Mudanças climáticas

Reduzir emissões de GEE não é mais suficiente para limitar o aquecimento global

Relatório ressalta que é urgente retirar de circulação os poluentes que já foram lançados

Paloma Oliveto
postado em 10/03/2022 06:00
 (crédito: CARL DE SOUZA)
(crédito: CARL DE SOUZA)

Se o mundo quiser atingir a meta do Acordo de Paris e limitar o aquecimento global a 1,5ºC até o fim do século, será preciso remover rapidamente o carbono da atmosfera. Um relatório divulgado na quarta-feira (9/3) pela Comissão de Transições Energéticas (CTE), organização não governamental internacional baseada na Inglaterra, sustenta que não bastará reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Paralelo a essa importante ação, o documento ressalta que é urgente retirar de circulação os poluentes que já foram lançados.

Segundo o CTE, a transição energética para modelos limpos, que não dependem da queima de combustíveis fósseis — principal fonte de emissão de CO2 — tem de ser complementada por uma descarbonização profunda para manter vivo o 1,5º C. A estratégia, diz o documento, "pode dar ao mundo uma chance de 50% de limitar o aquecimento global" ao nível mais ambicioso do Acordo de Paris.

O relatório da CTE afirma que todos os setores da economia "podem e devem descarbonizar até meados do século com grandes reduções de emissões na década de 2020". Cortar o uso de carvão pela metade e acabar com 70% do desmatamento até 2030 são prioridades particularmente importantes, diz o documento. Porém, mesmo considerando o caminho mais rápido possível de redução de emissões, o mundo precisará de pelo menos 70 Gt a 220 Gt de remoções de carbono que já está na atmosfera até 2050, para limitar as emissões líquidas cumulativas em um nível compatível com os objetivos climáticos do Acordo de Paris.

As remoções são obtidas de várias formas, e o documento cita que poderão ser alcançadas por meio de uma combinação de soluções climáticas naturais, como reflorestamento e melhor uso do solo; de engenharia, com tecnologias de captura direta do carbono na atmosfera, ou um modelo híbrido. O relatório afirma que as primeiras — recuperação de áreas degradadas e corte no desmatamento — devem dominar nos próximos anos, mas alerta que é preciso um monitoramento rigoroso para garantir uma medição de retirada do CO2 real.

Já as estratégias tecnológicas ainda são muito caras, embora os custos possam ser reduzidos ao longo do tempo. Grandes companhias alicerçadas nos combustíveis fósseis, como a ExxonMobil e a Shell. "Nenhuma solução de redução de carbono pode ser implantada em volumes significativos o suficiente para fornecer as remoções de emissões necessárias, e cada uma envolve custos e riscos diferentes", observa Adair Turner, presidente da Comissão de Transições de Energia. "Portanto, é necessária uma abordagem de portfólio, com soluções desempenhando papéis vitais e complementares", diz. Segundo ele, inicialmente, a maior parte do investimento deve ser focada em reflorestamento e em outras soluções naturais, ao mesmo tempo em que é preciso investir no desenvolvimento de tecnologias. "Nas décadas de 2030 e 2040, é provável que o portfólio mude para soluções híbridas e projetadas à medida que essas tecnologias mais novas sejam aplicadas em escala, reduzindo custos e aumentando sua disponibilidade", diz.

Financiamento 

Segundo Turner, um cenário viável sugere que, de quase zero hoje, as remoções podem chegar a 3,5 Gt por ano até 2030, fornecendo cerca de 165 Gt de sequestro cumulativo nos próximos 30 anos. Porém, ele destaca: "As remoções só ocorrerão se alguém pagar por elas. É necessário um aumento maciço do apoio financeiro de governos e empresas para dimensionar as remoções nas próximas décadas". Atualmente, o financiamento é de menos de US$ 10 bilhões por ano, afirma.

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