
O CB.Saúde, programa em parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília, recebeu, ontem, o oncologista clínico do Hospital Brasília e vice-presidente de oncologia da Rede Américas, Gustavo Fernandes. Às jornalistas Sibele Negromonte e Mila Ferreira, ele detalhou um estudo recente que investigou a relação entre medicamentos GLP-1, as famosas canetas emagrecedoras, com a redução no desenvolvimento de tumores relacionados à obesidade.
O estudo, publicado na revista científica Annals of Oncology, com pacientes com obesidade, mas sem hipertensão ou diabetes, analisou o uso desses medicamentos e associou uma queda na frequência de casos de desenvolvimento de 13 tipos de câncer neste grupo, além da perda de peso maior do que pacientes obesos que não utilizaram os remédios.
O especialista pontua que os dados são chamativos pelo tamanho da diferença entre cada grupo estudado. No entanto, é necessário mais tempo de investigação. "Considero como um dado provavelmente verdadeiro, embora ainda precise de confirmações", afirma Fernandes. Para ele, faltam informações sobre o uso a longo prazo desses medicamentos. O estudo foi intitulado como "GLP-1 receptor agonist use and cancer risk in obese nondiabetic adults" e teve duração de dois anos.
Os principais cânceres relacionados à obesidade são, como apontado pelo oncologista, o câncer de pâncreas, de intestino grosso, próstata, mama e endométrio, comum na resistência a níveis altos de insulina. São "tumores que têm o risco reduzido, aparentemente, pelo uso das canetas, mas claramente, pela redução da obesidade", explica, enfatizando que não se sabe ainda se a baixa incidência surge a partir da redução no acúmulo de gordura ou da insulina, ou de ambos.
Rastreio
O câncer no aparelho digestivo, como no intestino grosso, aparece, aproximadamente, em uma a cada 30 pessoas no Brasil. Fernandes adverte que o rastreio, a partir da colonoscopia, é efetivo. Para o câncer de fígado, doenças infecciosas virais, como hepatite B e hepatite C, podem ser fatores de desenvolvimento do tumor.
A boa notícia é que existem vacinas para essas doenças. Ele também alerta para hábitos que "empurram a incidência para cima", sendo eles a ingestão de álcool, a obesidade, o tabagismo, a alimentação inadequada, a microbiota alterada e a idade avançada.
Novas descobertas
Fernandes também comentou sobre novidades contra um tipo de carcinoma, o câncer de pâncreas, que, segundo o médico, estava carente de boas notícias. Em junho deste ano, uma medicação chamada Aderasib foi apresentada no Congresso Americano de Oncologia. A droga atua no gene RAS, que está presente em 90% dos cânceres de pâncreas. "Estruturar uma droga que agisse nesse gene ou no produto dele é tão difícil que a gente achava que era impossível", celebra Fernandes.
Em dois meses da descoberta, a FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos Estados Unidos, liberou o uso do Aderasib, porém, com preços altos. De acordo com o especialista, o custo chega em torno de U$ 40 mil para uso mensal, o equivalente a aproximadamente R$ 200 mil. Fernandes ressalta que "é um assunto sensível. É difícil de calcular, em reais, quem pode suportar (o valor). Certamente esse preço precisará ser adequado a uma realidade nossa", opinou o vice-presidente de oncologia da Rede Américas.
*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates
