Desde 2023, Andreia Marim (46) e seu filho, Isaac Teodoro, de 8 anos, enfrentam uma grande luta: o tratamento do câncer Rabdomiossarcoma embrionário de bexiga e próstata. Diagnosticado em agosto de 2023 –- aos 5 anos — Isaac e Andreia vieram de Porangatu, em Goiás, para Brasília, realizar o tratamento no Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). Andreia, que é viúva e dona de casa, conta, com gratidão e lágrimas nos olhos, o apoio que teve da associação: “Eu não sei o que seria de mim sem a Abrace”. No início dos cuidados com Isaac, a família precisou deixar Porangatu para morar na capital por mais de um ano. Foi quando foram acolhidos pela Abrace - Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias.
Hoje em dia, Andreia e Isaac moram em Porangatu, e vêm à Brasília a cada 30 dias para realizar o acompanhamento no HCB. Vilmar Teodoro, pai de Isaac e esposo de Andreia, faleceu em 2021, na pandemia de COVID-19. Isaac tinha 3 anos. Andreia conta que, pela sua condição, Isaac precisava usar muitas fraldas por dia. “Eu ganho um salário. Eu sou viúva. Meu filho gastava mais de $500 reais (por mês) só de fralda”. Andreia cuida de Isaac sozinha, e às vezes conta com o apoio da família, que mora em Porangatu. “Quando a gente fica aqui, a gente tem todo o suporte.” comentou.
Esse apoio que Andreia, Isaac, e mais de 20 mil famílias recebem desde 1986 da Abrace só é possível graças à história de Roberto Nogueira (81), consultor empresarial, Maria Ângela Marini (74), diretora administrativa, e um grupo de mães e pais de Brasília cujos os filhos passavam por tratamento de leucemia no Hospital de Base do Distrito Federal na década de 80.
Nas idas e vindas do Hospital de Base para o tratamento de câncer de sua filha Joanna, Maria Ângela, uma das fundadoras da Abrace e esposa de Roberto, primeiro presidente da Associação, tomou conhecimento de várias mães que moravam longe do hospital, ou até mesmo em outras cidades, e vinham para Brasília em busca de tratamento para suas crianças, sem lugar para ficar. Reunindo as famílias, surgiu uma rede de apoio entre mães e pais que se tornou a Abrace. O nome, segundo Roberto, surgiu primeiro na sigla. Depois, seu significado foi construído: Abrace - Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias.
A Abrace foi, então, fundada em 1º de Maio de 1986, após Maria Lucia de Andrade, Sebastião Magalhães, Ana Eleuza Batista, João da Purificação, Maria Zoé Leal, Reginaldo Cordeiro, Leoni Ferreira, Maria Ângela Marini e Roberto Nogueira se reunirem para construir a Associação, após a Doutora Maria Nazareth Petruccelli, chefe do Banco de Sangue, sugerir a criação de uma instituição que pudesse apoiar as famílias com crianças em tratamento no Hospital de Base. Naquela época, não existia um hospital especializado em oncologia pediátrica em Brasília.
Inicialmente a associação funcionava no escritório de Roberto, que contou: Toda terça-feira as mães iam ao Hospital de Base e depois visitavam o escritório. “Ficavam lá sentadas no corredor, os vizinhos do escritório achavam aquilo diferente, mas depois compreenderam.” Roberto conversava com as mães sobre a situação em que estavam, e relatou: “elas não sabiam qual era a doença, havia um estigma enorme com a palavra câncer”.“Uma das funções da Abrace no meu entendimento também era quebrar esse estigma e transformar a palavra câncer em algo natural pra se conversar, conseguir medicamentos e avançar na qualidade hospitalar.”
A Abrace atravessou muitos anos de cuidado e assistência até que, em 1999, Ilda Peliz (75) –- presidente da Associação na época e atual presidente do Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada e fundadora do HCB — motivada pela perda de sua filha para o câncer, decidiu mover esforços com a Abrace para a construção de um hospital que tratasse crianças com câncer. Conforme relatos de Ilda, sua filha sofria constantes mudanças no planejamento do tratamento no hospital: “Aquilo me revoltou tanto, tanto, que eu falei: eu vou tirar essas crianças daqui.” Sua jornada em busca de apoio financeiro por meio de doações e patrocínio se iniciou, e, em 2003, a Abrace recebeu o terreno do futuro Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), no bairro Noroeste.
Em 23 de novembro de 2011, a Unidade Ambulatorial do HCB foi inaugurada. Segundo Roberto Nogueira, a ABRACE nasceu fundamentalmente para fazer a assistência social à criança e à família no Distrito Federal. Por isso, após a construção do Hospital, a associação criou o Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe) , para realizar a administração do hospital.
Com a inauguração do HCB, um novo momento se construiu na Abrace. “Quando uma pessoa da família está com câncer, seja adulto ou seja criança, a família toda adoece.” apontou Ilda. Essa percepção motivou a criação de diversos programas de assistência na Abrace, como o Programa William, que apoia pacientes fora de cura terapêutica, com acompanhamento à família em suas casas com suporte psicológico, cama hospitalar e oxigênio. A presidente do Icipe alegou:: “Se não fosse a Abrace, muitas crianças já teriam morrido”.
Isis Magalhães (71), médica oncologista hematologista pediátrica e diretora-técnica do HCB também participou do processo de construção do hospital, e reforçou a importância e poder na união da sociedade civil para tornar o projeto realidade: “É inacreditável o poder dessa parceria, né? Eu chamo o poder da parceria da sociedade civil, que se envolveu na causa, e nós, técnicos da saúde pública que acreditávamos piamente que era possível”
Atualmente, localizada na QE 25 do Guará II, a Abrace atende 911 famílias. Entre elas, moradoras do Distrito Federal, de outros estados do Brasil e até mesmo da Venezuela, fornecendo moradia em sua Casa de Apoio para famílias durante o tratamento de seus filhos.
Uma das famílias assistidas pela ABRACE é a família de Nathalia Maria Ribeiro, de 9 anos, moradora de Brazlândia. Nathalia foi diagnosticada com leucemia em fevereiro de 2025, e faz tratamento desde então no Hospital da Criança. O acompanhamento da família pela associação acontece há 6 meses, onde a ABRACE apoia com dinheiro para combustível e orientações. Pai de Nathalia, Pedro Borges (58), vigilante aposentado, conta que a esposa passou a trabalhar remotamente após o diagnóstico da filha: “A gente tá fazendo essa correria, porque é toda semana. Agora é uma vez, duas por semana, mas antes teve semana de vir cinco a seis vezes no Hospital da Criança. Era bem puxado.”
Nathalia está no 4º ano do Ensino Fundamental, e atualmente estuda em casa por meio do Regime de Estudos Domiciliares. O pai conta que ela não tem mais células de câncer, mas que o tratamento é longo. Relata que os custos com combustível para levar Nathalia ao hospital são altos, e que “nem esperava ter um apoio assim” da associação.
Em 2024, a Abrace foi eleita a melhor Organização Não Governamental (ONG) do Distrito Federal. Alexandre Alarcão, (51) atual presidente e diretor de parceria e captação de recursos da Abrace, ressaltou a importância das doações e do trabalho voluntário que a Associação recebe. Atualmente, a ONG tem aproximadamente 10 mil doadores fixos, que doam em média R$65 por mês. Voluntário desde a adolescência, o presidente relatou grande felicidade em fazer parte do caminho da Abrace no seu aniversário de 40 anos e planeja futuro a longo prazo para ampliar cada vez mais a atuação da Associação no tratamento para todas as crianças — e não somente às com câncer.
A Abrace - Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias completa 40 anos de existência e atuação no Distrito Federal com uma história que atravessa gerações e reúne múltiplas conquistas para o cuidado e tratamento de famílias e crianças com câncer. É possível doar e saber mais sobre a ONG no site e redes sociais (abrace.com.br) e Instagram (abraceoficial)
