Jorge Henrique Cartaxo* | jorgehenrique.cartaxo@gmail.com
ESPECIAL PARA O CORREIO
Numa noite escura, na última semana de agosto de 1919, um trem especial cruzava as montanhas que separam a capital, San José, da cidade de Puerto Limón, na Costa Rica. Com as luzes dos vagões apagadas, o comboio levava para o exílio, em Paris, a família do ex-presidente Federico Tinoco Granados, que havia renunciado, em meio a uma grave e tensa crise política, no dia 20 daquele mesmo agosto.
Deitados no chão, além de Tinoco, sua mulher e filhos, buscavam abrigo o jovem diplomata brasileiro José Amaral Murtinho — depois lendário embaixador brasileiro no Equador — e sua esposa, Ada Fernández Le Cappellain — cunhada de Federico Tinoco —, que abraçava o pequeno Wladimir do Amaral Murtinho, então com apenas três meses de idade. Grupos de revoltosos armados, espalhados ao longo da ferrovia, atiravam contra o trem presidencial. O futuro embaixador e personagem fascinante da história de Brasília e do Brasil modernista mal chegara ao mundo e já se deparava com sua primeira grande aventura.
Desencontros políticos, tradição, densa e produtiva vida cultural. Essas seriam as marcas da grande vida de Wladimir Murtinho. Pelo lado materno, Murtinho era neto de dom Mauro Fernández Acuña — ministro, parlamentar constituinte, advogado e professor —, autor da reforma educacional que fez da Costa Rica a nação mais qualificada da América Central. No Brasil, os Murtinho se destacaram, inicialmente, na República. Joaquim Murtinho, médico e engenheiro, foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo Prudente de Morais e ministro da Fazenda no governo Campos Sales.
No início da década de 1940, então com 21 anos, Wladimir Murtinho ingressa no Itamaraty. Fluente em francês, inglês e espanhol, gostava de fazer ginástica rítmica com balizas e de velejar — hábito adquirido na Noruega. Em 1944, casa-se com Maria Antonieta Prado Uchoa, mais conhecida como Tuni, então com 22 anos. Artista plástica e gravurista, era também herdeira de duas aristocracias paulistas: os Silva Prado e os Álvares Penteado. Entre os anos 1940 e a primeira metade da década de 1950, o jovem diplomata e sua Tuni viveram na França, na Venezuela, no Canadá e na Suíça.
Certamente sob a influência amorosa de Tuni, Wladimir Murtinho inicia sua presença decisiva na história da memória, da arte e da cultura brasileira. Quando Ciccillo Matarazzo idealizou e coordenou a primeira Exposição Internacional de Arte Moderna no Brasil — a Bienal —, realizada no Pavilhão do Belvedere Trianon, na Avenida Paulista, em outubro de 1951, já se fazia notar ali a diligência, a inteligência e a sensibilidade do jovem diplomata Wladimir Murtinho.
A partir daí, ele e Tuni estariam presentes nas mais importantes cenas culturais do país, sobretudo na consolidação de Brasília como capital da República — como cidade-capital brasileira de brasileiros, e não de ocupantes transitórios e/ou eventuais. Assim, Murtinho se destacaria, em momentos distintos, no Instituto Nacional do Livro; na organização e edificação do famoso Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1958, em Bruxelas; na viabilização do périplo acadêmico de Sérgio Buarque de Holanda pela Europa, na década de 1950, abrindo espaço para a produção acadêmica brasileira; na concretização do Museu Aberto do Descobrimento, no sul da Bahia; na criação do Centro Nacional de Referência Cultural, posteriormente Fundação Pró-Memória e, depois, Ministério da Cultura. E em mais uma miríade de ações fundamentais.
Seu envolvimento mais direto com Brasília começa com sua nomeação como membro da Comissão de Estudo e Planejamento do Edifício do Ministério das Relações Exteriores (1958) e do Grupo de Trabalho da Transferência para Brasília (1959). Nesse mesmo período, Murtinho dirigia a Divisão de Comunicação do Itamaraty (1958–1959), dispondo dos instrumentos institucionais necessários para preparar o significado e a importância da grande mudança.
Mas será entre 1963 e 1969, quando presidiu a Comissão de Transferência do MRE e do Corpo Diplomático para Brasília, que Murtinho consolidará todo o seu extraordinário talento. Com Oscar Niemeyer, Milton Ramos, Olavo Redig, Burle Marx, entre outros, Wladimir Murtinho constrói, embeleza e ocupa o mais exuberante palácio de Brasília. Como nenhum outro, seja em Brasília ou no Rio de Janeiro, o Palácio dos Arcos — Palácio do Itamaraty — reúne, com raro primor e elegância, a história, a arte e a arquitetura do nosso país. Mas esse é um tema que trataremos aqui com a atenção, o vagar e a importância que ele merece.
Outra presença notável de Wladimir Murtinho na história de Brasília se dá quando assume a Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal (1975–1978). Em sua gestão, entre outras realizações, foram concluídos o Teatro Nacional e construídas salas de teatro em Taguatinga e na Ceilândia; restaurado e equipado o Cine Brasília, transformando-o na maior sala de cinema do país; e reativado o Festival de Cinema de Brasília; e construído o Teatro Galpão — o Galpãozinho —, hoje Centro Cultural Renato Russo. Temas, também, para novos e necessários textos.
Murtinho compreendia, como poucos, que a harmonia civilizatória de um aglomerado humano, em determinado espaço urbano, só se constrói pelo pertencimento e pela convergência de propósitos. Esses sentimentos, por sua vez, não se estabelecem sem a memória e a história. E essas não se consolidam sem as palavras, a poesia, a literatura, a pintura, a gravura, a escultura, a fotografia, o cinema, o desenho, a música, a dança, a representação, o sabor, o aroma, a sensualidade e o monumento. A esse conjunto chamamos cultura. Portanto, o lugar é a sua estética!
*Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em história pela Universidade Paris-Sorbonne, sócio-fundador do Instituto Histórico do Tocantins, sócio correspondente do Instituto Histórico de Goiás e diretor de Relações Institucionais do IHG-DF
