“Percebi a ausência delas e me preocupei a partir do segundo dia de desaparecimento.” A frase de Manoel da Rocha, pai de Cláudia e avô de Ana Beatriz, abriu um dos depoimentos mais contundentes do primeiro dia de julgamento da maior chacina do Centro-Oeste. Em plenário, ele relembrou as tentativas frustradas de contato, a ida à casa das vítimas e o momento em que encontrou o imóvel revirado. “Ali eu já sabia que havia algo errado”, disse.
Cláudia e a filha estão entre as vítimas assassinadas no plano macabro. Além delas, também foram mortos Marcos Antônio Lopes de Oliveira; a esposa, Renata Juliene Belchior; a filha do casal, Gabriela Belchior de Oliveira; o filho deles, Thiago Gabriel Belchior de Oliveira; a nora, Elizamar da Silva; e os netos Rafael, Rafaela e Gabriel.
A primeira etapa do júri foi encerrada por volta das 20h desta segunda-feira (13/4) e será retomada nesta terça-feira (14/4), a partir das 9h. A previsão é de que o julgamento se estenda ao longo de sete dias.
No banco dos réus estão Horácio Carlos, Gideon Batista, Carlomam dos Santos, Fabrício Silva e Carlos Henrique. Eles respondem por uma série de crimes, entre eles homicídio qualificado, sequestro, extorsão e fraude processual.
Ao longo do dia, seis testemunhas foram ouvidas — entre elas policiais civis de Goiás e do Distrito Federal, além de um dos delegados responsáveis pela investigação. A expectativa inicial era ouvir 12 pessoas, mas duas foram dispensadas pelas defesas, e os demais depoimentos ficaram para o dia seguinte.
O último a prestar depoimento foi o seu Manoel. “Quem seria capaz de praticar um ato tão monstruoso? Eu não conseguia pensar em ninguém”, disse, ao recordar o início do caso. “Mas a vida me apresentou, infelizmente, essas pessoas.”
Dinâmica
Em linhas convergentes, os agentes de segurança detalharam aos jurados a dinâmica dos crimes, a ordem das execuções e o papel atribuído a cada acusado no esquema. Segundo as investigações, o grupo teria se organizado para tomar posse da chácara Quilombo, no Itapoã, pertencente ao patriarca Marcos Antônio, além de subtrair valores da família.
As apurações indicam que o plano começou com o assassinato de Marcos e o sequestro de familiares. Ao longo de semanas, sete pessoas foram atraídas, mantidas em cativeiro e mortas em sequência, em uma escalada de violência marcada por estrangulamentos, facadas e ocultação de cadáveres. Só não foram levadas ao cativeiro Elizamar e os filhos.
Ainda durante a fase investigativa, conforme relataram as testemunhas, os próprios acusados acabaram se implicando mutuamente em seus depoimentos. Cada um atribuiu funções aos demais — como atrair vítimas e executar assassinatos —, mas todos negaram participação nas mortes das crianças.
