Substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS), chamadas também de "químicos eternos" — porque se degradam com extrema dificuldade e lentidão —, agem como disruptores endócrinos no organismo humano, atrapalhando o funcionamento normal dos hormônios e provocando mudanças no desenvolvimento infantil. Agora, uma equipe da Universidade da Carolina do Norte (UNC), nos Estados Unidos, descobriu que crianças expostas às PFAS correm maior risco de terem problemas ósseos na adolescência. Segundo os autores, esses compostos sintéticos são encontrados na água, em alimentos e em produtos de uso diário — como no teflon das panelas, em espumas de combate a incêndios e em material têxtil. O trabalho foi publicado ontem na revista Journal of the Endocrine Society.
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Estudos experimentais sugerem que esses materiais podem interferir na sinalização da vitamina D, nos hormônios da tireoide e nos esteroides sexuais, todos importantes para a mineralização óssea. "Os PFAS também podem afetar o equilíbrio entre as células formadoras e reabsorventes de osso, e alguns tipos dessa substância foram encontrados em tecido ósseo humano", detalha ao Correio Jessie P. Buckley, cientista da UNC e líder da pesquisa.
Os autores estudaram as concentrações de PFAS no sangue de 218 adolescentes de um grupo monitorado na gravidez, no momento do parto e aos 3, 8 e 12 anos. Eles mediram a densidade óssea aos 12 anos e descobriram que os jovens com níveis mais altos de ácido perfluorooctanoico no sangue apresentaram menor massa óssea no antebraço.
Vulnerabilidade maior
Para outros tipos de PFAS, a relação com a saúde dos ossos variou dependendo do momento da exposição, sugerindo que certos estágios de desenvolvimento podem ser especialmente vulneráveis. As associações entre os níveis de químicos eternos e a menor densidade óssea foram mais fortes entre as mulheres do que entre os homens.
Segundo Ana Paula Barreto, endocrinologista do Hospital Mantevida, quando dentro do corpo feminino, esses produtos podem incentivar os ovários a fabricarem mais estrogênio. "O aumento considerável desse hormônio favorece a produção de tecido gorduroso, adiposo. Isso resulta em uma massa óssea de menor qualidade, menos osso e mais gordura."
A especialista destaca que, na prática clínica, outros disruptores endócrinos, como metais pesados, tal qual chumbo e mercúrio, podem ser dosados em exames. "No entanto, os testes mais específicos são para ter controle da qualidade da água, solo e da composição de embalagens de produtos utilizados no dia a dia, como cosméticos, ou até mesmo de alimentos, panelas e utensílios domésticos. Mas associar uma baixa massa óssea em criança ou adolescente a partir da identificação de algum desses PFAS não é possível."
Efeitos demorados
De acordo com os pesquisadores, a saúde óssea reflete exposições que ocorrem anos ou até décadas antes que doenças se manifestem. Pequenas alterações no desenvolvimento ósseo durante a infância podem não ser imediatamente óbvias, mas são capazes de aumentar o risco de fraturas e osteoporose na vida adulta. "Isso ressalta a importância de prevenir exposições nocivas desde cedo."
Durante a adolescência, os ossos passam por uma fase fundamental de fortalecimento, que depende diretamente do equilíbrio dos esteroides responsáveis pelo crescimento e amadurecimento humano. "Os PFAS podem afetar os hormônios da puberdade, da tireoide e do crescimento, prejudicando os sinais que estimulam a formação óssea adequada."
Além disso, há indícios de que essas substâncias possam agir diretamente nas células do osso, alterando o equilíbrio entre formação e reabsorção óssea. Como a adolescência é o período em que se constrói a maior parte da massa óssea da vida, essa interferência pode resultar em ossos menos densos e mais frágeis no futuro", frisa Ana Paula Rocha, endocrinologista do Hospital Anchieta, em Brasília.
Os cientistas reforçam que o desenvolvimento ósseo começa durante o período fetal, prossegue durante a primeira infância e aumenta por volta da puberdade. "Nossos resultados sugerem que a exposição a PFAS durante o final da infância e o início da adolescência, períodos de rápido acúmulo de massa óssea, pode ter efeitos mais fortes na densidade óssea dos jovens. Ainda assim, estudos futuros são necessários para avaliar se essas associações persistem, desaparecem ou se alteram à medida que as crianças chegam à idade adulta", destaca Buckley.
