eventual contaminação; além disso, é preciso higienizar as mãos antes e depois de tocar o rosto
    Máscara que deixa descobertos o nariz e a boca não protegem contra uma eventual contaminação; além disso, é preciso higienizar as mãos antes e depois de tocar o rosto Foto: Ed Alves/CB/D.A Pres - 4/6/20

Vacinação está próxima

 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press - 5/8/20 )
crédito: Ed Alves/CB/D.A Press - 5/8/20

Os olhos do mundo estão voltados para os testes em andamento de vacinas contra a covid-19. No Distrito Federal, duas estão em fase de testes e uma aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A primeira a recrutar voluntários foi a CoronaVac, produzida pela empresa chinesa Sinovac Biotech. Os estudos seguem em ritmo acelerado, com mais de 700 profissionais da saúde voluntários selecionados para participar do programa, desde 5 de agosto. Ainda não há previsão de quando o ensaio clínico, coordenado pelo Instituto Butantan (SP), será concluído, uma vez que ainda faltam mais voluntários. A meta é vacinar 852 pessoas no DF. Os testes são conduzidos no Hospital Universitário de Brasília.

Uma segunda vacina, também em fase três no DF — a última antes da obtenção do registro sanitário — é conduzida pelo Instituto de Pesquisas Clínicas L2IP. Na semana passada, eles começaram a aplicação das vacinas produzidas pela empresa belga Janssen-Cilag, do grupo Johnson & Johnson. Ao todo, 800 voluntários foram selecionados para participar. Metade deles recebe o fármaco, e metade, um placebo. Apenas depois que todos forem vacinados e avaliados por três meses, o instituto poderá ter a conclusão dos dados, o que está previsto para acontecer em abril.

Já a terceira vacina é a russa Sputnik V, que ainda aguarda parecer da Anvisa. O Fundo Soberano de Riqueza da Federação da Rússia, a empresa União Química Farmacêutica Nacional, e o Governo do Estado do Paraná compartilharam documentos preliminares com o órgão, que dará o parecer final. Caso tudo corra bem, um acordo entre a unidade de biotecnologia da União Química em Brasília e a Rússia prevê a transferência de tecnologia e fabricação da vacina para o Brasil.

Na última quinta-feira, o primeiro lote, com 120 mil vacinas da Sinovac Biotech, adquiridas pelo governo do estado de São Paulo, chegaram ao Brasil. No DF, não há previsão de compra semelhante. Em entrevista ao CB.Poder, programa em parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília, o secretário de Saúde, Osnei Okumoto, reforçou o que já havia sido dito pelo governador Ibaneis, anteriormente, que o Governo do Distrito Federal (GDF) aguardará a compra pelo governo federal. “O programa de imunização do Ministério (da Saúde) é a autoridade responsável para falar de vacinação no país”, afirmou o secretário.

O chefe da pasta garantiu que o GDF tem conversado com o órgão, com entidades globais de saúde e com as fabricantes das vacinas. “A gente acredita que o sucesso aconteça no primeiro trimestre do ano que vem, e a (garantia da) participação do país, inicialmente, cabe ao Ministério da Saúde, por meio do Programa Nacional de Imunização.” Osnei Okumoto, no entanto, garantiu que o DF fará a compra dos fármacos se houver necessidade. “Caso haja algum contratempo, estaremos preparados para a aquisição da vacina e poderemos usar na nossa população.”

 

Uso obrigatório de máscaras

Segundo o decreto nº 40.648, de 23 de abril de 2020, é obrigatório o uso de máscaras na capital federal. A medida é uma forma de combate à pandemia de covid-19. Desde 18 de maio, o descumprimento da regra pode acarretar em multas. Quem for flagrado transitando em qualquer espaço ou vias públicas, equipamentos de transporte público coletivo e estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços no âmbito do Distrito Federal, sem a utilização de máscaras de proteção será multado. O valor é de R$ 2 mil, se pessoa física, e de R$ 4 mil caso seja pessoa jurídica.

Cuidados pessoais

A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca algumas ações individuais para prevenir infecções de covid-19:

• Mantenha, ao menos, um metro de distância das pessoas para reduzir riscos de infecção quando alguém tossir, espirrar ou falar. Mantenha distância ainda maior em espaços fechados. Quanto mais longe, melhor;

• Torne o uso da máscara algo normal quando estiver com outras pessoas. Lembre-se de lavar bem as mãos antes e depois de tirar a máscara. Certifique-se de que ela cubra nariz, boca e queixo;

• Limpe as mãos regularmente com álcool em gel, ou lave-as com água e sabão;

• Evite tocar olhos, nariz e boca;

• Cubra boca e nariz com a parte de dentro do cotovelo sempre que tossir ou espirrar;

• Limpe e desinfete superfícies regularmente, especialmente aquelas que são tocadas com frequência, como maçanetas, torneiras e telas de celular.

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