Cotidiano

Brasilienses contam histórias de renascimento em meio à pandemia

Os desafios de 2021 fizeram com que brasilienses se reerguessem e superassem as dificuldades de um ano difícil. Trabalho voluntário, adotar animais e cuidar do corpo são alguns exemplos

Renata Nagashima
postado em 25/12/2021 06:00 / atualizado em 25/12/2021 17:42
Nádia, Renilson e a filha, Sophia, enfrentaram um câncer e uma condição de saúde rara. Absolutamente isolados, neste Natal vão encontrar família e amigos -  (crédito:  Minervino Júnior/CB)
Nádia, Renilson e a filha, Sophia, enfrentaram um câncer e uma condição de saúde rara. Absolutamente isolados, neste Natal vão encontrar família e amigos - (crédito: Minervino Júnior/CB)

Ao longo da vida, as pessoas podem renascer e se reinventar de diversas formas. Tudo tem começo e fim, mas que tal um recomeço? Em meio às dificuldades de uma pandemia, os brasilienses encontraram formas de se redescobrir. Neste Natal, quando o cristianismo celebra o nascimento de Jesus Cristo e renova as esperanças de um mundo melhor, o Correio conta histórias de pessoas que encontraram diferentes formas de superar os problemas do dia a dia.

A pandemia pegou todos desprevenidos, e quem estava acostumado a correr teve que desacelerar e aprender a lidar com o tempo de maneira diferente, para enfrentar o isolamento social, o fechamento do comércio e a crise econômica que assolou a casa de muitos brasileiros. No DF, não foi diferente. Os desafios foram diferentes, mas todos concordam que não foi fácil para ninguém.

Luta em família

O ano de 2021 veio seguindo dois outros anos difíceis para Nádia Oliveira Ferreira, 41 anos. Não bastasse os riscos da pandemia por causa da doença da filha, Sophia Louyse, 10, que sofre de uma condição rara e não pode ser exposta ao vírus de forma alguma, a empresária foi diagnosticada com câncer de mama. Nádia revela que praticamente renasceu após quase morrer por complicações da doença. Recuperando-se, este Natal tem um significado especial para a família dela: superação.

Um ano antes da pandemia, Sophia foi diagnosticada com síndrome de kawasaki, uma doença vascular que provoca inflamação dos vasos sanguíneos e pode deixar sequelas. No caso da menina, as sequelas foram cardíacas. "Depois de muito tratamento, sem poder brincar, correr, muitas internações e visitas a hospitais, eu fui curada, mas ainda precisava tomar cuidados com a minha imunidade e, aí, veio a pandemia", lembra a criança. O isolamento da família foi severo e, por um ano, não houve contato com outras pessoas.

A crise financeira, como em outras família, também atingiu a de Nádia. Conseguiram se reinventar e abrir uma empresa para vender as cabanas infantis confeccionadas por eles. "Cada um fazia uma coisa: eu costurava, meu marido fazia a divulgação e toda a questão administrativa, um filho costurava e o outro cortava. Não foi fácil, mas a grande diferença e o que nos sustentou neste tempo foi nossa fé. Estávamos sempre otimistas de que venceríamos o dia seguinte", destaca Nádia.

A família iniciou 2021 muito mais confiante e unida, planejando superar obstáculos e restabelecer sonhos. "Sim, seria desafiador se reerguer recuperando todo e qualquer prejuízo financeiro, profissional, psicológico e emocional, mas a força e a perspectiva estavam latentes em nossa vontade de fazer dar certo", afirma o marido de Nádia, Renilson Ferreira, 45. "Neste ano, tínhamos esperança de que iria dar tudo certo, tudo no jeito para gente se recuperar e reencontrar todo mundo, mas em fevereiro veio o diagnóstico de que a mamãe tinha câncer de mama. A gente mudou toda a rotina e, novamente, ficamos trancados em casa", lamenta Sophia.

No decorrer dos tratamentos, houve diversas emergências oncológicas que balançaram a estrutura da família. Em meio ao processo, Nadia renasceu. Após a quimioterapia, devido à baixa imunidade, ela desenvolveu uma infecção que resultou em longos dias na UTI. "Uma grande sensação de impotência e insegurança, estava ali diante de um abismo incerto", recorda-se Renê.

Após deixar a terapia intensiva, vieram cirurgias. "Nessa altura do campeonato, o esgotamento físico, psicológico e emocional tentavam dominar nossa forma de vida. Mas fomos surpreendidos por pessoas incríveis, que nos abraçaram, acolheram, apoiaram e fizeram a diferença", avalia Nadia.

A luta está quase no fim, mas tantas adversidades ensinaram a família a lidar com problemas com mais força e fé. "Estamos saindo deste ano mais fortes e cheios de gratidão. Com toda certeza, o próximo será melhor", acredita a empresária. Tudo isso deu a eles ainda mais motivos para celebrar o Natal. "Foi muito difícil ver minha mãe doente, mas, finalmente, o pior passou, e chegamos neste Natal que vamos passar com amigos e familiares. Vamos ganhar presentes e celebrar a vida que Cristo nos deu", acrescenta Sophia.

Novas amizades

André começou uma criação de galinhas: companheiras carinhosas
André começou uma criação de galinhas: companheiras carinhosas (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Estudante universitário, André Victor Gulyas, 24, encontrou uma nova paixão durante a pandemia: as galinhas. Com o isolamento social, Victor se sentia muito sozinho e, para se distrair, começou a cultivar plantas. "Eu nunca tinha pensado nisso, foi repentino e tomei gosto", revela. Em seguida, adotou dois cachorros e, não satisfeito, começou a criar galinhas. Foi aí que se redescobriu. Hoje, ele cria 17 aves, seis pintinhos e se apegou aos animais.

Morador do Lago Norte, o jovem diz que pensou em criar galinhas para ter ovos e mais bichos em casa. Hoje, as aves viraram bichinhos de estimação. "Criei um apego muito grande pelas galinhas. Foram elas que me fizeram companhia durante este tempo difícil, de incertezas e mudanças repentinas", afirma. Neste período, André Victor começou a praticar a religião budista. "Foi o que realmente me ajudou a passar por este momento", ressalta.

Estilo de vida

Desafios não faltaram no ano de Letícia Vasconcelos Ramos Marinho, 21. Diagnosticada, em 2017, com um câncer raro denominado tumor do músculo liso diferenciado, 2021 trouxe mais obstáculos. A idade é pouca, mas a maturidade é de gente experiente. Responsável pelos avós idosos, a pandemia trouxe muitas preocupações. "Por causa deles e da minha saúde, eu me preocupava muito e percebi que estava ficando muito ansiosa, estava me atrapalhando nos estudos e acabava descontando tudo na comida. Engordei cerca de 10kg", recorda-se.

Para driblar os problemas e conseguir atravessar esse momento, Letícia encontrou um escape na ioga. "Eu tinha que fazer algo a respeito e, como não podia sair, procurei algo que poderia fazer em casa. Foi quando comecei a estudar sobre ioga. Parecia interessante, e era algo que eu poderia fazer de qualquer lugar e não demandava muitas horas do meu dia", explica.

Letícia Vasconcelos iniciou a prática de ioga e melhorou a condição física
Letícia Vasconcelos iniciou a prática de ioga e melhorou a condição física (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

A atividade auxiliou na mudança do estilo de vida da jovem, que passou a se alimentar melhor. "É comprovado que a ioga ajuda a gente a se acalmar e a desacelerar. O câncer são as células aceleradas, então, me ajudou muito nessa questão também", completa. O câncer de Letícia está, há dois anos, sem alteração e, hoje, ela leva uma vida normal. Para o ano que vem, a meta da estudante de psicologia é colocar em prática tudo que aprendeu com o homecare dos avós e organizar a rotina para priorizar a ioga no dia a dia. "A pandemia trouxe essa vontade de ter vida mais saudável e quero continuar assim, mesmo depois", garante a jovem.

Solidariedade

A estudante Maria Eduarda Reis Teixeira, 21, se redescobriu no voluntariado, após participar de uma ação no último final de ano. "Ajudar o próximo é uma cultura que vem da minha família. Minha mãe sempre ensinou a gente a nos doar para o outro, mas foi em um Natal que eu realmente vivi e entendi a importância da solidariedade", destaca.

Ela faz parte do projeto Menos de Mim e, durante o ano, atuou em incontáveis ações sociais, principalmente na Cidade Estrutural. "Você passa a enxergar o quanto as pessoas são transformadas pelo que você faz, e a gratidão delas por você dedicar um dia seu te preenche também. Minha primeira ação foi em um Natal, e fui transformada", emociona-se. Durante a pandemia as ações tomaram mais força. "Fizemos campanha de frio, fome, distribuição de sopa, mas o que as pessoas mais queriam era atenção, conversar, se sentir vistas e amadas", descreve a voluntária.

Com o desejo de fazer a diferença no mundo, Duda criou a 30 dias, 30 cestas básicas, em maio. "No meu aniversário, em vez de pedir presente, resolvi fazer do meu dia especial para outras pessoas", explica. Nos 30 dias que antecederam o aniversário da jovem, ela movimentou a campanha nas redes sociais. "Nosso pouco pode ser muito na vida de alguém. Para você, um pacote de arroz é pouco, mas pode alimentar uma família. Se todos tivessem essa consciência, ajudaríamos muito mais pessoas", argumenta.

 

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