SKATE

Skatistas brasilienses pedem mais estrutura e incentivo para o esporte

Sem apoio, brasilienses relatam que a prática do esporte acontece de maneira independente e, muitas vezes, a solidariedade dos esportistas mantém as pistas

Rafaela Martins
postado em 18/08/2021 06:00 / atualizado em 18/08/2021 08:07
Gabriel Raeder, 24, acredita no potencial educativo do skate e dá aulas para crianças, como Leonardo Luz, 8. -  (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Gabriel Raeder, 24, acredita no potencial educativo do skate e dá aulas para crianças, como Leonardo Luz, 8. - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Shape, truck, corrimão, caixote e manobras são palavras que se popularizaram depois que o skate rendeu reconhecimento olímpico para o Brasil. Graças às medalhas de prata de Rayssa Leal e Kelvin Hoefler, o país demonstrou que está pronto para disputar grandes campeonatos, mas longe da estrutura das grandes competições. No Distrito Federal, os praticantes realizam acrobacias, não apenas sob a prancha, como também para manterem as condições de treino.

Mateus Carvalho, 26 anos, vencedor de disputas na capital federal e em outros estados, destaca que o clima pós-olímpico dá visibilidade para o potencial dos atletas, mas a realidade ainda possui muitos obstáculos. “A cena é boa porque é independente, somos muitos e todos amigos, mas não contamos com nenhum apoio do governo, de nenhum deputado ou instituição. As pistas de skate estão velhas, e quem faz as reformas são os próprios skatistas”, afirma.

O jovem conta que começou a praticar o esporte por influência de jogos de videogame, músicas dos anos 2000, como Charlie Brown Jr, e inspirado na irmã mais velha, que andava com amigos na rua. Aos 6 anos, ele já subia na pequena prancha de quatro rodinhas. Desde então, ele não parou e, além de competir, incentiva novos talentos. “Tirar dinheiro do meu bolso eu sempre tiro, para comprar materiais, para arrumar os skateparks, para constituir obstáculos, para viajar para campeonatos, para promover eventos. Inclusive, faço parte da organização do maior evento de skate de Taguatinga, o Rôle dos camaradas”. O evento ocorreu de 2012 até 2018, mas, em 2019, por motivos financeiros e com a pandemia, não foi realizado.

Dados da Secretaria de Esporte e Lazer (SEL) apontam que cerca de 300 mil pessoas praticam skate no DF. Atualmente, a maior pista da capital federal fica no Recanto das Emas. Com dois mil metros quadrados, localizada no Centro Urbano, e próximo às quadras 206/300, é um dos pontos de encontro dos praticantes. Com todo o espaço, as manobras freestyle — estilo livre — são frequentes, além da presença de alguns grupos de patins. Para os que praticam a modalidade street — feita nas ruas —, o Setor Bancário Sul, Setor Comercial Sul e Museu da República são as opções mais procuradas. Lá, os adeptos podem contar com obstáculos como bancos, rampas e corrimãos.

Desafio para as mulheres

Para a estudante e skatista Stéfany Silva, 28 anos, é importante que existam complexos com estruturas que atendam os skatistas. “Como mulher, já enfrentei muito preconceito e até deixei de andar de skate por isso. Depois de adulta, voltei para a cena no Setor Bancário Sul, há cinco anos, mais ou menos. Conheci outras meninas que andavam, e isso me motivou. A gente precisa de pistas bem feitas, com boa infraestrutura de banheiros e água. Para os meninos, é fácil, mas para as meninas, sempre tenho que recorrer a alguma conveniência ou até ir no mato. O governo poderia ajudar nessa situação”, sugere.

Como Stéfany participa de campeonatos, ela procura incentivar a prática feminina. “Conheço a maioria das meninas que andam de skate no DF, meu foco é esse. É muito complicado ser mulher e andar de skate, então sempre tento incentivar e acabo doando ferramentas que eu ganho. As premiações não são as mesmas e, normalmente, as mulheres ganham o que sobra dos homens. Precisamos de ajuda com incentivos e patrocínios”, relata.

Apoio de marcas

Algumas marcas financiam campeonatos locais, mas, na maioria das vezes, os esportistas não ganham dinheiro e, sim, equipamentos ou roupas. De acordo com o membro da Associação de Skate no Distrito Federal (ASKTDF) João Paulo, falta mais apoio. “Para conservar o que temos no DF, não existem investimentos. Em relação aos campeonatos, antes mesmo da pandemia, essa parte já estava esquecida pelas instituições locais. A associação segue lutando para preservar o esporte”, reitera.

A ausência de investimentos para o segmento não é novidade. Na época que Gabriel Raeder, 24, começou no skate, teve dificuldades para se desenvolver. Morador do Grande Colorado, ele juntava o dinheiro do lanche para pegar transporte e se deslocar para o Plano Piloto e, assim, acessar uma pista. Com tanto esforço, chegou a competir e ser patrocinado por uma marca, mas percebeu que o lado artístico e mental do esporte despertava maior interesse. Formado em psicologia, atualmente ele dá aulas em uma escola particular do DF e pretende usar o que aprendeu como uma ferramenta de promoção da consciência.

“Onde eu moro não tem muito lugar para andar de skate. Tudo que aprendi foi sozinho, na frente da minha casa, no asfalto mesmo. As manobras que eu fazia, parecia que eu inventava, mas quando tive acesso à internet, percebi que aquilo já existia. Comecei a treinar muito, e em um campeonato, uma marca me notou. Investi na parte profissional, mas percebi que não era pra mim. Gosto muito de skate, porque é uma terapia, é um esporte terapêutico mesmo. Hoje, eu amo dar aula e não pretendo parar tão cedo. Acredito que a gente precisa criar espaços e dar ferramentas para as pessoas desenvolverem a consciência, para que elas tenham liberdade de escolha”, ressalta o professor.

Investimento

Sobre a cobrança dos atletas por incentivo, o Governo do Distrito Federal afirma que pretende construir dois complexos desportivos — com padrões olímpicos — nos dois maiores parques urbanos do DF, o Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek e no Taguaparque. Os projetos contam com duas pistas e vestiários. A área de convívio vai contemplar pelo menos três estilos de skate: street, park e downhill.


Saiba mais

Shape: prancha
Nose: parte da frente do skate (mais alta)
Tail: parte de trás do skate (mais baixa)
Ollie: manobra
Flip: manobra

Pistas de skate - Onde andar

Núcleo Bandeirante

» Local: Praça Central Padre Roque, ao lado do Super Maia
» Piso: granitina
» Data da Fundação: 2008

Estrutural

» Local: Centro de Ensino Fundamental 1
» Piso: granitina
» Data da Fundação: 2010

Candangolândia

» Local: Praça do Bosque
» Piso: cimento queimado
» Data da Fundação: 2006

Gama

» Local: Setor norte,
em frente ao Detran-DF
» Piso: granitina
» Data da Fundação: 2011

Ceilândia

» Local: Praça do Eucalipto
» Piso: granitina
» Data da Fundação: 2005

PSul

» Local: em frente à ADE do P Sul
» Piso: cimento polido

São Sebastião

» Local: Avenida Bartolomeu, Quadra 02, em frente à 33; Delegacia de Polícia
» Piso: granitina
» Data da Fundação: 2008

Guará

» Local: Área especial do CAVE
» Piso: cimento queimado
» Data da Fundação: 2009

Riacho Fundo

» Local: Área Central, atrás da Feira Permanente
» Piso: cimento queimado
» Data da Fundação: 2009

Santa Maria

» Local: próximo à Praça Central
» Piso: granitina
-Data da Fundação: 2011

Taguatinga

» Local: Taguaparque
» Piso: asfalto polido
» Data da Fundação: 2012

Águas Claras

» Local: ao lado da estação do metrô Concessionárias
» Piso: granitina

Areal

» Local: próximo ao Instituto Federal
» Piso: cimento polido

Bowl de Águas Claras

» Local: Praça das Araras, na Quadra 107

Recanto das Emas

» Local: próximo à Entrequadra 206/300
» Piso: granitina

Samambaia

» Local: praça da QR 302, próximo ao Fórum
» Piso: granitina
» Data de Fundação: 2016

Lago Sul

» Local: Ermida Dom Bosco
» Adicional: ladeira, bordas e Gap
» Piso: asfalto
» Pico do Longboard desde: 2000

Plano Piloto

» Local: Setor Bancário Sul
» Adicional: gap e bordas diversas
» Piso: granitina
» Pico tradicional do skate desde: 1982

» Local: Museu Nacional
» Adicional: barcos, rampa, wallride.
» Piso: granitina
» Data da Fundação: 2006

» Local: 215 Norte, no Eixão Norte
» Observações: feriados e domingos, das 6h às 19h
» Adicional: piso inclinado e obstáculos de street
» Piso: asfalto
» Pico desde: 2010

» Local: Octogonal, próximo ao Terraço Shopping
» Piso: granitina

» Local: Parque Deck Sul - Avenida das nações L4 Sul
» Pico desde: 2017

» Local: Layback Park - Ao lado da concha acústica
» Pico desde: 2019

Parque da Cidade

» Observações: espaço dividido com a pista de ciclismo e nas praças

  • Carlos Vieira/CB/D.A Press
    Carlos Vieira/CB/D.A Press Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
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    Carlos Vieira/CB/D.A Press Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
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