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UnB cria motor de foguete inédito com impressão 3D

Projeto reúne pesquisa de ponta, manufatura aditiva e cooperação internacional para impulsionar a autonomia tecnológica do país no setor espacial

Um motor de foguete híbrido, leve, resistente e projetado para operar em condições extremas de pressão e temperatura acaba de colocar a Universidade de Brasília (UnB) no centro do avanço tecnológico espacial brasileiro. Desenvolvido ao longo de mais de uma década de pesquisas no Laboratório de Propulsão Química, no campus da UnB Gama, o equipamento é considerado inédito no país e representa um salto para a soberania nacional na área aeroespacial.

Com cerca de três quilos e empuxo de um quilonewton (unidade de medida de força utilizada em engenharia, aviação e segurança), o motor foi pensado para aplicações em satélites e sistemas espaciais de alta performance, combinando baixo peso com alta resistência estrutural. A pesquisa integra um programa da Agência Espacial Brasileira voltado ao desenvolvimento de tecnologias críticas para o setor espacial, e partiu de um desafio complexo a criação um sistema totalmente novo em um campo ainda pouco explorado no país.

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Segundo o professor Oleksyi Shynkarenko, da Faculdade de Ciências e Tecnologias em Engenharia da UnB, a equipe precisou construir desde o início suas próprias metodologias de cálculo, validação térmica, estrutural e de pressão. Sem referências consolidadas na literatura científica nacional, os pesquisadores desenvolveram modelos inéditos de engenharia capazes de garantir desempenho e segurança em ambientes extremos, típicos de sistemas de propulsão espacial.

A fabricação do protótipo envolveu uma parceria estratégica com o Instituto Senai de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, referência nacional em impressão 3D metálica. O motor foi produzido com ligas de alto desempenho, como o Inconel, que são capazes de suportar temperaturas próximas de três mil graus e forças internas equivalentes a dezenas de toneladas dentro da câmara de combustão.

A manufatura aditiva permitiu criar estruturas internas complexas, como canais de refrigeração e geometrias otimizadas, inviáveis na fabricação tradicional. Além da impressão, o projeto exigiu etapas rigorosas de tratamento térmico, pós-processamento e usinagem para garantir precisão, resistência e confiabilidade do sistema.

Hoje, o Laboratório de Propulsão Química reúne cerca de 60 pesquisadores, entre estudantes e docentes, e mantém uma rede de cooperação que inclui a Força Aérea Brasileira, empresas do setor aeroespacial e instituições internacionais. Uma das parcerias é com a Kyungpook National University, na Coreia do Sul.

O projeto também atraiu a atenção do Ministério da Defesa, que passou a acompanhar os desdobramentos da iniciativa. Para os pesquisadores envolvidos, o avanço em propulsão espacial não é apenas científico, mas estratégico. Sem veículos e tecnologias próprias, o país permanece dependente de outras nações para colocar satélites em órbita.

A trajetória da equipe da UnB revela um marco importante para a engenharia nacional. Sem referências consolidadas, os pesquisadores se viram diante do desafio de conceber ferramentas próprias para análise e validação estrutural. O resultado foi uma metodologia inédita, capaz de integrar aspectos térmicos, forças aplicadas e pressão em um modelo robusto e confiável. Esse avanço demonstra a capacidade de inovação da universidade, como também abre caminho para futuras aplicações em projetos de alta complexidade.

*Estagiária sob supervisão de Paulo Leite 

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