Ricardo Viana, delegado da Polícia Civil do DF (PCDF), acabava de entrar de férias, em 10 de janeiro de 2023. Aproveitava, na companhia da família, o ar salino de Aracaju (SE). Quatro dias depois, uma ligação inesperada de uma colega de profissão encerrou abruptamente o recesso. O telefonema comunicava o desaparecimento misterioso da cabeleireira Elizamar da Silva, 37 anos, e dos três filhos, Rafael, 6, Rafaela, 6, e Gabriel, 7. Iniciava, ali, uma complexa investigação que logo resultaria na considerada maior chacina do Centro-Oeste.
Em 15 dias, a polícia elucidou não só o sumiço da mãe e das três crianças. Mas de outras seis pessoas da mesma família. Todas assassinadas num sentimento alimentado pela ganância por terras. As outras vítimas são: Marcos Antônio Lopes de Oliveira, sogro de Elizamar; a esposa de Marcos, Renata Juliene Belchior; a filha de Marcos e Renata, Gabriela Belchior de Oliveira; o filho deles, Thiago Gabriel Belchior de Oliveira, e esposo de Elizamar; a ex-companheira de Marcos Cláudia da Rocha Marques; e a filha de Marcos e Cláudia, Ana Beatriz Marques de Oliveira.
"Acreditamos no nosso trabalho. Agora, é a sociedade que vai julgá-los", afirmou o delegado. Viana deve compor o rol das 21 testemunhas do júri.
Apesar da complexidade do caso, foram necessárias duas semanas para a elucidação e prisão dos cinco acusados. Desde a instauração do inquérito, os investigadores da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá) saíram às ruas em buscas de provas. Foram colhidas imagens das câmeras de segurança, depoimentos de testemunhas, além de outros métodos apuratórios não revelados.
Depois de dois dias do telefonema da colega de profissão, os policiais chegaram ao encalço do primeiro acusado e considerado o mentor do crime. Gideon foi preso na casa da namorada, no Recanto das Emas, em 16 de janeiro. Horas depois, Horácio acabou capturado. Na sequência, Carlomam, Fabrício e Carlos. O inquérito foi concluído em 15 dias e enviado à Justiça.
Perícia
Alinhado ao trabalho braçal da PCDF, peritos papiloscopistas, peritos criminais e peritos médicos-legistas desvendaram detalhes do massacre em tempo recorde. O resultado foi a identificação ágil de quatro vítimas encontradas em avançado estado de decomposição e dos autores já presos.
Entre os protocolos adotados pelos peritos foi a reconstituição do polegar de Marcos — encontrado enterrado no quintal da casa onde funcionava como cativeiro —, que consistiu no uso de ácido acético para neutralizar o cal encontrado no membro, elemento capaz de acelerar o estado de decomposição. Depois, os papiloscopistas iniciaram a etapa da micro-adesão (revelação e decalcagem com pó de fina granulagem).
Após esse processo, o polegar passou pelo tratamento à base de um produto químico para a reidratação do tecido. O mesmo método foi usado para identificar Cláudia Regina e Thiago Belchior, ambos encontrados em uma cisterna. Devido ao estado de decomposição, nenhum dos corpos tinham os 10 dedos da mão. Mas pelo chamado "espelho digital" foi possível obter a identificação dos dois.
Linha do tempo
Antes de dezembro de 2022
Segundo o Ministério Público, Gideon, Horácio, Fabrício e Carlomam teriam se associado para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, avaliada em cerca de R$ 2 milhões, além de subtrair dinheiro da família de Marcos. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar familiares.
27 de dezembro de 2022 — Início dos crimes
Gideon, Horácio e Carlomam, com um adolescente, vão à casa de Marcos
Marcos é baleado
Renata (esposa) e Gabriela (filha) são rendidas
Cerca de R$ 49,5 mil são roubados
As três vítimas são levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina
Marcos é assassinado no cativeiro e corpo é enterrado no local
Renata e Gabriela permanecem em cárcere
28 de dezembro de 2022
Fabrício assume a vigilância do cativeiro
O adolescente foge
Vítimas são ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas
Criminosos passam a usar os celulares das vítimas
Grupo começa a monitorar Cláudia (ex-esposa) e Ana Beatriz (filha de Marcos), para atrair as duas e obter R$ 200 mil da venda de um imóvel
Entre 2 e 4 de janeiro de 2023
Cláudia e Ana Beatriz são rendidas na casa onde moravam. As duas são levadas ao cativeiro e são ameaçadas para fornecer senhas bancárias
12 de janeiro de 2023
Grupo identifica Thiago (filho de Marcos) como possível ameaça. Ele é atraído à chácara Quilombo e rendido por Carlomam e Carlos Henrique, e levado ao cativeiro
Com acesso ao celular de Thiago, criminosos atraem Elizamar (esposa). Ela chega ao local com os três filhos pequenos
Todos são rendidos e levados para Cristalina (GO)
Elizamar e as três crianças são mortas por estrangulamento
Corpos são incendiados dentro do carro
14 de janeiro de 2023
Renata e Gabriela são levadas para Unaí (MG). As duas são mortas por estrangulamento. Corpos são queimados
Após o crime, Fabrício rompe com o grupo e abandona a ação
15 de janeiro de 2023
Gideon ordena a morte de Cláudia, Ana Beatriz e Thiago
Os três são levados a uma cisterna. São assassinados a facadas e corpos são ocultados no local
Objetos das vítimas são queimados para dificultar as investigações
17 de janeiro de 2023
Gideon e Horácio são presos
18 de janeiro de 2023
Fabrício é preso
25 de janeiro de 2023
Carlomam é preso
26 de janeiro de 2023
Carlos Henrique (“Galego”) é preso
