CRÔNICA DA CIDADE

Crônica: Sinto chêro de chuva neste agosto em Brasília

É difícil encontrar precipitação que se atreva a molhar o solo de agosto. O tempo é de ipês, seca severa e desafios para se manter resiliente

Chuva do dia 22 de agosto de 2026 -  (crédito:  Phillipe Mendes especial CB/DA Press)
Chuva do dia 22 de agosto de 2026 - (crédito: Phillipe Mendes especial CB/DA Press)

Quem não se espantou com os pingos de chuva que caíram em Brasília neste fim de semana? Sim, você leu a data corretamente no topo da página (seja no jornal impresso, seja na versão digital ou no site): hoje é 24 de agosto e no sábado, 22 de agosto, choveu nesta cidade incrustada no Planalto Central brasileiro. É raro, inesperado e, potencialmente, impossível.

É difícil encontrar precipitação que se atreva a molhar o solo de agosto. O tempo é de ipês, seca severa e desafios para se manter resiliente. O nariz e os pulmões já não conseguem trabalhar na sintonia necessária para levar o ar da nossa sobrevivência. A pele se entrega às trincas e arranhões. O cabelo se espeta num penteado de frizz que nenhum produto de beleza consegue enfrentar.

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Mas este agosto permitiu que as gotas atingissem sua terra seca, quase ardendo de calor. Em alguns cantos da cidade foram registradas as inesperadas chuvas. Por onde vivo, não vi nenhuma, mas senti o aroma da terra molhada, indicando que por perto a novidade chegara.

Penso que o que senti era o chêro de chuva. Assim, dessa forma mesmo. A expressão é nordestina. Por lá, quer dizer um carinho, um chamego. "Deixe te dar um chêro", dizem as avós aos netos queridos. Cresci em lar com raízes pernambucanas e sempre gostei do uso, incomum para muitos, dessa palavra.

A chuva de dias atrás foi como um abraço num momento de extrema exaustão em razão do tempo seco. Queria mergulhar naquele ar borrifado de água. Era pouco demais, e foi impossível. Nem a brisa refrescou. Sinal de que precisaremos esperar mais alguns meses para que o ciclo definitivo começar.

Minha mais velha é leonina. Nasceu no meio da estiagem impiedosa, de temperaturas elevadíssimas. Sempre marcamos a festa com a preocupação apenas do calor. A chuva nunca é uma variável e as opções ao livre também não entram na lista de empecilhos para a realização de qualquer festinha. Talvez nos próximos anos a gente precise começar a se preocupar com as visitantes inesperadas. Um espaço que tenha opção coberta, meio híbrido, pode ser providencial.

Apesar da poesia, sei que situações bruscas e fora do esperado quando se trata de tempo e de clima podem ser preocupantes. Sempre importante estarmos atentos aos sinais da natureza. O que vivemos hoje é reflexo do nosso passado de ações. As nossas crianças precisam saber das consequências do que fazemos, e nós igualmente.

 

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postado em 25/08/2026 21:27 / atualizado em 25/08/2026 21:37
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