
A ordem para a execução em série das vítimas da chacina familiar teria partido de Gideon Batista após divergências entre os próprios acusados, afirmou o delegado Achilles Benedito em depoimento no Tribunal do Júri, nesta segunda-feira (13/4).
As 10 vítimas foram sequestradas e executadas entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, em um plano criminoso voltado à subtração de bens. Segundo as investigações, antes de serem mortas, as vítimas foram mantidas em cárcere em uma casa usada como cativeiro, no Vale do Sol, em Planaltina.
De acordo com a apuração, os familiares foram atraídos até a chácara de Marcos Antônio, uma das vítimas, sob falso pretexto, e, em seguida, submetidos a um assalto simulado. Horácio Carlos, um dos réus, chegou a se passar por vítima para evitar a descoberta do plano. Carlomam dos Santos, também acusado, teria sido responsável pela execução dos roubos.
Em 14 de janeiro, o grupo deu início às execuções. As primeiras vítimas, segundo o delegado, foram a cabeleireira Elizamar da Silva e os filhos — Rafael, Rafaela e Gabriel. Os corpos foram encontrados carbonizados dentro do carro da própria vítima, em Cristalina (GO).
“Em depoimento, Carlomam relata que, após as mortes da mulher e das crianças, houve uma discussão, já que Fabrício Silva, outro acusado, não concordava com as execuções. Ele menciona o nome de Horácio ou de Gideon dentro do cativeiro, momento em que as vítimas tomam conhecimento de quem estaria por trás do plano”, detalhou o delegado.
Após o episódio, Gideon teria determinado a eliminação dos demais familiares mantidos em cativeiro. No júri, a defesa de Carlomam questionou o delegado sobre a possibilidade de a ordem ter partido do próprio réu. “Isso não foi identificado. Pelo contrário, ele teria divergido”, respondeu.
Durante as diligências, ficou clara a ascendência de Gideon sobre os demais envolvidos, frisa o investigador. “O Horácio foi braço-direito, o Carlomam teria sido o executor direto, Fabrício na vigilância do cativeiro e Carlos Henrique de forma eventual.”
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O caso
As investigações da Polícia Civil mostraram que Gideon, Horácio, Fabrício e Carlomam se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, que estava sob a posse de Marcos Antônio. Também era parte do plano dos réus subtrair valores em dinheiro da família da vítima. Para isso, o combinado inicial era matar Marcos e sequestrar pessoas da família dele.
Em 27 de dezembro de 2022, Gideon, Horácio e Carloman, acompanhados de um adolescente, foram à residência de Marcos — onde também estavam a esposa, Renata Juliene Belchior, e a filha do casal, Gabriela Belchior de Oliveira. Marcos e as duas mulheres foram rendidos e os criminosos levaram R$ 49,5 mil.
As três vítimas foram levadas para um cativeiro preparado na região do Vale do Sol, em Planaltina. No local, Marcos foi assassinado por Gideon e Horácio. Com a ajuda de Carloman e do adolescente, o corpo foi enterrado no quintal do terreno. As mulheres permaneceram vivas no cativeiro.
Na manhã do dia seguinte, Fabrício ingressou na empreitada e assumiu a vigilância do cativeiro. O adolescente, por motivo desconhecido, fugiu do local. Renata e Gabriela foram ameaçadas para que fornecessem as senhas dos celulares e das contas bancárias delas. Com isso, o grupo começou a se passar pelas vítimas e puderam monitorar os passos de Cláudia da Rocha Marques e Ana Beatriz Marques de Oliveira. O objetivo era atraí-las para uma emboscada e subtrair R$ 200 mil referentes à venda de um lote.
Entre 2 e 4 de janeiro, Gideon, Horácio e Carloman foram à casa das duas. Elas foram rendidas, amarradas e levadas para o cativeiro onde já estavam Renata e Gabriela. As duas também foram ameaçadas para fornecer as senhas dos celulares e de contas bancárias.
O acesso aos telefones das duas mulheres levou o trio a acreditar que Thiago Gabriel Belchior poderia atrapalhar os planos. Por esse motivo, decidiram matá-lo. Em 12 de janeiro, utilizando os celulares das vítimas em cárcere, ele foi atraído à Chácara Quilombo. No local, Thiago foi rendido por Carloman e Carlos Henrique, enquanto Horácio fingia também ser vítima da abordagem. O homem foi levado ao cativeiro onde estavam as quatro mulheres.
Como havia feito antes, o grupo ameaçou Thiago para obter a senha do celular dele. Com acesso ao aparelho, entraram em contato com Elizamar com a intenção de matá-la. Eles atraíram a mulher junto aos três filhos para a Chácara Quilombo. Quando chegou, ela e as crianças foram rendidas e amarradas. Mãe e filhos foram levados a Cristalina (GO), onde foram estrangulados até a morte. Os corpos foram incinerados dentro do carro de Elizamar.
De volta ao cativeiro, Gideon, Horácio e Carloman mataram as demais vítimas. Em 14 de janeiro, Renata e Gabriela foram levadas até Unaí (MG), onde foram estranguladas até a morte e queimadas. Depois do duplo assassinato, Fabrício aparentemente se desentendeu com Gideon, Horácio e Carloman e abandonou a empreitada.
No dia seguinte, Gideon determinou que os outros dois matassem Claudia, Ana Beatriz e Thiago. Os três foram executados a facadas e arremessados em uma cisterna próxima ao cativeiro. Fabrício e Horácio voltaram ao cativeiro e atearam fogo nos objetos das vítimas com o objetivo de atrapalhar as investigações.
As outras cinco vítimas são: a esposa de Marcos, Renata Juliene Belchior; a filha de Marcos e Renata, Gabriela Belchior de Oliveira; o filho deles, Thiago Gabriel Belchior de Oliveira; a ex-companheira de Marcos Cláudia da Rocha Marques; e a filha de Marcos e Cláudia, Ana Beatriz Marques de Oliveira.

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