Protagonismo feminino

Eleições: mulheres do DF cobram mais representatividade e políticas estruturais

O Correio ouviu eleitoras e especialistas sobre possíveis soluções e caminhos para que as pautas femininas sejam priorizadas no processo decisório da política. Elas são 54% do público que vota no Distrito Federal

"Não há democracia sem a plena participação das mulheres". A frase da líder do movimento sufragista no Brasil, Bertha Luz, reflete uma necessidade sentida pelas mulheres até os dias atuais: maior atenção às pautas de gênero por parte dos governantes e mais participação nos processos decisórios. No Distrito Federal, dos 2.194.627 eleitores, 54% são mulheres. O percentual é maior do que o registrado ao considerar o eleitorado total no Brasil (52%). 

De acordo com a cientista política e doutora em sociologia Mônica Ribeiro, as mulheres esperam o reconhecimento como parte central da política pública. "E isso exige menos improviso e mais planejamento e orçamento estrutural com cuidado, autonomia e igualdade. Isso é critério de justiça e inteligência administrativa, afinal, somos maioria da população", avaliou. "É preciso reconhecer a economia do cuidado como ponto central para reduzir desigualdades", sugeriu.

A cientista política da Universidade de Brasília (UnB) Teresa Starling também destacou a importância da implementação de políticas estruturais em vez de emergenciais. "Estou falando de prevenção, orçamento, assistência social, educação, autonomia econômica, rede de proteção, saúde e continuidade institucional. A vida das mulheres precisa entrar no planejamento da política pública, e não só na etapa final da execução ou da punição", ressaltou.

"Creches e outros serviços que permitam que a mulher viva, estude e trabalhe com mais tranquilidade também são política para enfrentar desigualdade e violência, porque a sobrecarga do cuidado empurra muitas mulheres para dependência, exaustão e vulnerabilidade. E isso precisa ser pensado de forma regionalizada. A realidade da mulher no Plano Piloto não é a mesma da Ceilândia, de São Sebastião ou das áreas rurais. O DF é profundamente desigual; então, não existe política séria para mulheres sem olhar para o território", enfatizou Teresa.

Mais presença

A presença de mais mulheres nos espaços de poder é vista por especialistas como um caminho para que as pautas femininas sejam mais priorizadas. "Vivência muda prioridade, muda a forma de fazer política e muda até a forma como esses problemas são percebidos. Muda a escuta, muda a urgência. Então, é muito importante que as mulheres estejam em espaços de tomada de decisão, em espaços de formulação, aprovação e execução de política pública", frisou Teresa Starling.

Mônica Ribeiro corrobora que a presença de mais mulheres nos espaços de decisão pode ser uma solução de melhora. "A mulher é pauta central para melhorar o indicador de desempenho de toda a administração pública, inclusive das áreas consideradas 'neutras'. Isso significa incorporar essa perspectiva no planejamento urbano, na mobilidade, no orçamento, na saúde, na educação, na segurança e na formulação de metas de governo", destacou.

Advogada e cientista política, Gabriela Rollemberg é fundadora do projeto Quero Você Eleita, um laboratório de inovação política que atua de forma suprapartidária com a "tecnologia do afeto" e promove letramento político às mulheres para que elas entendam o voto como ferramenta de poder. "O projeto capacita a mulher para deixar de ser uma espectadora passiva e se tornar uma fiscal ativa dos nossos representantes", explicou. "A mulher precisa deixar de ser uma espectadora passiva e se tornar uma fiscal ativa dos nossos representantes. Tudo é política, e entender essa engrenagem permite transitar da indignação para a ação e incidência real", analisou.

"As mulheres ocupam apenas 18% das cadeiras na Câmara Federal. É fundamental ressaltar que representatividade não é apenas sobre estar lá, é sobre resultado e eficiência. As mulheres entregam 50% da produção legislativa", destacou Gabriela. 

Ela acredita que, para as políticas públicas que contemplem as mulheres serem priorizadas, é necessária uma maior participação feminina na política. "O que falta são mais mulheres com a caneta na mão, participando das mesas onde o futuro do país é decidido. No entanto, é preciso encarar que a política ainda é um ambiente tóxico e violento. A sub-representação feminina não decorre de falta de interesse, mas de um sistema que coloca em risco a própria existência física e a saúde mental das mulheres", provocou. 

Representatividade feminina na política local

A Câmara Legislativa do Distrito Federal conta atualmente com quatro deputadas distritais: 
  • Dayse Amarilio (PSB)
  • Doutora Jane (MDB)
  • Jaqueline Silva (MDB)
  • Paula Belmonte (Cidadania)
Já na Câmara dos Deputados, são duas parlamentares do DF: 
  • Bia Kicis (PL)
  • Erika Kokay (PT)
No Senado Federal, também são duas: 
  • Leila Barros (PDT), atual líder da Bancada Feminina no Senado.
  • Damares Alves (Republicanos)
No comando do governo do Distrito Federal, está, desde 29 de março, a governadora Celina Leão (PP).

Confira os depoimentos de eleitoras:

 

 

Luiz Francisco - É preciso criar mais leis que favoreçam as mulheres, em todos os aspectos, principalmente na questão da segurança pública. Quem pega transporte público, por exemplo, fica muito vulnerável à criminalidade. É preciso ações e políticas públicas que protejam as mulheres da violência. Thayla Gonçalves, 18 anos, universitária, moradora de Ceilândia
Arquivo pessoal - Eu espero compromisso com a vida das pessoas. Com investimento contínuo, valorização dos profissionais, uma gestão sem favorecimentos políticos, compromisso com a ciência e com a saúde pública. Desejo ver menos discurso, menos propaganda e mais trabalho para que a população tenha mais acesso à saúde. Lilian Barros, 47 anos, nutricionista da rede pública, moradora da Asa Norte
Leo Bahia - O próximo governo não pode tratar políticas públicas como mercadorias, com interesses próprios ou de poucos grupos. Espero, no sentido de esperançar, que a população seja, de fato, ouvida e que haja um objetivo comprometido com a igualdade de acesso a direitos para todas as pessoas. Jemima Tavares, 34 anos, doutoranda em artes cênicas, moradora da Asa Sul
Arquivo pessoal - Destaco a urgência de fortalecer a pauta das pessoas com deficiência, especialmente das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Além disso, é indispensável que áreas estruturantes como saúde, educação, segurança e trabalho sejam tratadas com seriedade e planejamento, garantindo inclusão real e oportunidades equitativas. Juliana Lemos, 40 anos, advogada, moradora do Park Way
Arquivo pessoal - Espero que os próximos governantes promovam uma participação feminina efetiva nas tomadas de decisão. Espero políticas públicas que olhem para a mulher de forma integral. Também espero um compromisso com a segurança pública e com o fortalecimento das instituições. Além disso, espero ações governamentais em relação à população em situação de rua. Ariadne Lucas, 32 anos, servidora pública, moradora do Guará
Arquivo pessoal - É urgente a implementação de uma gestão mais eficiente, transparente e descentralizada dos recursos públicos destinados à cultura, além de simplificar, qualificar e aumentar a agilidade nos repasses para mecanismos de fomento. É preciso um compromisso concreto com uma política cultural e educacional que trata a cultura como direito, e não como eventualidade. Aline Dantas, 40 anos, artista visual e produtora cultural, moradora de Sobradinho
Arquivo pessoal - Eu espero que os próximos governantes olhem com mais atenção para a saúde pública do DF. Vivemos um verdadeiro caos: falta atendimento adequado, demora excessiva e, muitas vezes, as pessoas acabam sendo tratadas sem o devido respeito e dignidade. Andreia Trincha Rosa, 37 anos, diarista, moradora de Cidade Ocidental (mas trabalha no DF)
Arquivo pessoal - Espero dos futuros gestores foco na saúde pública, uma área sensível. Espero também estabilidade política e ministrativa e uma boa gestão das contas públicas. Além disso, espero uma atenção à saúde financeira do BRB, que sofreu muitos prejuízos. Odivania Sales, 56 anos, assistente administrativa, moradora de Planaltina
Arquivo pessoal - Os novos governantes devem revisar a operacionalização das creches, atender demandas de professores e assistentes sociais, instituir o curso de Relações étnico-raciais no acesso e na reciclagem de concursados, e melhorar iluminação nas áreas externas das estações do metrô. Thânisia Cruz, 34 anos, educadora, moradora de Taguatinga
Arquivo pessoal - Eu quero poder saber que, se eu precisar de atendimento médico, vou encontrar um sistema que funcione. Quero ter a tranquilidade de que minha filha vai crescer com acesso a uma educação de qualidade e em um ambiente seguro. Também considero essencial a transparência. Como cidadã, quero entender para onde está indo o dinheiro público e ver resultados concretos. Ana Clara Caetano, 34 anos, bombeira, moradora da Octogonal
arquivo pessoal - É urgente a implementação de uma gestão mais eficiente, transparente e descentralizada dos recursos públicos destinados à cultura, além de simplificar, qualificar e aumentar a agilidade nos repasses para mecanismos de fomento. É preciso um compromisso concreto com uma política cultural e educacional que trata a cultura como direito, e não como eventualidade. Aline Dantas, 40 anos, artista visual e produtora cultural, moradora de Sobradinho

Mais Lidas

Representatividade legislativa

A Câmara Legislativa do Distrito Federal conta atualmente com quatro deputadas distritais: 
  • Dayse Amarilio (PSB)
  • Doutora Jane (MDB)
  • Jaqueline Silva (MDB)
  • Paula Belmonte (Cidadania)
Já na Câmara dos Deputados, são duas: 
  • Bia Kicis (PL)
  • Erika Kokay (PT)
No Senado Federal, também são duas: 
  • Leila Barros (PDT), atual líder da Bancada Feminina no Senado.
  • Damares Alves (Republicanos)
No comando do governo do Distrito Federal, está, desde 29 de março, a governadora Celina Leão (PP).