O Cerrado é um tema urgente e ausente do debate político. Enquanto a queda sucessiva de desmatamento na Amazônia é comemorada, o Cerrado é, pelo terceiro ano consecutivo, o bioma com o maior índice de devastação no país. Ignora-se que mais de 3 mil nascentes do Cerrado vertem água para o bioma amazônico. Por essas e por outras razões, a Rede Cerrado, que reúne mais de 500 organizações, e a Campanha Nacional de Defesa do Cerrado, que articula mais de 60 entidades, lançam, nesta sexta-feira (11/9), Dia do Cerrado, a carta-compromisso Vote no Cerrado, dirigida à classe política com oito pontos principais.
Ela tem como objetivo sensibilizar os candidatos a cargos eletivos a assumirem a responsabilidade pública de defender o bioma. E, para falar sobre essa iniciativa, o Podcast do Correio, com mediação de Nahima Maciel e Severino Francisco, entrevistou o pesquisador Yuri Salmona, doutor em engenharia florestal pela UnB, parceiro da Ashoka (é uma organização global e sem fins lucrativos pioneira no campo da inovação) e diretor da Rede Cerrado. Segundo Yuri, não existe Amazônia sem Cerrado e é preciso vencer a ignorância para alcançar a consciência de que todos os biomas estão interligados.
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Por que há uma certa alienação em relação ao Cerrado e por que é importante para as pessoas entenderem como o bioma afeta e pode afetar ainda mais a vida das pessoas?
Que bom que você começou por este ponto, porque me dá a oportunidade de falar uma frase muito simples: não existe bioma de segunda categoria, não existe um bioma que seja imensamente mais importante que os outros. Quem dividiu a natureza em biomas fomos nós, seres humanos; é uma divisão de última ordem, uma divisão política. Então, com isso eu também quero dizer que, por exemplo, a Amazônia não é menos ou mais importante do que o bioma Cerrado, e ela não merece menos proteção; o Cerrado merece uma proteção tal qual a da Amazônia.
E por que você faz essa afirmação?
Porque não existe Amazônia de pé sem Cerrado. No entanto, boa parte da grande mídia salienta todos os desafios e conquistas em se proteger a Amazônia, mas não faz a mesma coisa no mesmo nível com o bioma Cerrado, sem se dar conta de que mais de 3.427 nascentes que estão vertendo água para o bioma amazônico. E que dá para secar a Amazônia desmatando o Cerrado, que é justamente aquela porção que a gente chama de arco do desmatamento. Coisa parecida acontece com o Pantanal. É a maior planície alagada do mundo e ele perdeu mais da metade da sua superfície de água por conta do desmatamento no Cerrado. Coisa parecida está acontecendo com a Caatinga: a nascente do São Francisco e a área que leva mais de 94% da água do São Francisco estão no bioma Cerrado. E está se ampliando a área de desertificação e a área árida do semiárido na Caatinga por conta do desmatamento no Cerrado. Então, com esses três exemplos que eu trouxe para vocês aqui inicialmente, dá para demonstrar que não existe essa separação de bioma na natureza e que o Cerrado é extremamente importante até para os outros biomas.
E em que plano está a consciência sobre essa questão?
Isso não tem sido adequadamente pautado tanto pelos políticos quanto na grande mídia, porque o Cerrado perdeu mais da metade da sua área. Foi desmatada para a agropecuária, para a produção de commodities para exportação, especialmente carne bovina e soja, e ele é pelo terceiro ano consecutivo o bioma com maior taxa de desmatamento no Brasil. Mas parece que nem todo mundo fica tão escandalizado quanto deveria ficar com esses números que são muito graves.
Só para fazer um adendo, tem uma diferença inclusive na legislação, porque na Amazônia você tem que proteger 80% da terra, e, no Cerrado, são 22%.
Porque a nossa legislação se baseou em dois elementos muito preocupantes: preconceito e ignorância. A legislação foi preconceituosa e ignorante ao proteger imensamente mais a Amazônia do que o Cerrado. E, mais uma vez reforço, não é para diminuir a proteção da Amazônia, é para trazer o mesmo status. Então, na Amazônia um proprietário rural não pode desmatar 80% da propriedade; no Cerrado é o oposto, a legislação permite que ele desmate até 80%, e nas áreas de transição com a Amazônia, 35%. Por quê? Porque na ocasião em que foi montada essa legislação, tanto os grandes interesses que permanecem quanto o entendimento da importância do bioma não estavam de maneira explícita na mesa para fazer a gestão dos nossos recursos naturais.
Qual o conteúdo dessa carta de compromisso, o que ela tem e o que você considera essencial nela? Pois essas mudanças e ações passam por decisões políticas e políticas públicas.
Essa carta passa por oito pontos. Dois deles eu comentei aqui com vocês: o reconhecimento do Cerrado enquanto patrimônio e a proteção das áreas de recarga e infiltração do Cerrado. Mas ela também fala da importância de combater a grilagem, pois o Cerrado é enormemente atacado por ela; fala da demarcação de territórios tradicionais e da promoção de uma transição agroecológica. Isso é central porque 97,7% do desmatamento provocado no bioma é provocado pelo agro, em especial para pastagens de produção extensiva e para a produção de commodities agrícolas como a soja. Contudo, quem realmente coloca alimento e gera emprego na mesa da gente é em sua imensa maioria a agricultura familiar e a agricultura das próprias comunidades tradicionais, com a agroecologia crescendo fortemente. No entanto, no Plano Safra, 86% do recurso (mais de centenas de bilhões de reais) vai para o agro, que, ao mesmo tempo, não paga ICMS para exportação segundo a Lei Kandir, não gera tanto alimento quanto a agricultura familiar, ocupa mais de 70% da área e emite mais de 71% dos gases de efeito estufa. Investir nessa transição de fato interessa ao Brasil e ao brasileiro, produzindo alimento, gerando emprego e diversificando cadeias e arranjos locais, levando à soberania alimentar e valorizando o que é nativo do bioma em vez de ficar na dependência do mercado internacional. Também precisamos trabalhar isso com as próximas gerações para que o tema do cerrado não seja algo externo ou exótico, mas sim do dia a dia.
Pequi, cagaita, baru, jatobá... É impressionante ver as qualidades nutricionais dos frutos do Cerrado. Fale um pouco dessa riqueza.
O Cerrado tem mais de 12 mil espécies de plantas. Dessas 12 mil espécies, metade foi perdida porque metade do bioma foi desmatado, como uma biblioteca em que metade foi queimada. Quanto estamos perdendo de alimentos, nutrientes, fármacos e cosméticos? Olho para isso e vejo a necessidade de termos muito mais investimento em instituições como a Embrapa voltadas para os frutos e recursos florestais, não para madeireiros do Cerrado. Hoje em dia, muitas matérias-primas usadas em cosméticos que vêm da Coreia do Sul, França ou Estados Unidos têm equivalentes ou originais no Cerrado. Já temos sorveterias com sabores do Cerrado, mas poderíamos ter cadeias produtivas fortes como a do açaí para o pequi, araticum, cajuzinho e o bacuri. Falta estímulo na cadeia produtiva como um todo, pois é muito mais fácil para um produtor pedir financiamento no banco para plantar soja do que para produzir uma agrofloresta com produtos do Cerrado.
A gente fica falando do agro e, às vezes, até demonizando o agro, mas ele produz uma parte importante da economia brasileira. Diz-se que o pequeno produtor coloca alimento na mesa, mas ele dá conta de uma produção para tantos milhões de pessoas? Como conciliar as duas coisas em uma estratégia de futuro sustentável?
Primeiro, não temos opção e não há futuro com esse modelo de produção do agro. Não há água suficiente, clima regulado suficiente nem solo com nutrientes suficientes; esse caminho é para um precipício. Os insumos de que a agricultura familiar e o agronegócio precisam são clima regulado, solo com nutrientes, disponibilidade hídrica e sementes. Somente um dos caminhos consegue sustentar esses insumos a longo prazo. Tanto é que a ONU declarou que estamos em "falência hídrica", significando que os estoques e mecanismos de manutenção hídrica estão exauridos. O modelo de grandes latifúndios monoculturais para produção de commodities com preço atrelado ao mercado internacional não é sustentável. Mais de 33 milhões de hectares de pastagens no bioma Cerrado são pastagens mal manejadas e com produção muito abaixo do potencial (média de 0,9 cabeça de gado por hectare, quando poderia ter 4), mostrando que ocupamos territórios que não produzem adequadamente e não há argumento para continuar desmatando. Por que desmatam mais? Porque o negócio é a grilagem e a especulação imobiliária, lucrando com a autorização e valorização da terra desmatada antes mesmo de produzir qualquer alimento. Essa é a semente da expansão do desmatamento, concentrando renda e terra. Precisamos de uma revisão severa no nosso modo de produção e ocupação.
Fale sobre a importância da agenda do Cerrado em relação às mudanças climáticas.
As catástrofes climáticas parecem abstratas, mas a tragédia no Rio Grande do Sul, por exemplo, teve o desmatamento do Cerrado como um dos causadores. O Cerrado perdeu mais da metade de sua área (tamanho da Alemanha e França juntas), o que amplifica a bolha de ar quente e seco, impedindo que frentes frias adentrem pelo meio do país, desviando-as para o Sul e provocando chuvas torrenciais no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O desmatamento no Cerrado hoje emite mais gases de efeito estufa do que toda a indústria brasileira. Além disso, artigos mostram que as veredas têm seis vezes mais capacidade de estocar carbono do que a floresta amazônica típica, pois o Cerrado é uma "floresta invertida" com raízes profundas no solo.
Qual é a relevância das comunidades tradicionais para a preservação do Cerrado?
Existem mais de 28 segmentos de comunidades tradicionais (quilombolas, geraizeiros, fundo e fecho de pasto, etc.). Elas mantêm o Cerrado de pé há centenas e milhares de anos, guardando conhecimentos. Dados da iniciativa "Tô no Mapa" mostram que territórios de comunidades tradicionais protegem 70% a mais do que as áreas do Entorno. Além disso, guardam nossa cultura, identidade, culinária e modo de vida, devendo ser colocadas como protagonistas na transição sustentável.
As pessoas estão começando a ficar assustadas com as consequências das mudanças climáticas. Mas o que elas podem fazer efetivamente no dia a dia?
Neste ano, votar adequadamente avaliando o histórico do candidato. Além disso, vincular-se à proteção do bioma pelo consumo, consumindo de comunidades que sustentam a agricultura (CSA) e feiras agroecológicas/orgânicas. Para produzir 1 quilo de carne bovina são necessários 14 mil litros de água e para 1 quilo de soja entre 2,5 mil e 4 mil litros. Essa cadeia produtiva consome água demais e precisamos questionar nossos hábitos.
