ALERTA

Obesidade enfraquece o tratamento de crianças com asma

Crianças com excesso de peso e submetidas à tradicional terapia com inaladores têm mais crises que demandam atendimento de urgência, mostra estudo com 1,5 mil voluntários

Correio Braziliense
postado em 08/09/2021 06:00
Corticosteroides inalados são frequentemente prescritos para crianças com asma: cientistas defendem uma assistência  personalizada -  (crédito: Hans Scott/AFP)
Corticosteroides inalados são frequentemente prescritos para crianças com asma: cientistas defendem uma assistência personalizada - (crédito: Hans Scott/AFP)

O sobrepeso e a obesidade podem afetar a resposta de crianças asmáticas aos corticosteroides inalados (CI, na sigla em inglês), medicamentos comumente utilizados para tratar esse problema de saúde. A descoberta foi feita por cientistas holandeses após avaliarem dados médicos e genéticos de mais de 1,5 mil crianças. Os autores do estudo, apresentado ontem, no Congresso Internacional da Sociedade Respiratória Europeia, defendem a busca por alternativas terapêuticas mais eficazes para tratar pacientes com esse perfil.

No trabalho, os especialistas usaram dados de 1.511 crianças com asma, todas avaliadas em cinco pesquisas anteriores, com idade entre 2 e 16 anos e medicadas com corticosteroides ina-lados. Os pesquisadores se debruçaram sobre uma série de informações dos voluntários — como idade e sexo, diagnóstico e características da doença (por exemplo, medicamentos extras e crises recentes), índice de massa corporal (IMC), alergias e exposição a fatores ambientais prejudiciais, à fumaça do cigarro, por exemplo — para chegar a uma classificação do peso corporal mais personalizada.

Para isso, também usaram informações genéticas. A fim de mapear as variantes genéticas ligadas ao IMC, os especialistas colheram amostras de DNA do sangue, da saliva ou do muco das narinas das crianças. Segundo eles, é a primeira vez em que se utiliza essas informações para avaliar asmáticos. “Esses dados genéticos foram essenciais para avaliar se a resposta insatisfatória ao CI se dá devido ao excesso de peso ou a outros fatores, como morar em uma região com má qualidade do ar ou estar exposto à fumaça de cigarro”, detalham.

Conforme a pontuação de risco criada, quanto mais uma criança tiver variantes genéticas relacionadas a um IMC fora da faixa considerada normal, maior a pontuação contabilizada. “Um escore IMC maior do que 1 sugere que uma criança está em risco de sobrepeso, maior do que 2 sugere que está com sobrepeso, e uma pontuação maior do que 3 aponta que a criança está obesa”, detalham os autores.

Por meio de análises matemáticas, os investigadores descobriram que crianças com sobrepeso e obesas indicadas pela nova classificação tinham maior risco de apresentar uma resposta insatisfatória ao medicamento padrão de asma, definida pelos especialistas como uma ou mais crises que requerem atendimento médico urgente. “Observamos que o número de crianças com resposta ruim ao IC mais do que dobrou para cada aumento de unidade do IMC definido na pesquisa. Ou seja, crianças asmáticas com sobrepeso ou obesas têm maior probabilidade de apresentarem sintomas piores, mesmo utilizando o tratamento mais recomendado”, afirma, em comunicado, Cristina Longo, que conduziu o estudo durante o pós-doutorado na Universidade de Amsterdam e, agora, é professora-assistente na Universidade de Montreal, no Canadá.

Novas práticas

A autora do estudo explica que as diretrizes para o tratamento da asma recomendam o uso de corticosteroides inalados para crianças com asma e IMC acima do normal, mas os dados obtidos no estudo sugerem uma revisão dessas determinações. “Eles nos mostram que os médicos precisam adotar uma abordagem mais personalizada para tratar crianças com sobrepeso e obesas. Os pediatras e especialistas em asma precisam estar cientes de que crianças com IMC mais alto podem estar tomando CI sem nenhum benefício”, alerta.

Cristina Longo também defende a realização de mais pesquisas que identifiquem possíveis tratamentos alternativos. “Isso é algo que deve ser encorajado e priorizado, especialmente porque 30% das crianças com asma também são obesas. Com o aumento da epidemia de obesidade infantil, esperamos que essa porcentagem aumente, o que significa que esse problema será visto com mais frequência na prática clínica”, justifica.

A pesquisadora destaca ainda que os resultados obtidos são um alerta para os familiares de crianças asmáticas. “Para os pacientes e seus pais, nossos resultados lançam luz sobre as razões pelas quais algumas crianças podem não estar respondendo ao seu inalador de esteroides como o esperado, especialmente se elas estão tendo ataques de asma mais frequentes após o início dessa terapia”, explica. “Eles também podem ser o catalisador de que pais e filhos precisam para modificar a dieta e aumentar os exercícios. Isso pode melhorar o status do IMC da criança e sua resposta aos esteroides inalados.”

Chris Brightling, presidente da European Respiratory Society Science Council e professor de medicina respiratória na University de Leicester, no Reino Unido, aposta nos mesmos desdobramentos. “Essa é uma pesquisa muito boa e fascinante, com descobertas importantes e novas. Ela lança luz sobre a interação complexa entre genes, peso e resposta aos corticosteroides inalados, ressaltando a necessidade de combinar tratamentos diferentes quando necessário, além de adotar modificações no estilo de vida e na dieta”, avalia, em comunicado, o especialista, que não participou do estudo. A equipe holandesa pretende avaliar melhor as variantes genéticas consideradas no estudo atual a fim de entender se elas podem ser usadas na definição de melhores tratamentos.

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