Crime

"Acreditava ser morte natural", diz família de idoso morto por técnico em UTI

O idosos faleceu em 17 de novembro de 2025. O técnico e mais duas colegas de profissão foram presos pela Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), da Polícia Civil (PCDF) — as duas mulheres são investigadas por negligência e podem responder por coautoria

Homem foi preso no último dia 11. Investigação está em andamento -  (crédito: Divulgação/PCDF)
Homem foi preso no último dia 11. Investigação está em andamento - (crédito: Divulgação/PCDF)

A família de uma das vítimas mortas depois de receber substância imprópria na veia aplicada por um técnico de enfermagem de 24 anos manifestou-se nesta segunda-feira (19) e demonstrou indignação pelos fatos graves. O paciente era um homem de 63 anos, servidor da Caesb. Ele faleceu em 17 de novembro de 2025. O técnico e mais duas colegas de profissão foram presos pela Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), da Polícia Civil (PCDF) — as duas mulheres são investigadas por negligência e podem responder por coautoria.

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Em uma nota dos advogados da família do idoso, Elias Manoel e José Francisco Alves, os parentes afirmaram ter tomado conhecimento do crime em 16 de janeiro. Assim como os outros dois pacientes vítimas dos técnicos — uma mulher de 75 anos e um homem de 33 —, o servidor da Caesb estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta de Taguatinga.

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“Até então, a família acreditava que o falecimento havia ocorrido por causas naturais, em razão do quadro clínico apresentado. A família confia na atuação da Polícia Civil do Distrito Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário, e adotará todas as medidas legais cabíveis para a responsabilização criminal dos envolvidos, bem como para a responsabilização civil do hospital, diante de eventuais falhas no dever de cuidado, vigilância e segurança, visando à apuração integral dos fatos e à devida reparação”, diz a nota.

O caso

De acordo com o delegado Wisllei Salomão, coordenador da CHPP, os elementos coletados são bastante robustos no que se refere à intencionalidade do crime. "Temos os vídeos demonstrando as ações dessas pessoas e a análise dos prontuários médicos, com tudo o que foi realizado com esses pacientes. Existem elementos convincentes de que o técnico de enfermagem se passou pelo médico, entrou no sistema que estava aberto e fez a prescrição dos medicamentos. Ele foi até a farmácia, preparou a substância e escondeu em seu jaleco, aplicando-os nas veias das vítimas", detalhou.

A investigação ainda aponta que o suspeito, junto a outras duas técnicas, aguardava a reação das vítimas, pois, uma vez injetados nas veias — o que não deve ser feito —, os medicamentos provocam parada cardíaca. O técnico ainda realizava massagem tentando "salvar" os pacientes. As duas profissionais também foram presas e podem ser indiciadas por homicídio, uma vez que, mesmo não participando da aplicação das substâncias, foram negligentes por não denunciarem ao hospital nem à polícia.

Dinâmica do crime

O fato de o suspeito tentar reanimar as vítimas após as paradas cardíacas levanta a hipótese de dissimulação diante do restante da equipe médica. "Quando ele aplicou o desinfetante, estava sozinho ou com as duas técnicas de enfermagem. Uma delas não trabalhava no mesmo local, mas era muito amiga do rapaz. A outra profissional era nova no hospital e treinada pelo técnico. Nas filmagens, é possível constatar que elas ficavam na porta olhando para ver se terceiros não entrariam", acrescenta Salomão.

O uso de desinfetante se deu quando o criminoso já não tinha mais acesso aos medicamentos. "Ele pegou o produto que estava no leito e aplicou por mais de dez vezes na veia de uma das pacientes, uma mulher de 75 anos, morta em 17 de novembro". A vítima era professora aposentada e morava em Taguatinga; deixa marido, filhos e netos. Também nesta data, morreu um senhor de 63 anos, servidor da Caesb. No dia 1º de dezembro, faleceu o terceiro paciente, um homem de 33 anos, servidor dos Correios.

A presença de câmeras nos leitos foi fundamental para os suspeitos serem descobertos, visto que as famílias não desconfiavam que os entes haviam sido vítimas de homicídios. O hospital, assim que detectou os crimes, por meio da Comissão de Óbitos, comunicou à polícia. A polícia reforça que ainda não há uma resposta firme sobre a motivação dos crimes.

Existe a possibilidade de outros pacientes terem sido vítimas, tanto neste mesmo hospital, onde o suspeito trabalhou por um ano, quanto em outras instituições, inclusive, públicas. Agora, será feito um levantamento das pessoas que faleceram com as mesmas características destes homicídios. O técnico de enfermagem confessou os crimes após ser confrontado pelas imagens.

Resposta

Em nota, o Hospital Anchieta afirmou que, ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas aos óbitos, instaurou comitê interno de análise e conduziu investigação própria. Com base nas evidências, o hospital requereu a instauração de inquérito policial.

Os técnicos de enfermagem, que atuavam no Hospital Anchieta, de Taguatinga, foram presos nos dias 12 e 15 de janeiro. Eles podem responder por homicídio qualificado, cuja pena varia de 12 a 30 anos. As duas técnicas, investigadas por negligência, podem responder por coautoria.

Veja a íntegra da nota:


O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.
Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.

Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.

Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.

O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.

O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a justiça.

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postado em 19/01/2026 15:24 / atualizado em 19/01/2026 15:48
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