SAÚDE

Estudo liga Covid, dor crônica e saúde mental em pacientes reumáticos

Pesquisa conduzida pela UnB revela que fadiga extrema, depressão e ansiedade após a infecção podem ser confundidas com agravamento da doença reumática

Uma pesquisa brasileira apontou o impacto prolongado da Covid-19 na saúde mental e na percepção da dor. Conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (FMUnB), o estudo acompanhou mais de 600 pacientes em todo o país e identificou que sequelas emocionais e fadiga persistente após a infecção pelo coronavírus podem ser erroneamente interpretadas como piora de doenças reumáticas, mesmo quando não há sinais objetivos de reativação inflamatória.

Os resultados foram publicados na revista científica na revista Advances in Rheumatology e fazem parte do estudo multicêntrico ReumaCoV Brasil, realizado entre maio e dezembro de 2020 em 13 centros universitários distribuídos pelas cinco regiões do país.

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A pesquisa avaliou 601 pacientes com doenças reumáticas autoimunes: 321 que contraíram Covid-19 e 280 que não tiveram a infecção, formando o grupo controle. Entre os participantes estavam pessoas diagnosticadas com Doença Reumática Inflamatória Imunomediada (DRIM), como artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico.

Mesmo sem evidências clínicas de agravamento da doença reumática, os pacientes que tiveram Covid-19 apresentaram níveis significativamente mais elevados de fadiga, depressão, ansiedade e estresse. Segundo os pesquisadores, esses sintomas podem mascarar a real atividade da doença, induzindo médicos a um diagnóstico incorreto de reativação inflamatória.

“Os dados do estudo são muito relevantes e mostram que as sequelas da Covid-19 como fadiga, depressão, ansiedade e estresse  podem ser tão intensas que se confundem facilmente com um agravamento da própria doença reumática”, explica a reumatologista Licia Maria Henrique da Mota, uma das autoras do trabalho. “Isso cria um dilema clínico para os médicos e gera sofrimento desnecessário para os pacientes”.

Diagnóstico mais preciso e cuidado integral

De acordo com Licia Mota, os achados reforçam a necessidade de uma avaliação mais criteriosa e abrangente dos pacientes reumáticos no período pós-COVID-19. O estudo alerta para o risco de tratamentos inadequados quando sintomas emocionais e fadiga pós-viral são interpretados como atividade inflamatória da doença.

“Com esses dados, os médicos passam a estar mais atentos ao fato de que nem toda piora subjetiva é, de fato, uma reativação da doença reumática. Isso exige uma abordagem mais holística, evitando o uso desnecessário de medicamentos quando o foco do cuidado deveria ser a saúde mental ou o manejo da fadiga crônica”, afirma.

O trabalho também aponta para a importância de uma atuação multidisciplinar no acompanhamento desses pacientes. “Pessoas com doenças reumáticas autoimunes que tiveram COVID-19 podem precisar de suporte psicológico e estratégias específicas para lidar com a fadiga persistente, além do tratamento da doença de base. Ignorar esses aspectos compromete diretamente a qualidade de vida”, alerta a pesquisadora.

Impacto no SUS e na qualidade de vida

Além das implicações clínicas, o estudo traz reflexões importantes para o sistema público de saúde. Segundo Licia, diferenciar corretamente os sintomas emocionais da atividade da doença pode contribuir para a otimização de recursos no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Ao evitar o uso desnecessário de medicamentos de alto custo para doenças reumáticas quando o problema é outro, o sistema pode direcionar melhor os recursos para o cuidado em saúde mental e reabilitação”, destaca.

Para os pacientes, a compreensão do que está por trás dos sintomas pode trazer alívio. “Entender que a fadiga extrema, a ansiedade ou a depressão podem ser sequelas da COVID-19, e não necessariamente uma piora da doença reumática, ajuda a reduzir a angústia e direciona para o tratamento correto”, explica a médica.

A reumatologista reforça que o estudo evidencia a complexa interação entre infecções virais, doenças autoimunes e saúde mental. Para ela, é fundamental que o cansaço extremo e os sintomas emocionais sejam abordados de forma aberta durante as consultas médicas.

“É muito importante falar sobre cansaço e sobre o sofrimento emocional. Esses sintomas não podem ser naturalizados nem ignorados. Eles fazem parte do quadro clínico e precisam ser acolhidos”, orienta.

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