crônica da cidade

Biografias ilustres

Em 2003, o Correio passou a publicar biografias de personalidades brasileiras e internacionais no caderno Super!, já extinto. Todos os sábados, religiosamente, eu e meu pai sentávamos à mesa para ler aqueles textos que, colecionados, viraram um livro

Na biografia de Pagu, Paloma Oliveto ressaltou a força revolucionária da jornalista, escritora e militante -  (crédito: Hemeroteca Digital )
Na biografia de Pagu, Paloma Oliveto ressaltou a força revolucionária da jornalista, escritora e militante - (crédito: Hemeroteca Digital )

Nas estantes de livros de minha casa, o espaço costuma ser dividido entre os calhamaços de biologia de minha mãe, professora aposentada, e as coleções de história e política de meu pai — que não é professor, mas sempre foi aficionado em entender as desventuras do passado. Entre essas obras, está um livro grande, pesado e de capa dura vermelha. De longe, chama atenção. O título? Biografias ilustres. Ali, papai compilou mais de 200 xerox de biografias publicadas pelo Correio Braziliense e colecionadas durante anos.

Tudo começou em maio de 2003, quando o jornal passou a publicar no falecido caderno Super! biografias de personalidades brasileiras e internacionais. Em mais ou menos cinco parágrafos, os autores faziam um resumo daquela figura, acompanhado de uma caricatura, no qual destacavam sua importância e seu legado (para o bem ou para o mal). Todos os sábados, religiosamente, eu e meu pai sentávamos à mesa para ler a publicação do dia. Ficava para mim a tarefa de recortar o material e guardá-lo em uma pasta, separada apenas para isso.

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Entre os muitos personagens retratados, estavam Anne Frank, Elis Regina, Pablo Picasso, Ayrton Senna, John Lennon, Chico Mendes. No compilado, tem até a biografia, veja só, de Jesus Cristo. Para além de um momento legal entre pai e filha, já que essas são algumas das minhas melhores memórias da infância, foi nestas páginas que aprendi a ler, peguei gosto pelo passado, virei expert em bisbilhotagem e decidi qual profissão queria seguir. Meu ofício seria contar histórias.

Embora confiasse que, em algum momento da vida, eu seria jornalista e desejasse escrever nas páginas do Correio, não passava por minha cabeça encontrar, nos corredores do jornal e 20 anos mais tarde, esses mesmos profissionais. Algumas das biografias foram escritas, inclusive, por pessoas com as quais tenho contato diário, como o editor José Carlos Vieira, hoje meu chefe. Outras várias foram narradas por Severino Francisco, que me concedeu, gentilmente, esse espaço para escrever esta crônica.

Em uma das biografias de que mais gosto, a jornalista Paloma Oliveto, autora de vários dos textos colecionados, conta a história de Pagu, "uma artista revolucionária", como dizia o título. Com palavras simples e em poucos parágrafos, ela fala também de arte, amadurecimento e repressão do Estado. Termina narrando que, prestes a morrer, a escritora e militante fez seu último pedido: que desabotoassem sua gola. Sentia-se sufocada. "Pagu queria partir do mesmo jeito que foi durante toda a vida: livre", fecha.

Tempos atrás, revelei a história da coleção de biografias à jornalista Nahima Maciel, da editoria de Cultura. Surpresa, ela contou não esperar que algum leitor se interessasse tanto pelas publicações a ponto de colecionar e esperar sempre pelo próximo texto. Hoje, tenho a sensação parecida de espanto quando alguém diz ter lido uma reportagem minha que não seja factual. A satisfação é imediata.

Meu pai, creio eu, já devia desconfiar do futuro das filhas, uma repórter e uma historiadora, quando montou aquele livro. Não por acaso, abaixo do título, ele deixou o gancho: "Dedicado às minhas filhas, Letícia e Larissa". E, de todos os leitores de minhas matérias, é ele o mais fiel de todos.

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postado em 28/07/2026 07:00 / atualizado em 28/07/2026 11:07
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