Covid-19

"Mais grave que a pandemia, é a infodemia", avalia infectologista

Mesmo em um país em que as pessoas "gostam de ser vacinadas", como o Brasil, a cobertura vem caindo bastante, ressalta José David Urbaéz

Jéssica Gotlib
postado em 01/10/2020 19:32
Médico alerta que, mesmo o Brasil sendo um país onde tradicionalmente as pessoas gostam de ser vacinadas, informações falsas têm diminuído eficácia das campanhas -  (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A. Press)
Médico alerta que, mesmo o Brasil sendo um país onde tradicionalmente as pessoas gostam de ser vacinadas, informações falsas têm diminuído eficácia das campanhas - (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A. Press)

Diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, José David Urbaéz, falou ao CB.Saúde — parceria entre o Correio e a TV Brasília —, nesta quinta-feira (1º/10), sobre as diversas crises causada pela covid-19. Para o especialista, um dos maiores empecilhos para que o mundo supere este momento, é a grande disseminação de informações falsas.

“Eu acho que mais grave que a pandemia, que é gravíssima, é a infodemia, que é essa doença de informações com má intenção, que são colocadas com muita potência, num mundo que hoje tem as redes sociais, que não existiam, e que têm um impacto gigantesco na compreensão das coisas”, enfatizou.

De acordo com o médico, as notícias maliciosas ligadas aos movimentos antivacina tiveram, inicialmente, um impacto menor no Brasil. “O Brasil, felizmente, foi atravessado por esse movimento ainda muito incipientemente”, colocou. Isso porque o país tem um histórico peculiar com a imunização. “A população brasileira gosta de ser vacinada. Mas isso infelizmente tem caído”, comentou.

Medo individual começou a se generalizar

Propagados por uma onda de conteúdos maliciosos, a compreensão das dinâmicas dos grupos antivacina chega a ser uma das principais recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para os agentes públicos envolvidos com a área médica em todo o mundo. “A Organização Mundial da Saúde definiu como um dos mais importantes pontos de pesquisa e ação na saúde pública o que se chama hesitação vacinal”, lembrou.

O foco é entender como essa dinâmica, até então dispersa em determinados comportamentos individuais, acabou ganhando contornos de organização coletiva em diferentes países. “A partir de onde aparece esse comportamento de maneira populacional, porque sempre teve pessoa que teve medo da picada, sempre teve mito de que podia ser uma campanha para matar a gente. Isso sempre existiu no imaginário das pessoas, mas isso não impediu que o Brasil tivesse 95%, pelo menos, de adesão à vacinação”, explicou.

Essa onda é tão forte que, mesmo no nosso país em que a tradição vacinal é sólida, já houve pelo menos 10% de queda na adesão às campanhas. “Então, até no Brasil, que é uma população que gosta de ser vacinada, pela eficácia que a vacina sempre mostrou para a população, nós temos tido queda dessas vontades de serem vacinados, que vai exatamente nesse trilho da OMS investir nessa pesquisa. Teve uma queda e hoje sabe-se que 85% das pessoas gostam de ser vacinadas, é ótimo, mas foi 95%”, detalhou.

Sarampo está de volta

Urbaéz coloca que a popularização desse tipo de pensamento é algo grave sob o ponto de vista do controle de epidemias. “Eu acho que o sucesso que a espécie humana teve a partir de você conseguir a imunidade coletiva está na varíola, que é a única doença infecciosa até hoje erradicada, mas nós temos a poliomielite, que foi controlada de forma intensa, que infelizmente, com essa diminuição na cobertura vacinal, está tendo um foco aqui, um foco acolá. Isso é preocupante”, resgatou.

Um efeito recente de todo esse cenário no país, é o ressurgimento dos casos de sarampo. “O Brasil tinha o certificado de eliminação de sarampo até 2016, porque a gente mantinha cobertura de mais de 95% de vacina, isso foi caindo. Porque também teve, a partir de uma diminuição dos investimentos em saúde, uma queda nas salas de vacina e você começou a ter surtos imediatamente. E surtos (também) na Europa e nos Estados Unidos que tiveram reflexos intensos no Brasil”, exemplificou.

Pensamento coletivo

Ainda que a onda de desinformação atinja outros temas, como o uso incorreto do conceito de imunidade de rebanho, o infectologista acredita que a comunicação correta sobre os avanços científicos é fundamental para que a pandemia da covid-19 seja superada. “Eu quero pensar que a gente está dando os primeiros passos, mas está caminhando com mais dificuldades do que deveria existir. Eu acho que a gente está encarando uma situação que vai requerer muito esforço das pessoas que estão lutando desse lado para que isso melhore”, comentou.

Ele lembrou que as vacinas já desenvolvidas até aqui são responsáveis pelos aumentos significativos na qualidade de vida e longevidade dos seres humanos. “Sem dúvida alguma, a vacina é essa ferramenta. É a ferramenta que talvez tenha feito com que você e eu estejamos aqui, vivos. A possibilidade de vivermos mais de 70 anos e que nossos pais nos tivessem só foi possível porque teve vacina. A gente vivia 40 anos antes”, argumentou.

Mas, mais do que confiar na ciência, para o pesquisador, é preciso que todos aprendam que os seres humanos estão interligados. “Filosoficamente, o mais importante é você certificar o outro, que a gente não o certifica. Então, quando você vacina, é porque você sabe que existe o outro e o outro é a pessoa, a cultura, o sistema que faz com que você fique vivo. Sem o outro, nós não existimos nem física, nem emocional, nem psiquicamente. A construção do ser humano é uma construção coletiva”, concluiu.

Assista à entrevista completa:

Ouça também no formato podcast:

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação