O tratamento do glioblastoma, o tipo mais agressivo de câncer cerebral, passa por um marco científico com uma pesquisa internacional que rompe um bloqueio histórico ao transformar um vírus em aliado do próprio corpo no combate à doença. Até então, o tumor estava entre os maiores desafios da medicina moderna pela capacidade de se esconder do sistema imunológico.
O estudo conduzido por cientistas dos institutos Mass General Brigham e Dana-Farber Cancer, nos Estados Unidos, publicado nesta quarta-feira (11/2) na revista científica Cell, revelou que uma única aplicação de um vírus geneticamente modificado é capaz de ativar respostas imunológicas dentro do tumor, criando um caminho terapêutico para o glioblastoma.
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A técnica utiliza um vírus oncolítico, desenvolvido a partir do mesmo agente da herpes, mas alterado em laboratório para se reproduzir apenas em células cancerígenas. Ele não infecta células saudáveis. Ao entrar no tumor, o vírus destrói as células do câncer e, ao mesmo tempo, libera sinais biológicos que ativam o sistema imunológico, atraindo células de defesa para o interior do cérebro.
O que torna a descoberta especialmente relevante é o comportamento das células de defesa. As chamadas células T não apenas conseguem chegar ao tumor, algo que raramente acontece no glioblastoma, como também permanecem ativas por longos períodos, criando uma resposta contínua contra a doença.
No ensaio clínico de fase 1, com 41 pacientes com glioblastoma recorrente, a terapia demonstrou aumento da sobrevida em comparação com dados históricos. Muitos dos participantes já haviam esgotado outras opções de tratamento. A pesquisa também identificou que, quanto maior a proximidade entre as células de defesa e as células tumorais em processo de morte, maior o tempo de sobrevivência dos pacientes.
Outro achado importante foi a expansão de células imunológicas que já existiam no cérebro após a aplicação do vírus, indicando que a terapia não apenas recruta novas defesas, mas também fortalece as que já estavam presentes no organismo.
O estudo foi liderado pelos médicos E. Antonio Chiocca, responsável pelo desenvolvimento do vírus, e Kai Wucherpfennig, referência em imunologia do câncer. Para os pesquisadores, a descoberta representa uma virada científica ao transformar um tumor antes considerado "invisível" em um alvo direto do sistema imune.
Mais do que um avanço técnico, a pesquisa inaugura um novo modelo de enfrentamento ao câncer cerebral, no qual o próprio corpo passa a ser protagonista do combate à doença, destacam os pesquisadores. Ainda em fase experimental, a terapia já é vista como um marco por romper um ciclo de estagnação de duas décadas no tratamento do glioblastoma e abrir uma nova fronteira na oncologia moderna.
* Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca
