PANDEMIA NO BRASIL

Covid-19: vacina da UFMG pode ser terceira dose para quem tomou CoronaVac

Após questionamentos, especialistas consultados pelo Estado de Minas ressaltam eficácia da vacina chinesa; UFMG inicia testes clínicos com 3ª dose da SpiN-Tec

Natasha Werneck - Estado de Minas
postado em 13/08/2021 21:03 / atualizado em 13/08/2021 21:04
 (crédito: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(crédito: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Pelo menos 52,91% da população brasileira recebeu a primeira dose da vacina contra a covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde. Apesar do caminho ainda ser longo até que todo o público-alvo complete o esquema vacinal, estudos já estão sendo realizados para reforçar a imunização com uma terceira dose.

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vai iniciar testes clínicos em pacientes que tomaram as duas doses da CoronaVac para que recebam um reforço com a SpiN-Tec, imunizante que está sendo desenvolvido na universidade.

Segundo especialistas, ensaios clínicos apontam que a eficiência da CoronaVac é reduzida, sem, no entanto, comprometer seus efeitos. “Isso não inutiliza o uso dessa vacina”, ressalta Jordana Coelho dos Reis, professora do Departamento de Microbiologia da UFMG.

Ela ressalta o papel da vacina chinesa no início da imunização no Brasil. “Até o primeiro momento, a grande maioria da população foi imunizada com a CoronaVac. Ela contribuiu, provavelmente, para a diminuição no número de casos que observamos no atual momento, comparado com o período de maio onde tivemos um pico enorme de casos e mortes de COVID-19”, avalia.

Jordana acredita que o caminho agora é pensar em estratégias que vão favorecer, ou mesmo aumentar, a resposta imune produzida pela CoronaVac. Essa é a ideia proposta por pesquisadores da UFMG à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no fim de julho.

A vacina SpiN-Tec, que começou a ser desenvolvida entre abril e maio do ano passado pelo CTVacinas da UFMG, pode ser usada como reforço da CoronaVac. “Há a perspectiva de uma terceira dose em indivíduos vacinados com a CoronaVac, com a primeira e segunda dose, e com até um período de seis meses da segunda dose aplicada”, explica a professora da universidade.

“Vai ser avaliada a segurança, na fase clínica 1, daquele protótipo vacinal ou imunógeno. No estudo de fase clínica 2 vai avaliar a eficácia da vacina da UFMG em induzir um reforço para os indivíduos que já foram previamente vacinados”, explica.

Além disso, ela destaca que também há estudos para um esquema de vacinação heterólogo, um sistema onde a primeira dose e o reforço são vacinas diferentes.

“A gente já tem um estudo muito interessante mostrando que uma primeira dose de Astrazeneca e uma segunda dose com Pfizer induz uma alta resposta de anticorpos, mais do que se a gente colocar o que chamamos de sistema homólogo, que são doses de reforço com a mesma vacina. Ainda precisa ser mais elaborado e a gente vai conseguir ter mais informações sobre isso nesse ensaio clínico que a UFMG vai começar a desenvolver nos indivíduos vacinados com Coronavac”, afirma Jordana.

Eficiência

O debate em torno da eficácia da CoronaVac foi fomentado após a morte do ator Tarcísio Meira, de 85 anos, que recebeu as duas doses e morreu, vítima da COVID-19.

É necessário que a população entenda que questionar a eficiência da vacina é um debate infundado e contribui para a desinformação, como avaliam especialistas consultados pelo Estado de Minas.

O virologista Flavio Fonseca, do Departamento de Microbiologia da UFMG, explica que os resultados da vacina chinesa é o esperado e similar aos da Pfizer e Astrazeneca.

“Ela tem taxas de eficácia menores que as outras vacinas, mas, quando se avalia a taxa de eficácia global em prevenir casos graves e óbitos, os dados dos estudos que foram feitos até agora apontam que ela é similar às outras vacinas. Do ponto de vista científico, ela é tão válida quanto às outras para combater a pandemia no Brasil”, explica.

Questões políticas acima das científicas

O infectologista e membro do Comitê de Enfrentamento à COVID-19 da Prefeitura de Belo Horizonte Carlos Starling aponta que a preocupação que estão colocando na CoronaVac gira em torno de questões políticas e não científicas.

“Essa preocupação não tem base nos dados epidemiológicos e nos dados científicos que envolvem essa vacina. Isso é muito mais alimentado por questões políticas do que por questões científicas de fato. Os estudos de vida real com essa vacina mostram que ela tem o mesmo papel das outras vacinas, que é reduzir o risco grave e mortes pela doença, mas isso não significa que seja uma vacina mágica que faz com que as pessoas vivam eternamente”, observa.

Flavio Fonseca exemplifica: “O estudo feito na cidade de Serrana, em São Paulo, onde a cidade praticamente toda foi vacinada contra COVID-19 usando a CoronaVac, mostra que os dados de casos graves, hospitalizações e mortes simplesmente despencaram para níveis extremamente importantes e similares aos dados de eficácia gerados para outras vacinas”.

Por que pessoas que tomaram a vacina podem morrer?

Dados iniciais, da fase de pesquisa no Brasil, mostravam que, caso a pessoa seja infectada pelo coronavírus, a CoronaVac oferece 100% de eficácia para evitar adoecimento grave, 78% para prevenir casos leves e 50,38% menos risco de adoecer. No entanto, essas estatísticas mostram em pessoas que participaram do estudo, não havia uma eficácia de 100% garantida em toda a população que receber a vacina.

“Não existe nenhuma vacina disponível neste planeta que seja 100% segura. Seja para essa doença ou qualquer outra”, afirma Carlos Starling.

Jordana completa: “É muito importante a população entender que não podemos atribuir às vacinas uma função que nunca teve e nunca terá. As vacinas não induzem imunidade esterilizante, ou seja, a gente não esteriliza o indivíduo que nenhum vírus consegue entrar nele. O vírus entra, pode gerar um ciclo de multiplicação mas diminui os riscos de doença. Então o principal objetivo das vacinas não é gerar imunização esterilizante e sim reduzir doenças e óbitos”.

No caso da CoronaVac, os especialistas apontam duas prováveis hipóteses. Segundo Flavio Fonseca, os dados mais baixos de eficácia do imunizante são atribuídos, além da própria característica da vacina, ao tipo de estudo.

“O estudo de fase 3 dessa vacina foi realizado em populações hiperexpostas. No Brasil, fizeram parte dessa fase os profissionais da saúde, que eram na época, ano passado quando o estudo foi realizado, uma população mais exposta pelo Sars-Cov-2 do que para a população de uma forma geral”, explica.

“O estudo de fase 3, por exemplo, da Pfizer e da Astrazeneca, foi feito na população geral, onde a exposição ao Sars-Cov-2 que causa a COVID-19 é menor. Isso impacta os dados de eficácia global, que avalia a quantidade de pessoas que podem se infectar com a COVID-19 a respeito de estarem vacinadas. Como o estudo foi feito em pessoas mais expostas, impactou nos dados de eficácia, gerando uma eficácia global menor. Mas quando se avalia, não apenas a capacidade da vacina de infecções, mas de doença grave e óbitos, esse resultado é similar aos das outras vacinas.”

No entanto, existe também a possibilidade dessas mortes serem atribuídas às variantes. “O que pode ter acontecido, que eu mais acredito, é que esses indivíduos que vieram a óbito, mesmo após a segunda dose da vacina, provavelmente se infectaram com uma variante do Sars-Cov-2”, avalia Jordana.

“A variante de Wuhan foi utilizada como modelo para criar a vacina da CoronaVac, no início da pandemia. Depois desse tempo, a gente tem um ano e meio, e o vírus circula a uma velocidade enorme, o que permitiu uma variabilidade enorme, especialmente na região do genoma que codifica a produção da proteína Spike, que é o principal alvo de anticorpos neutralizantes. Se eu mudo essa parte do vírus, isso impede que esses anticorpos neutralizantes atuem nas novas variantes que estão surgindo. O que pode ter acontecido é isso, os indivíduos se infectaram com uma variante a qual os anticorpos neutralizantes gerados pela CoronaVac não foram capazes de protegê-los”, diz a professora.

Mas este caso não está exclusivamente associado à vacina chinesa. “A gente já sabe, por exemplo, que a vacina da Pfizer e da Moderna, por exemplo, não protegem da variante Delta. A gente sabe que a vacina da Astrazeneca não protege contra a variante Beta, que é a da África do Sul. A vacina da Janssen tem uma baixa proteção para a variante da África do Sul. E, provavelmente, a variante Delta, que é a indiana, também vai gerar um escape viral em relação à resposta imune induzida pelos anticorpos vacinais. Temos que fazer mais vacinas, temos que acelerar e investir mais na produção de vacina para a gente poder conseguir proteger contra as novas variantes”, destaca Jordana.

Medidas não farmacológicas

Para evitar que o vírus continue se adaptando, gerando as variantes, os especialistas ressaltam que é necessário continuar mantendo todas as medidas preventivas contra COVID-19, mesmo vacinados.

“Mesmo que eu me vacine, eu sou um potencial transmissor. Transmitindo, o vírus continua circulando, continua mudando, gerando novas variantes. É importante manter as medidas de higiene, distanciamento social, uso de máscara e educação da população para a gente poder enfrentar essa pandemia, que ainda não acabou”, ressalta a professora da UFMG.

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