COVID-19

Ministério da Saúde tira do ar app que recomenda "tratamento precoce"

Ferramenta, lançada em Manaus, ficou uma semana em funcionamento e indicava medicamentos sem eficácia comprovada para a covid-19, como cloroquina e ivermectina

Sarah Teófilo
Maria Eduarda Cardim
Jéssica Gotlib
postado em 21/01/2021 15:56 / atualizado em 21/01/2021 17:50
Plataforma era facilmente acessada por pessoas que não são da área médica e recomendava medicamentos a todos os pacientes -  (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A)
Plataforma era facilmente acessada por pessoas que não são da área médica e recomendava medicamentos a todos os pacientes - (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A)

 

O Ministério da Saúde retirou do ar nesta quinta-feira (21/1) a plataforma do aplicativo TrateCov, lançado há uma semana pelo ministro Eduardo Pazuello, que recomendava o tratamento precoce com a prescrição de medicamentos, como a cloroquina e ivermectina, para pacientes com sintomas da covid-19. Os remédios não possuem eficácia comprovada contra a doença. Segundo a pasta, o site funcionava apenas como simulador, foi invadido e ativado indevidamente, “o que provocou a retirada do ar, que será momentânea”.

Apesar de informar que o site foi invadido e ativado indevidamente, a plataforma “tratecovbrasil.saude.gov.br” foi divulgada pelo próprio ministério nas notícias do site oficial da pasta. Com isso, ainda que o ministério tenha informado que o aplicativo foi criado para auxiliar os profissionais de saúde a diagnosticar a doença, após o médico cadastrar dados, sintomas e comorbidades do paciente, qualquer pessoa tinha acesso ao site que simulava a plataforma e poderia fazer o próprio diagnóstico.

O aplicativo foi lançado pelo ministro Eduardo Pazuello no dia 11 de janeiro, em visita a Manaus na semana passada. Pazuello já sabia da crise de oxigênio na cidade e viajou ao município no dia 9 de janeiro, onde ficou até o dia 13, quarta-feira. No dia seguinte, o sistema de Saúde entrou em verdadeiro colapso, devido à falta de cilindros de oxigênio, e pacientes começaram a morrer por asfixia.

No lançamento, Pazuello afirmou que a prescrição de uma medicação pode ser feita pelo médico antes dos resultados dos testes, somente com o diagnóstico clínico, já que exames laboratoriais ou de imagem são complementares. "O diagnóstico é do médico, não é do exame, não é do teste, não aceitem isso. (...) o exame laboratorial, o teste é complemento do diagnóstico médico, até porque a medicação pode e deve começar antes desses exames complementares. Caso o exame lá na frente, por alguma razão, dê negativo, ele reduz a medicação e tá ótimo. Não vai matar ninguém, pelo contrário, salvará no caso da covid", indicou Pazuello.

Em texto publicado no site da pasta, o Ministério da Saúde informou que “diante do cenário epidemiológico atual, a capital do Amazonas foi escolhida para estrear o TrateCOV, já que o objetivo do aplicativo é trazer mais segurança e agilidade no atendimento e diagnóstico dos pacientes com coronavírus”.

Nesta quinta-feira, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma nota na qual diz ter alertado a pasta sobre inconsistências identificadas no aplicativo. No documento, o conselho informa que solicitou ao Ministério da Saúde a retirada imediata do aplicativo do ar.

O app

Na plataforma, qualquer pessoa incluía informações, como lugares frequentados pelo paciente ou contato com pessoas que tenham testado positivo para covid-19. Ao final, apresentava-se uma pontuação de gravidade. Se fosse seis pontos ou mais, era dado o diagnóstico da doença. Em seguida, surgia a opção de receber ou não tratamento precoce. Caso a resposta fosse positiva, apareciam os nomes dos medicamentos, junto com as doses e quantidade de dias a serem administrados. Caso a resposta fosse negativa, o médico precisa indicar o motivo: recusa do paciente, falta de medicamento, contra indicação médica ou outros.

Tratamento precoce

Na última terça-feira, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) enviou um ofício ao Ministério da Saúde para solicitar a revogação de notas informativas, orientações e protocolos, que incentivem o uso de medicamentos para o tratamento da covid-19, sem eficácia e segurança comprovadas.

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