COVID E MATERNIDADE

Covid-19 pode elevar o risco de pré-eclâmpsia

Pesquisadoras brasileiras constatam que grávidas infectadas pelo Sars-CoV-2 são mais vulneráveis a apresentar a doença, decorrente do aumento persistente da pressão arterial e dos níveis de proteína na urina, uma ameaça à vida das mães e dos bebês

Vilhena Soares
postado em 13/08/2021 06:00
 (crédito: Norberto Duarte/AFP - 19/6/21)
(crédito: Norberto Duarte/AFP - 19/6/21)

Um novo estudo, realizado por pesquisadoras brasileiras, traz um alerta para as grávidas. Segundo a pesquisa, publicada na revista especializada Clinical Science, gestantes infectadas com o novo coronavírus correm um risco maior de desenvolver pré-eclâmpsia, enfermidade específica desse período e que pode desencadear doenças cardiovasculares graves, ameaçando a vida das mulheres e dos bebês.

A pesquisa descreve os mecanismos usados pelo patógeno da covid-19 no organismo para tornar as grávidas mais suscetíveis a ao problema. Especialistas acreditam que as novas informações podem contribuir para um melhor atendimento das futuras mamães, evitando complicações gestacionais.

As autoras da pesquisa explicam que o trabalho foi feito com o objetivo de entender melhor os efeitos gerados pelo Sars-CoV-2 no organismo das gestantes, um dos grupos mais prejudicados pela pandemia até agora. “O maior índice de óbitos de grávidas por covid-19 é do Brasil, o que nos chamou a atenção. Por isso, buscamos entender quais os mecanismos que poderiam estar envolvidos no desenvolvimento da pré-eclâmpsia, um problema bastante grave”, explicou ao Correio Dulce Elena Casarini, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e uma das três realizadoras do trabalho.

Na pesquisa, Dulce Casarini e suas colegas avaliaram 145 estudos nacionais e internacionais sobre o tema. Por meio das análises, elas observaram que a presença do Sars-CoV-2 no organismo das gestantes pode diminuir os níveis da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2, sigla em inglês), uma proteína presente em quase todo o corpo humano, que é utilizada pelo patógeno da covid-19 para ter acesso às células humanas.

As especialistas explicam que essa redução é preocupante, já que a ACE2 é responsável por tarefas importantes, como controlar o fluxo da circulação sanguínea na placenta e regular adaptações cardiovasculares que ocorrem durante a gestação. “O déficit de ACE2 pode causar um desbalanço em um setor chamado de sistema renina-angiotensina, que provoca um aumento da ação vasoconstritora (contração dos vasos sanguíneos). Com isso, é possível que ocorra a elevação da pressão arterial das gestantes, que leva à pré-eclâmpsia”, detalhou Casarini.

Prevenção

Para a médica Marta Rocha, neonatologista pediátrica do Hospital Santa Lúcia, de Brasília, o estudo mostra um dado importante, que merece total atenção da área médica, pois pode evitar problemas ainda mais graves para as grávidas. “Geralmente, quando vemos esse tipo de associação em diversos artigos menores, como é o que acontece nesse estudo, provavelmente, isso se expressa na vida real. E a pré-eclâmpsia é uma enfermidade que o médico precisa considerar durante a gestação e o parto. Ao saber desse risco, os melhores tratamentos podem ser direcionados a essas mulheres, evitando danos ainda maiores”, ressalou a especialista.

“Para tratar a pré-eclâmpsia usamos anticoagulantes, o mesmo medicamento usado na covid-19. Então, já temos esse ponto positivo, mas outras medidas podem ser tomadas”, observou a médica. Marta Rocha disse ter a expectativa de que pesquisas futuras vão ajudar a entender melhor o tema, auxiliando os médicos a lidar de formas mais assertivas com os riscos da covid-19 em grávidas.

Na Unifesp, as pesquisadoras já trabalham em um novo estudo, no qual farão análises laboratoriais em placentas de mulheres infectadas pelo novo coronavírus. Elas pretendem aprofundar o entendimento sobre como o patógeno prejudica a gestação, causando a pré-eclâmpsia e também outros danos à saúde do bebê.

“Algumas pesquisas mostraram a existência de partículas virais nas placentas de mães contaminadas e que essa presença do patógeno está relacionada a sinais de inflamação e algumas lesões. Queremos observar isso mais de perto e entender se esses danos também podem causar outros prejuízos, como a perda de peso das crianças, por exemplo”, antecipou Dulce Casarini.

Palavra de especialista: Informações valiosas

“No começo da pandemia, quando o vírus era totalmente desconhecido, nós tínhamos apenas informações gerais dos seus efeitos no organismo, problemas que atingiam qualquer pessoa que sofresse com essa enfermidade. Agora, com mais tempo de pandemia e dados mais robustos, podemos determinar os danos que grupos específicos podem apresentar ao serem contaminados, como é o caso das grávidas. Nessa pesquisa, temos essa informação muito importante, que irá contribuir para um tratamento mais eficaz para essas mulheres. Apenas com mais pesquisas vamos poder entender se as crianças vão apresentar complicações futuras. Por isso, é importante continuar a estudar o vírus, todos os mecanismos relacionados a ele e acompanhar os indivíduos que sofreram com essa enfermidade.”

Claudia França Cavalcante Valente, membro do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai)

 

 

Número alarmante

Uma pesquisa publicada em julho do ano passado na revista especializada International Journal of Gynecology mostrou que, entre o fim de fevereiro — quando o primeiro caso da covidfoi registrado no Brasil — e junho, 124 gestantes e puérperas morreram em decorrência de complicações causadas pelo novo coronavírus, um índice que corresponde a 77% desses óbitos no mundo no mesmo período. O estudo, realizado por uma série de instituições de ensino brasileiras, como USP e Unicamp, também mostrou que 23% dessas gestantes não tiveram acesso a um leito de UTI, e 36% nem chegaram a ser intubadas.

Palavra de especialista

Informações valiosas

“No começo da pandemia, quando o vírus era totalmente desconhecido, nós tínhamos apenas informações gerais dos seus efeitos no organismo, problemas que atingiam qualquer pessoa que sofresse com essa enfermidade. Agora, com mais tempo de pandemia e dados mais robustos, podemos determinar os danos que grupos específicos podem apresentar ao serem contaminados, como é o caso das grávidas. Nessa pesquisa, temos essa informação muito importante, que irá contribuir para um tratamento mais eficaz para essas mulheres. Apenas com mais pesquisas vamos poder entender se as crianças vão apresentar complicações futuras. Por isso, é importante continuar a estudar o vírus, todos os mecanismos relacionados a ele e acompanhar os indivíduos que sofreram com essa enfermidade.”

Claudia França Cavalcante Valente, membro do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai)

 

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