
Encontrei o fio da meada dessa trama no livro O segredo de Jeanne Baret, escrito pela francesa Glynis Ridley em 2010 e traduzido para a língua portuguesa por Roberto Araújo em 2020. Na apresentação, Roberto Araújo conta que se apaixonou à primeira vista pela história de Jeanne Baret enquanto fazia pesquisa para uma revista. Ficou impressionado com a trajetória dela.
Baret foi a primeira mulher que circunavegou o planeta. Fez da sua vida o que quis, muito antes de a palavra feminista ser criada. A narrativa começa em 1768 em uma expedição francesa de navio. Baret era uma pesquisadora de ervas para fins medicinais, companheira de Philibert Commerson, botânico famoso à época. Naqueles tempos, era vedada a participação de mulheres em expedições.
E, para burlar a regra inflexível, Baret se disfarçou de rapaz, usou cabelos curtos, não tomava banho com os colegas de viagem e evitava qualquer intimidade. Saía apenas com Philibert para fazer pesquisas de campo. O navio aportou no Rio de Janeiro. Quando era mais jovem, Philibert foi mordido por um cachorro e a ferida nunca curara completamente. Ocasionalmente, inflamava, causava muita dor e limitava as caminhadas na coleta de plantas e ervas.
Então, Baret se aventurou sozinha pelas matas, carregando pesadas ferramentas para colher ervas e flores, pois sempre tinha em mira a cura pelas plantas. Baret associava a cores da vegetação com as da doença que pretendia sanar. De repente, em uma das caminhadas, ela ficou encantada com a exuberância, a delicadeza e a beleza de uma planta de flores faceiras.
Logo, pensou em descobrir a cura para a ferida de Philibert. Levou a planta até o navio. Ela não serviu ao fim medicinal, mas o companheiro também ficou inebriado pela beleza das flores. Para estreitar os laços de amizade, eles resolveram batizar a planta com o sobrenome do chefe da expedição francesa, Louis-Antoine Bouganville. E, assim, esse arbusto brasileiríssimo ganhou nome francês.
O meu interesse por essa história decorre de fatos que já narrei neste alto de página, vale a pena lembrar e atualizar. Durante a pandemia, intensifiquei muito a relação com as plantas e, por assim dizer, me tornei íntimo delas. O bouganville lilás era um dos motivos de êxtase. No entanto, certo dia, depois de uma tempestade, fui observar o quintal e constatei que ele jazia com as flores misturadas ao barro no chão.
Fiquei muito triste, mas, enquanto eu curtia o luto e pensava no que fazer, outras duas mudas, sufocadas pelas árvores maiores, se desenvolveram, se enredaram no muro de pedra e saltaram para a rua com todo esplendor. Encontraram espaço e sol para respirar e florescer. Com sua faceirice, colorido, delicadeza e alegria, essas plantas nunca me enganaram inteiramente. Sempre desconfiei que eram brasileiras.
