DIAGNÓSTICO PRECOCE

Cientistas descobrem forma de identificar câncer de pulmão mais cedo

Estudo realizado na Pensilvânia revelou uma nova abordagem com potencial para detectar células cancerígenas microscópicas, que normalmente não são visíveis em biópsia comum

Aline Brito
postado em 18/05/2022 23:01
 (crédito: PENN MEDICINE)
(crédito: PENN MEDICINE)

O diagnóstico do câncer de pulmão acaba de ganhar uma facilidade que pode salvar a vida de muitas pessoas. Pesquisadores do Abramson Cancer Center, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, descobriram uma maneira de identificar o câncer de pulmão mais cedo, ainda no nível celular, em tempo real durante uma biópsia. Isso significa que células cancerígenas microscópicas que antes não eram visíveis em um exame comum, se tornam possíveis de identificar, evitando que elas cresçam e oferecendo uma promessa de detecção mais confiável.

“A busca para diagnosticar o câncer de pulmão em estágios iniciais é uma peça central de nossa pesquisa, já que a detecção precoce está intimamente ligada às chances de sucesso do tratamento”, afirmou Sunil Singhal, médico na Penn Medicine, chefe da divisão de cirurgia torácica e responsável pela pesquisa. A detecção é realizada por meio de um agente de imagem, que utiliza tecnologia guiada durante biópsias em tempo real e pode, efetivamente, iluminar células cancerígenas. Geralmente essas células são muito pequenas para serem detectadas usando a tecnologia já existente.

A pesquisa, publicada na terça-feira (17/5) no periódico científico Nature Communications, apontou que cinco avaliadores não especialistas conseguiram diagnosticar, em 20 amostras humana analisadas, as biópsias de tecidos malignos ou não malignos com 96% de precisão, sem a existência de falsos negativos.

“Esta pesquisa ilumina a possibilidade de identificar e diagnosticar com mais precisão lesões que podem ser cancerígenas, mesmo aquelas que são muito pequenas e podem escapar de nossas capacidades típicas de diagnóstico”, explicou Singhal, em publicação feita no site EurekAlert.

Varredura de um paciente no estudo liderado pela Penn Medicine com um nódulo pulmonar, circulado em vermelho
Varredura de um paciente no estudo liderado pela Penn Medicine com um nódulo pulmonar, circulado em vermelho (foto: PENN MEDICINE)

O processo para descobrir o novo exame

A equipe de pesquisadores, chefiada por Sunil Singhal, examinaram células cancerosas humanas de pacientes que tinham histórico de tabagismo. Eles pegaram esses tecidos e os cultivaram em laboratório, junto com células normais, para ver quão pequena uma quantidade de células poderia ser detectada.

Em seguida, com a ajuda da pafolacianina, que é um agente de imagem óptico investigacional, emparelhada com uma plataforma de imagem baseada em sonda e agulha, o Cellvizio, os cientistas descobriram que a integração das tecnologias permite a detecção do câncer no nível celular. Para chegar à conclusão, eles utilizaram diversos modelos pré-clínicos: de pequenos animais e tecido humano de pacientes submetidos à cirurgia para câncer de pulmão como parte de um ensaio clínico em andamento.

Essa nova tecnologia combinada foi intitulada pelos estudiosos que a descobriram como NIR-nCLE, uma vez que une o rastreador de infravermelho próximo (NIR) direcionado ao câncer com um sistema de endomicroscopia confocal a laser (nCLE) baseado em agulha, o qual é modificado para detectar o sinal NIR.

Um dos tipos de câncer mais comuns

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, o câncer de pulmão é o terceiro câncer mais comum no país, e mais pessoas morrem desse tipo de câncer do que por qualquer outro. Mais de 236 mil pacientes são diagnosticados com a doença a cada ano, e mais de 130 mil pessoas morrem anualmente. No Brasil, o câncer de pulmão é um dos tumores malignos mais recorrentes.

Mesmo sendo tão comum, as biópsias existentes até o momento nem sempre eram eficazes, porque muitas vezes os nódulos em questão podem ser muito pequenos para serem vistos e removidos para testes adicionais. Os pesquisadores explicam que isso não apenas deixa muitos pacientes e médicos incertos sobre a presença do câncer, como também exige a necessidade de biópsias adicionais e vigilância radiológica até que o nódulo seja grande o suficiente para ser removido e avaliado por meio de um exame histopatológico — uma análise miscrocópica que pode levar vários dias para ser concluída.

“A tecnologia médica atual não fornece informações de diagnóstico em tempo real durante a biópsia”, ressaltou o médico Sunil Singhal. Dessa forma, métodos como o NIR-nCLE, que visam encontrar esses nódulos microscópicos, podem oferecer maior precisão na identificação e, posteriormente, na remoção das células cancerígenas. “A capacidade emergente de acender uma única célula que pode ser invisível aos olhos oferece uma grande oportunidade para dar aos pacientes a melhor chance de um diagnóstico precoce antes que o câncer se espalhe”, pontuou Gregory T. Kennedy, residente em Cirurgia Geral da Penn Medicine e um dos participantes da pesquisa.

Os pesquisadores esperam que essa nova abordagem possa ser usada para ajudar no diagnóstico precoce de outros tipos de câncer também. Os pesquisadores da Penn e parceiros da indústria foram pioneiros em tecnologias de imagem direcionadas adicionais para câncer de pulmão, cérebro, mama, sarcoma, cabeça e pescoço e trato urinário. “Esta abordagem única tem o potencial de melhorar as informações que obtemos das biópsias e pode aumentar nossas chances de identificar o câncer precocemente”, disse T. Kennedy.

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