Conheça o novo regente do Templo Shin Budista Terra Pura do DF

Aos 35 anos, o Monge Keizo Doi é o novo regente do Templo Budista do DF. Em entrevista ao Correio, ele conversa sobre os caminhos que o trouxeram a Brasília e fala de suas aspirações como sucessor do Monge Sato, que estava na regência do Templo há 26 anos

Júlia Eleutério
Ana Maria Pol
postado em 06/04/2022 06:00 / atualizado em 25/07/2022 10:41
 (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O Templo Shin Budista Terra Pura, no Distrito Federal, tem um novo regente: aos 35 anos, o Monge Keizo Doi comanda a gestão da instituição desde o primeiro dia de 2022, após ser indicado pela Federação das Escolas Budistas do Brasil. Afável e com gestos serenos, ele tem a vida marcada por importantes acontecimentos históricos. Nascido em Hiroshima, uma das cidades japonesas bombardeadas pelos Estados Unidos no fim da Segunda Guerra Mundial, ele conta que uma outra tragédia o despertou para o caminho da iluminação espiritual. “Foi após o atentado de 11 de Setembro aos EUA. Eu tinha 14 anos, e uma monja apareceu na televisão japonesa, fazendo uma citação à Buda. Isso me influenciou, comecei a buscar o caminho, entrei no Colégio Budista de Hiroshima e, desde então, não sai mais”.

  • 04/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Templo Budista Terra Pura, entrevista com o Monge Kenzo Doi. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • 04/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Templo Budista Terra Pura, entrevista com o Monge Kenzo Doi. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Formado em Letras, ele está há nove anos no Brasil, tempo que conheceu realidades diferentes em alguns estados brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro e Pará. Na capital federal, ele chegou em setembro do ano passado, quando começou a se integrar às atividades do Templo. Logo veio a incumbência de suceder o Ademar Kyotoshi Sato, conhecido como Monge Sato, que estava na regência do Templo há 26 anos.

Keizo afirma que veio para agregar à comunidade budista. Em entrevista ao Correio, ele fala de um novo tempo para a instituição budista e para a humanidade, em decorrência da pandemia. Ele acredita que o período deixa ensinamentos contra o individualismo, e afirma que pretende manter o templo como um local de porto seguro para aqueles que passam por momentos difíceis na vida.

Como o senhor pretende reger o templo do DF? Como será o trabalho de agora em diante?

A comunidade do Templo é bem ativa e conhecida. Mas, diferentemente de outros locais em que atuei como regente, não temos uma comunidade originária. São pessoas que frequentam e nos ajudam. No interior de São Paulo, por exemplo, temos alguns Templos que foram construídos por japoneses imigrantes e que, ainda hoje, sustentam essas comunidades. Aqui também tivemos japoneses que deram início à construção do templo, fizeram negociação com o governo. Mas não havia uma comunidade que pudesse sustentar ou construir esse espaço. Como era uma cidade nova, que viria a ser a capital, a Federação Budista do Brasil e o Templo Matriz deram uma atenção especial. Antes de ser construído, havia uma preocupação sobre o sustento do templo. E eu quero que a comunidade cresça, seja mais participativa, e que venham mais pessoas. Queremos que, cada vez mais, a comunidade brasiliense veja o templo como um espaço de refúgio e abrigo.

Quais são os principais ensinamentos e virtudes a serem desenvolvidas nessa perspectiva de comunidade?

Hoje, as pessoas convivem umas com as outras, mas de que forma? Para mim, a pandemia evidenciou que não há distinção entre a vida individual e coletiva. Uma tosse, uma gotícula de saliva de alguém que mora do outro lado do mundo pode afetar a sua vida. Então, todos nós, essencialmente, dependemos uns dos outros. Isso é chamado de interdependência, e é conhecido como um fundamento do Budismo. A comunidade do Templo vive a partir dessa perspectiva. São quatro fatos que todos nós passamos durante a vida: o nascimento, a velhice, doenças e morte. São coisas que, necessariamente, acontecem com todos, mesmo que muitas vezes não queiramos. A comunidade vive esses fatos, e Buda também viveu. Ele percebeu que só existe libertação do sofrimento causado por esses quatro pilares, quando convivemos uns com os outros. Então, é importante que a comunidade tenha essa consciência, de que viverá esses pilares, e que precisamos, muitas vezes, viver em comunidades.

O que acha da participação do governo na condução de comunidades religiosas?

É importante que seja dado um apoio, dentro da constituição e conforme o que a legislação pede ou garante. O apoio ao Budismo se dá através da prática de doação. O terreno em que o Templo está, por exemplo, foi doado pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek.

De que forma acredita que essa mudança no templo pode agregar à comunidade como um todo no DF, principalmente neste ano de eleições?

Quando o assunto é eleição, eu não posso me expressar de forma ativa, já que sou isento de votar no Brasil. Nesse sentido, eu devo ficar neutro, até para abranger mais pessoas. O Templo, às vezes, serve como lugar de paz, muitos procuram tranquilidade. A mudança no Templo vem com a ideia de renovar a vida das pessoas. E essa renovação pode levar à insegurança. Muitos chegam a se questionar: Será que me identifico com a sociedade? Será que existe um lugar pra mim em meio a essa comunidade?. Por isso, a comunidade do templo, durante esse período, deve ser um lugar que as pessoas se sintam amparadas, e busquem quando estão perdidas.

Qual o papel da religião e da fé diante do que estamos vivendo? De que forma a espiritualidade tem ajudado as pessoas a passarem por esse novo momento, social e político?

A religião serve para dar à pessoa uma garantia de que existe um lugar para onde ela pode retornar. O budismo, para mim, é um local em que posso retornar quando estou perdido. Diante de tudo o que estamos vivendo, existem situações que nos arrastam para o alto mar e nos fazem sentir sozinhos. Por isso, o Templo deve ser, também, lugar de amparo. De vez em quando, o budismo é considerado uma religião individual mas, eu, particularmente, acredito que é impossível praticar essa religião sozinho. O caminho é sempre coletivo e o Templo tem o papel de ser um espaço onde as pessoas possam viver o coletivo.

Qual a sua projeção para a comunidade budista do DF?

Eu preciso conhecer melhor a comunidade. Mas é importante lembrar que ano que vem, o Templo celebra 50 anos e pretendemos dar início à comemoração com um projeto de reforma completa, com estruturação e restauração, para um dinamismo melhor. Neste ano, focaremos na expansão da comunidade. Esses projetos têm subprojetos de acolhimento, como biblioteca, meditação, casa de chá e outros lugares que vão abraçar as pessoas, sejam adeptas ou não da religião. Tudo isso para que esse espaço seja visto como uma rede de acolhimento.

Como a religião pode ser um caminho para a construção de uma sociedade mais justa e um planeta mais sustentável?

Dentro do ensinamento budista, a sociedade é feita de todos os seres. E o ser humano é um deles. O budismo caracteriza o homem como um ser que se arrepende, sabe louvar, reconhecer o erro e também o bem nas pessoas. A partir do momento que as pessoas sabem reconhecer o seu papel, a sociedade deve ser mais justa, mas é algo que não vamos alcançar com plenitude. Em meio a capital do país, diante do ano de eleições, muitas vezes recebo perguntas em relação às minhas ideologias. Mas para pensarmos em um mundo melhor, temos que começar fazendo pequenos gestos, pequenas mudanças no nosso entorno. Se não fizermos isso, não adianta ter ideologias. Com cada ser fazendo o seu papel, podemos caminhar para uma sociedade melhor.

Como planeja trabalhar questões sociais como violência contra a mulher, pandemia, doenças mentais, intolerância religiosa, dentro da comunidade budista?

Primeiro, precisamos reconhecer a nossa realidade. Não é algo fácil, precisamos estar preparados para encarar isso. O espelho, que pode nos ajudar a lidar com isso, são os ensinamentos e as virtudes de Buda. Nesse sentido, gostaria de citar a frase dele, que diz que: “o hoje, nunca será vencido pelo hoje”. É algo que vale a pena ser refletido. Precisamos mudar nossas ações, fazer diferente cada dia, buscar o melhor. Em termos de ações concretas, nesses três meses à frente ao Templo, iniciamos um grupo de jovens, grupos de LGBTQIA+. O objetivo é acolher a todos, independente de serem budistas ou não, com o intuito de sempre fazermos mais e melhor. O templo é um local que deve servir para que a comunidade do DF se sinta acolhida.

É um momento de mudanças no templo, um tempo novo. Qual mensagem o senhor gostaria de deixar nesse momento?

Brasília é um lugar de possibilidades. Devemos ir além, não podemos nos encurralar. E vejo que o Templo tem capacidade de ser um local de possibilidades para aqueles que querem encontrar apoio, espiritual, social. Então o recado que deixo é que todos são mais que bem-vindos nesse espaço, seja para se encontrar, buscar paz, ou servir como refúgio social.

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