câncer de próstata

Medicamento alivia efeito colateral de tratamento oncológico

Até 80% dos pacientes de câncer de próstata que fazem terapia de privação androgênica sofrem com fogachos. Remédio para bexiga hiperativa reduz episódios em estudo

No estudo, os pacientes sofriam, em média, 10 episódios de fogacho diariamente, impactando na qualidade de vida -  (crédito: Atlantic institute/Divulgação )
No estudo, os pacientes sofriam, em média, 10 episódios de fogacho diariamente, impactando na qualidade de vida - (crédito: Atlantic institute/Divulgação )

Ondas súbitas de calor, acompanhadas de suor intenso, rubor e mal-estar, são frequentemente associadas à menopausa feminina. Mas esse sintoma também afeta milhares de homens em tratamento contra o câncer de próstata, comprometendo a qualidade de vida, o sono e o humor. Agora, um estudo demonstrou que um medicamento originalmente desenvolvido para tratar bexiga hiperativa pode reduzir o chamado fogacho em pacientes submetidos à chamada terapia de privação androgênica (TPA), que reduz drasticamente os níveis de testosterona para conter o avanço do tumor.

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O artigo, publicado no Journal of Clinical Oncology, demonstra que a substância oxibutinina, usada para reduzir contrações involuntárias na bexiga, interfere nos mesmos circuitos cerebrais responsáveis pela regulação térmica, diminuindo os episódios e a intensidade dos fogachos. O medicamento já havia sido testado, com sucesso, em mulheres, mas essa é a primeira vez que se investiga em pacientes do sexo masculino para combater os calores excessivos. 

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Embora existam medicamentos para combater esse efeito colateral da TPA, como antidepressivos, anticonvulsivantes e terapias hormonais, os resultados são variados, e a prescrição pode ser limitada por reações adversas. Os pesquisadores, da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, destacam que isso justifica a busca por alternativas mais eficazes e bem toleradas. 

Fadiga

Estima-se que entre 60% e 80% dos homens em TPA — um dos pilares no tratamento de câncer de próstata avançado ou de alto risco — desenvolvam fogachos. Em alguns casos, os episódios ocorrem várias vezes ao dia e também à noite, prejudicando o descanso. A privação crônica de sono pode levar a fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração e sintomas depressivos. Para parte dos pacientes, o desconforto é tão intenso que chega a comprometer a adesão ao tratamento oncológico.

"Os fogachos são frequentemente subestimados nos homens, mas podem ter um impacto real e duradouro na qualidade de vida durante o tratamento do câncer de próstata", afirma Bradley Stish, radio-oncologista da Clínica Mayo e primeiro autor do estudo. "Esse ensaio clínico demonstra que a oxibutinina pode proporcionar alívio significativo com um perfil de segurança favorável."

O estudo incluiu 88 homens com câncer de próstata em uso de terapia hormonal que apresentavam pelo menos 28 episódios de fogachos por semana. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos: um recebeu placebo; outro, oxibutinina na dose de 2,5mg duas vezes ao dia; e o terceiro, 5mg, também em dose dupla. 

Durante seis semanas, os homens registraram diariamente a frequência e a intensidade dos episódios. Além disso, responderam questionários sobre o impacto dos sintomas na rotina, incluindo sono, atividades sociais e bem-estar geral. Os dados mostraram que a dose mais alta de oxibutinina foi associada a uma redução média de quase sete ocorrências de fogachos por dia. No grupo placebo, a diminuição foi pouco superior a dois.

Gravidade

Além da frequência, a gravidade dos sintomas também caiu de forma mais acentuada nos grupos que receberam o medicamento. Quase 80% dos pacientes que usaram a dose mais alta alcançaram redução de pelo menos 50% nos episódios. Os questionários de qualidade de vida apontaram melhora significativa em aspectos como sono, bem-estar emocional e desempenho nas atividades cotidianas. Para muitos participantes, a redução dos fogachos significou voltar a dormir melhor e recuperar parte da disposição.

Os efeitos colaterais mais comuns foram boca seca e leve alteração visual, conhecidos do perfil do medicamento. Não foram registrados eventos adversos graves relacionados à droga, e a maioria dos participantes conseguiu completar o tratamento.

Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que o acompanhamento foi de apenas seis semanas. Ainda são necessários estudos de maior duração para avaliar a segurança em uso prolongado, especialmente em pacientes idosos, que podem ser mais sensíveis a medicamentos com ação anticolinérgica. Para o urologista Rafael Buta, especialista em doenças da próstata da Clínica Veridium, em Brasília, o estudo, porém, é promissor.

"Na minha experiência, já vi pacientes questionarem se vale a pena continuar o tratamento por conta desses efeitos colaterais — e o fogacho é uma das queixas mais frequentes. Ter uma opção como a oxibutinina, que mostrou boa eficácia e segurança neste estudo, nos permite manter o paciente em tratamento oncológico adequado e, ao mesmo tempo, cuidar do seu bem-estar. Isso é, na essência, tratar a pessoa, e não apenas a doença", disse Buta.

Aumento de casos

O câncer de próstata é um dos tumores mais frequentes entre homens em todo o mundo. No início deste mês, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou estimativas atualizadas da incidência dos diversos tipos de doenças oncológicas no Brasil. A previsão é de que, em 2026, sejam diagnosticados 77.920 novos casos da neoplasia prostática, um aumento de mais de 8% em relação ao ano passado. 

Segundo Denis Jardim, especialista em tumores urológicos da Oncoclínicas, o tratamento varia de acordo com o estágio e a agressividade e pode incluir bloqueio hormonal, quimioterapia, medicamentos para controle da testosterona e radioisótopos. "Em estágio inicial e de baixa agressividade, devemos manter um acompanhamento contínuo de consultas e exames, além do tratamento. Quanto aos pacientes que apresentam metástases, temos uma série de abordagens que podem ser realizadas, incluindo os radioisótopos, que são uma nova classe de medicamentos com partículas que se ligam ao osso e passam a emitir doses de radioterapia local."

 

Três perguntas para

Rafael Buta, mestre em Ciências Médicas, urologista especialista em doenças da próstata na Clínica Veridium

Como os fogachos impactam a qualidade de vida dos pacientes que fazem uso da terapia de privação androgênica (TPA)?

Os fogachos — aquelas ondas súbitas de calor intenso — são um dos efeitos colaterais mais comuns do tratamento hormonal para o câncer de próstata. E o problema vai muito além do desconforto do momento. Estamos falando de homens que passam a dormir mal, sentem cansaço durante o dia, têm dificuldade de concentração e muitas vezes se afastam de atividades sociais e do trabalho. O estudo publicado no Journal of Clinical Oncology — um dos periódicos mais respeitados da oncologia mundial — mediu esse impacto de forma sistemática e mostrou que os fogachos prejudicam praticamente todas as áreas do cotidiano: sono, humor, relacionamentos, vida sexual e aproveitamento da vida como um todo. Na minha prática, vejo que muitos homens sentem constrangimento em relatar esse sintoma, porque os fogachos costumam ser associados à menopausa feminina. Esse tabu acaba criando uma barreira para que eles recebam o tratamento adequado.

O reposicionamento da oxibutinina pode ser uma opção clínica?

A oxibutinina é um medicamento que nós urologistas já usamos há décadas para tratar a chamada bexiga hiperativa — aquela condição em que a pessoa sente vontade urgente e frequente de urinar. O perfil de segurança dessa medicação é muito bem estabelecido. O que este estudo mostrou é que ela também funciona para reduzir os fogachos em homens que fazem tratamento hormonal para o câncer de próstata. Um dado que me chamou bastante atenção: 87% dos pacientes que usaram a dose mais alta disseram que gostariam de continuar com a medicação, e 76% dos que estavam no grupo sem tratamento ativo pediram para receber a oxibutinina no fim do estudo. Isso mostra que o alívio percebido pelo paciente é real e significativo. 

Existe risco de a oxibutinina piorar a retenção urinária ou outros sintomas urinários?

Essa é uma preocupação muito pertinente. Pacientes com câncer de próstata frequentemente já têm dificuldade para urinar — seja pela própria doença, seja por tratamentos anteriores. O estudo teve esse cuidado: não incluiu pacientes que já apresentavam sintomas urinários graves ou que tinham precisado de sonda nos seis meses anteriores. Com essa precaução, os resultados foram bastante tranquilizadores. Os sintomas urinários não pioraram em nenhum dos grupos durante o tratamento. Na verdade, os pacientes que usaram a dose mais alta da oxibutinina relataram melhora na perda involuntária de urina, o que faz sentido, já que esse é justamente o efeito original do medicamento. Na prática, o fundamental é que o médico avalie bem os sintomas urinários do paciente antes de prescrever. (PO)

 

 

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postado em 24/02/2026 05:00
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