CRÔNICA DA CIDADE

Dispensa-se a legenda

"Sempre pensei que, de fato, algumas imagens dispensassem legendas. É o caso das fotos de Sebastião Salgado sobre as condições de trabalho mundo afora"

Imagens bem captadas, muitas vezes, dispensam legenda. Foi assim no início do Instagram, rede social que nasceu com o objetivo de permitir o compartilhamento de fotos. Aos poucos, o uso contínuo e intensivo foi moldando a plataforma. Onde antes se encontrava belos cliques do pôr do sol e do amanhecer ou de outros momentos dignos de moldura — seja por importância histórica, seja por valor poético — agora encontramos a profusão de vídeos e de cartões, como nos acostumamos a dizer, com informações, opiniões, dicas e tudo o que puder caber dentro de três minutos ou de carrossel de 20 itens.

O minimalismo do passado permitia que muitas fotos fossem postadas até mesmo sem legenda. É interessante fazer o exercício de tentar preencher mentalmente a descrição daquele momento, oportunidade em que a mente é deixada livre para criar. O mesmo pode ocorrer numa exposição de arte, por exemplo. Tente, antes de ler a descrição orquestrada pelo curador, imaginar o que aquela pintura representa. Ou mesmo a foto de um artista famoso. O ângulo, a luz, a sombra e o enquadramento conversam conosco.

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Seguimos com a possibilidade de exercitar essa habilidade. E que bom. Mas as redes sociais não são mais a plataforma para fazê-lo. Nenhuma delas. As legendas são fiéis escudeiras de cada postagem, trazendo informações ou interpretações diversas — e algumas delas bem perigosas. Se os três primeiros segundos de um vídeo são essenciais para prender a atenção do usuário, uma legenda bem construída, com texto estruturado, também tem seu papel importante.

Sempre pensei que, de fato, algumas imagens dispensassem legendas. É o caso das fotos de Sebastião Salgado sobre as condições de trabalho mundo afora. Ou mesmo de seus registros sobre as belezas naturais pelos continentes e em especial na Amazônia brasileira. O mesmo poderia dizer dos flagrantes de Cartier-Bresson, francês pioneiro do fotojornalismo. E de seu colega Robert Capa, que eternizou imagens de guerra.

Imagens de guerra, principalmente, deveriam dispensar legendas e chocar quem quer que fosse: fotógrafo, fotografado ou espectador. Independentemente de onde caiu o míssil ou a bomba; de onde acertou a bala. A imagem do horror estampado sobre o solo devastado pelo fogo deveria ter o potencial de entristecer proporcional ao seu potencial bélico.

Mas o que se vê, hoje, é que a legenda não é mais dispensável, pois, a depender de onde estoura o tiro, a dor parece estar passível de relativização. Seja aqui em Brasília, seja em qualquer lugar das américas, do Oriente Médio ou na Terra do Sol Nascente, meu desejo é que o mundo pare de contar mortes e comece a celebrar vidas.

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