CRÔNICA DA CIDADE

O sonho que me habitou

"Enfim, mas tive uma boa noite de sonhos. Delirei com as imagens, com passagens, imagens de um Rio que ainda estão na memória"

Machado de Assis -  (crédito: Divulgação/Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Machado de Assis - (crédito: Divulgação/Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Crônica da Cidade por LUIS TURIBA | turibapoeta@gmail.com

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Machado de Assis e Lima Barreto são os dois mais talentosos escritores negros do Brasil. No entanto, eles foram muito diferentes nas estratégias de linguagem e de vida. Enquanto Lima Barreto escancarava a identidade racial e social ("nasci mulato, pobre e livre"), Machado de Assis era tão oblíquo e dissimulado quanto a personagem Capitu.

Lima Barreto queria ser o anti-Machado de Assis. Dizia que o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas "escrevia com medo", enquanto ele (Lima Barreto) "escrevia sem medo da palmatória". Acrescentava que Machado "era um falso em tudo". Dizia tudo de maneira direta e frontal, via-se como um autor proletário e Machado como um escritor aristocrata ou supostamente da aristocracia.

No entanto, um olhar mais atento revelou que Machado não era alheio à realidade social. Só escolheu dissimulada como estratégia de sobrevivência, mas sempre escreveu com a pena da galhofa e a tinta da ironia, que revelavam uma aguda e fina percepção da sociedade brasileira marcada pela escravidão e pela ausência de cidadania.

Ambos foram contemporâneos e as suas ficções foram ambientadas no Rio de Janeiro do século 19. Os dois foram observadores acurados das mazelas do país e até hoje suscitam polêmicas literárias. O poeta e jornalista Luis Turiba, um dos editores da revista Bric a Brac, teve um sonho com Lima Barreto e Machado de Assis e registra em forma de crônica (Severino Francisco):

Acordei livro. Leve, livre, solto, capa sofisticada, solta, disponível e colorida. Fluido com uma tendência de uma história estilosa à maneira dos ensinamentos de Lima Barreto, algo que se passasse ali pelos anos 30, antes da guerra, recordando-nos as manifestações bem suburbanas do Lima, em torno da formação dos subúrbios do Rio de Janeiro, com destaque para a geografia que formou os bairros de Quintino, Piedade, Cascadura, Madureira, Irajá, São Cristóvão, Bonsucesso; linhas de trens, novas estações chegando, inaugurando novas conexões e trazendo progressos para toda a região.

Coisas que também lembram bem o Machado, talvez um pouco antes; mas possuem armaduras próprias, cada qual ao seu estilo. Lances que o Lima retratou muito muito bem, mas Machadão deu linha pipa. Ambos mereciam a ABL (Academia Brasileira de Letras), mas só um deu conta — merecidamente.

Enfim, mas tive uma boa noite de sonhos. Delirei com as imagens, com passagens, imagens de um Rio que ainda estão na memória.

Dormi rascunho e acordei livro, um petardo mediano, sem intenção de obra de arte. Acordei com o resultado final todo rabiscado por inúmeros puxadinhos em verde e vermelho, indicando futuros espaços para nossos personagens desenvolveram seus shows estilísticos de linguagens. Uma mesóclise ali, dona de sua graça, abrindo espaço para um pré-texto poder desenvolver suas metáforas e suas licenças prá lá de poéticas. Enfim, foi um grande humilde lindo sonho (Luis Turiba).

 24/05/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Jornalista Luis Turiba.
24/05/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - Jornalista Luis Turiba. (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

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postado em 06/01/2026 14:44 / atualizado em 06/01/2026 15:18
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