COP30, a grande oportunidade

André Ferretti -  (crédito: Arquivo pessoal)
André Ferretti - (crédito: Arquivo pessoal)

André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

O Acordo de Paris está comprometido?

Os últimos dez anos foram individualmente os anos mais quentes já registrados. Isso não significa que os objetivos do Acordo de Paris já foram superados e que não há mais o que se possa fazer, mas é um alerta de que os esforços globais de redução de emissões de Gases de Estufa (GEE)  não estão sendo suficientes para mudar a trajetória de elevação da temperatura e, principalmente, que é preciso agir muito rápido para evitar os efeitos catastróficos. Nas últimas três décadas, não conseguimos avançar na intensidade e na velocidade necessária, mas ainda somos capazes de mudar a tendência que hoje nos leva a um cenário de aumento médio da temperatura da Terra por volta de 3°C até o fim do século. Para tanto, é preciso reduzir rapidamente as emissões de GEE, causadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis, mas também pelo desmatamento, e outras atividades humanas. 

Como o mundo está respondendo aos eventos extremos apontados pela OMM?

Infelizmente, o mundo está muito atrasado em medidas de adaptação às mudanças climáticas, urgentes para que se possa reduzir os impactos que têm sido cada vez maiores devido ao aumento da intensidade e frequência de eventos extremos a cada ano, em todo o planeta. Ondas de calor, secas, inundações e enchentes, furacões e tufões, ciclones e tornados, incêndios florestais, ressacas e avanço do mar, entre outros, têm gerado severos impactos socioeconômicos e ambientais, ceifado a vida de milhares de pessoas, e gerado um número cada vez maior de desabrigados do clima. São poucos os países, os municípios, as comunidades e as empresas que têm se preparado para o novo clima que se apresenta, com estratégias e planos de adaptação, e muito menos com a implementação de ações concretas de adaptação.

As Soluções Baseadas na Natureza podem ajudar na adaptação?

As Soluções Baseadas na Natureza (SBN), como a proteção e a restauração da vegetação no entorno de nascentes e margens dos rios, assim como nas encostas e áreas mais íngremes, e também de mangues, restingas e recifes de corais nas zonas costeiras, ou ainda das áreas verdes nas cidades, são estratégias essenciais para segurança hídrica, controle de erosão costeira, diminuição da perda de solo fértil, contenção de deslizamentos de terra e assoreamento de cursos d'água, além da reducão dos extremos de temperatura, dentre outros impactos que geram grandes prejuízos e reduzem a segurança e a qualidade de vida das pessoas.

Como o Brasil deve atuar na condição de anfitrião da COP30?

O Brasil é reconhecido internacionalmente pela sua habilidade diplomática em fóruns internacionais e por grandes contribuições às negociações multilaterais de combate às mudanças climáticas. A COP no país é uma oportunidade de o Brasil mostrar avanços e soluções que inspirem os demais e, ao mesmo tempo, gerar avanços importantes nas negociações internacionais em temas estratégicos, como aumento de ambição dos compromissos nacionais de redução de emissões, perdas e danos, aumento no financiamento internacional a países em desenvolvimento e mais vulneráveis para ações de redução de emissões e de adaptação, incluindo combate ao desmatamento, proteção e restauração de ecossistemas, bioeconomia, transição energética e Soluções Baseadas na Natureza, entre outros. (PO)

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postado em 20/03/2025 06:00
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