Práticas ligadas à criatividade, sejam elas no campo da arte — como dança, pintura, música — ou na elaboração de estratégias e soluções — como no caso de alguns jogos eletrônicos ou de tabuleiro que usem raciocínio criativo —, podem atrasar o avanço da idade cerebral. Ou seja, diminuir o grau de desgaste e envelhecimento morfológico do órgão. Um estudo, feito em conjunto por universidades de 13 países, descobriu que os efeitos da estimulação mental vão além dos benefícios já conhecidos quanto ao bem-estar, preservando também fisicamente estruturas importantes do cérebro.
Independentemente do tipo de exercício e de raciocínio realizado, executar ideias com o objetivo de criar algo novo, como uma coreografia de balé ou um plano dentro de um game, faz com que regiões-chave do cérebro sejam estimuladas, o que aumenta diretamente a plasticidade dessas áreas. Com isso, cria-se uma espécie de rejuvenescimento, que os cientistas chamam de lacuna cerebral — a diferença entre a idade "real" do órgão (cronológica) e a idade física dele. Uma lacuna maior, com o cérebro mais elástico e consequentemente mais "novo", retarda o processo natural de envelhecimento.
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As atividades descritas no estudo como "criativas" englobam ações que podem ser criar ou encenar uma história de teatro, pintar quadros, elaborar estratégias em jogos, escrever algum texto e até exercitar a descoberta de soluções possíveis para problemas de uma empresa, por exemplo. Com esses tipos de estímulo cerebral, os tecidos ficam mais flexíveis, o que aumenta o rendimento do sistema e atrasa sua degeneração. O processo é semelhante ao que ocorre com outras partes do corpo, como articulações que precisam ser exercitadas para terem melhor função por mais tempo.
A médica Elisa de Paula Freitas, coordenadora do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), destaca que não existem atualmente medicamentos capazes de retardar o envelhecimento do cérebro. Segundo ela, o efeito natural da criatividade para a idade cerebral é, por isso, uma novidade importante. "Esse fato é novo na comunidade científica, pois poucos estudos já haviam explorado o impacto das ações criativas no cérebro usando ressonância magnética. O estudo é inovador nesse ponto", destaca.
Imaginação
A pesquisa, publicada na revista Nature, aponta que o mais importante que as atividades mentais precisam ter para beneficiar a saúde do cérebro é o aspecto imaginativo, em um hábito que exija pensamento abrangente enquanto é praticado. Além disso, quanto mais personalizada uma ação for, maiores os efeitos de atraso no envelhecimento cerebral.
Por exemplo, se dentro de um jogo uma pessoa cria suas próprias estratégias em vez de aprender outras já existentes, esse pensamento, que os pesquisadores chamaram de "táticas únicas", trará ainda mais impactos na plasticidade do cérebro. Além disso, a prática prolongada de uma habilidade, como a dança, por exemplo, faz com que o corpo se torne especialista em algo criativo e pense nele por mais tempo, o que fortalece e mantém conexões neurais que são mais vulneráveis a enfraquecimento.
As análises foram feitas a partir de neuroimagens, obtidas em sua maioria com exames de ressonância magnética de pessoas que praticam as mais variadas técnicas de criatividade. A comparação de milhares de laudos embasou que os cientistas criassem "relógios cerebrais", que são modelos comparativos sobre o grau de degeneração do cérebro de cada indivíduo.
Cálculo
A técnica permite calcular a chamada lacuna de idade cerebral, que é a diferença entre idade cronológica do paciente e idade cerebral (em relação a quanto o órgão já envelheceu). As discrepâncias entre os dois dados, ou seja, quando um cérebro está mais velho ou mais novo que o organismo como um todo, são conhecidas como BAGs, que seriam os intervalos de tempo quando o envelhecimento da estrutura mental está acelerado ou retardado.
Segundo o estudo, o estímulo à imaginação, independentemente de como ela é feita, aumenta a neuroplasticidade em áreas específicas do cérebro, como nos centros frontoparietais, que são regiões muito ativadas pela criatividade. Os exames laboratoriais dos participantes mostram que, durante a elaboração de ideias ou de soluções inovadoras, o processamento de informações nas regiões-chave cerebrais é mais eficiente, benefício que se intensifica quando as práticas são mantidas a longo prazo.
* Estagiário sob supervisão de Lourenço Flores
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